Garrincha, o Anjo das pernas tortas: entre dribles, vícios e loucura

Há 34 anos faleceu um dos maiores jogadores de todos os tempos

Luiz Fiaes
Colaborador do Torcedores

Se estivesse vivo, Garrincha completaria 84 anos de vida, então nesse dia especial confira um pouco da história do homem que deu alegria ao povo!

Muitos não ouviram falar dele, mas aqueles que o viram alegaram que ninguém na história tinha o seu gambeta. Seus joelhos não suportavam a deformidade de suas pernas e seus litros de álcool. Ele deixou 14 filhos e morreu em ruína.

Punido por acaso

O destino queria que ele fosse o sétimo filho de um pai alcoólatra. Sua mãe também era sua irmã mais velha, Rose, a mesma que deu o apelido de Garrincha a Manuel Francisco dos Santos. Uma vítima de poliomielite de seis anos de idade com uma deformidade no nascimento da coluna vertebral.

Garrincha teve sua perna direita torcida, e a esquerda, era mais de seis centímetros, dobrada. Nem mesmo o pensamento mais otimista que ele poderia desenvolver um esporte normalmente. Mas havia mais do que isso.

 

 

 

Alegria do povo

O inesquecível Eduardo Galeano escreveu que “ninguém na história do futebol fez as pessoas felizes como ele”. Ele estava falando sobre Garrincha, é claro.

No tribunal, como na vida, era extremo. Ele tinha um estilo particular de deixar seus oponentes ir e parecia desfrutar mais disso do que converter objetivos.

Não foi suficiente para vencê-los, ele voltou em seus passos para esquivá-los novamente e novamente, como se ele realmente estivesse com um número de circo.

 

Duas copas e um filho

Na pré-Copa do Mundo de 1958 na Suécia, os jogadores da equipe brasileira tiveram que fazer um teste psicofísico cujo resultado não poderia ser inferior a 123 pontos para que eles pudessem viajar.

O resultado de Garrincha foi de 38. Ele foi tão bom, apesar de suas limitações físicas e psicológicas, que seus colegas de equipe o pressionaram a não ser desafetado da equipe e finalmente participou da Copa do Mundo. Sua desconexão com o mundo real foi tal que, durante as festividades do título, ele perguntou: “Como? E a segunda roda?” Além de sua magia,

também deixou na Suécia uma semente que nove meses depois seria chamada Ulf e faria seja um dos seus 14 filhos.

Quatro anos depois, ele era a figura mais alta de um Brasil que, sem Pelé, ferido na segunda partida, repetiria seu título mundial no Chile ’62. Os jornalistas brasileiros que foram a esse copo lembraram as táticas da equipe: “Você tem que dar a Garrincha”. Ele foi um dos goleadores do torneio com quatro gols com seu colega de equipa Vavá, o húngaro Florian Albert e o russo Valentin Ivanov.

Apesar da artrose séria que lhe foi diagnosticada nos joelhos pela má postura de suas pernas curvas, Garrincha chegou a tocar sua terceira Copa do Mundo na Inglaterra em 1966,

embora apenas tenha disputado as duas primeiras partes. Na estréia, ele marcou um tiro livre inesquecível com o lado direito do pé direito. O “banana shot” foi um distintivo ao longo de sua carreira. Seria a sua última festa com o casaco amarelo-verde. O Brasil venceu a Bulgária por 2 a 0. O outro objetivo foi Pele e essa foi a única vez que ambos marcaram golos no mesmo jogo. A segunda aparição foi uma derrota por 3-1 contra a Hungria. Garrincha não sabia, mas esse seria seu último jogo na seleção nacional. E foi a primeira vez que perdi naquela camisa.

O pôr-do-sol e adeus

A dor no joelho era insuportável e, embora os médicos de Botafogo não queriam que os meniscos fossem operados porque perderiam dinheiro enquanto ele não podia jogar, Garrincha concordou com a cirurgia. Esse seria o começo do fim. Nunca mais seria o mesmo. Em 1973, ele teve sua homenagem de festa: a FIFA armou uma equipe com a maioria dos argentinos e uruguaios e ele jogou cercado por seus melhores companheiros da seleção brasileira. O Maracanã raramente estava mais cheio do que aquele dia, talvez apenas no final de 1950,

o maracanazo lembrado, festa que Garrincha nem viu na televisão porque naquele dia, aos 16 anos, preferia ir pescar.

Garrincha jogou por um tempo e, antes do final do primeiro semestre, despediu-se. O árbitro parou o jogo para que as 131 mil pessoas presentes o aplausem. Como pôde, ele fez uma volta olímpica e desapareceu pelo túnel. A partir desse túnel, nunca mais irei sair.

Poder dentro e fora dos gramados

Virtualmente porque ele tinha consciência e um pouco de dinheiro no bolso, Garrincha encontrou razões para afogar suas tristezas em álcool. Dos seus três amores no Brasil (ele teve um fugaz na Suécia), a pessoa que mais sofreu o coração foi Elsa Soares,

uma lenda de samba com quem passou 15 anos. Não era o último, mas aquele que sempre carregava no coração.

Durante o que durou a alegria na cidade do Botafogo pelos gambits de Garrincha, os líderes fizeram sorte e ao grande Mané pagaram menos do que muito pouco a ele. Sua inconsciência era tal que um dia dois agentes bancários apareceram em sua casa em Pau Grande e encontraram dinheiro podre ao ar livre. No entanto, nos últimos anos duas coisas abundaram: pobreza e álcool. Extremo. Sempre na borda entre dentro e fora, equilibrando pela linha. Assim morou Garrincha e assim morreu, aos 49 anos, quando seu corpo não tolerava mais uma gota.