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PAPO TÁTICO: Vantagem mínima do Flamengo na Sul-Americana nasceu da mudança de postura; entenda

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Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Crédito da foto: Gilvan de Souza / flamengo.com.br

“Tem que jogar que nem homem! Tem que honrar a camisa, comer grama, colocar a faca entre os dentes!” Este que vos escreve já ouviu esse discurso de torcedores apaixonados mais de um milhão de vezes só nos últimos três anos. De fato, se uma equipe alia intensidade, disposição e raça na medida certa ao talento dos seus jogadores e a um bom esquema tático, já é meio caminho andado para se conquistar um resultado positivo. Essa foi a principal mudança no Flamengo nesta quarta-feira. E a grande qualidade do time também. Os comandados de Reinaldo Rueda não precisaram comer grama, mas adotaram outra postura (muito mais “pilhada” e com mais intensidade do que nas últimas partidas) e venceram o Fluminense por um a zero no jogo de ida das quartas de final da Copa Sul-Americana. E isso num jogo em que cada uma das equipes dominou um tempo. O duelo ainda está em aberto e será decidido na próxima semana, no Maracanã.

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A grande verdade é que fazia muito tempo que o torcedor rubro-negro não via uma atuação do seu time como a do primeiro tempo desta quarta-feira. Mesmo com a lesão de Réver, o Flamengo mantinha a posse de bola, se defendia em duas linhas de quatro e ainda encontrava em Diego e Everton Ribeiro dois grandes articuladores de jogadas. Tanto que o único gol da partida saiu em bela jogada do camisa sete com Willian Arão pela direta para Everton mandar para as redes após rebote de Diego Cavalieri. E tudo isso facilitado pela marcação frouxa do 4-1-4-1 inicial de Abel Braga. Sem a ajuda de Orejuela e Marcos Júnior, o volante Richard ficava sobrecarregado na proteção da dupla de zaga e, como consequência, o time não conseguia sair para o ataque. Quando finalmente conseguiu, o goleiro Diego Alves apareceu bem em chute de Henrique Dourado. O Flamengo era melhor no primeiro tempo e tudo apontava para uma vitória sem sustos.

O Flamengo foi melhor no primeiro tempo, usando e abusando da criatividade de Diego e Everton Ribeiro e da dinâmica de Cuellar na saída de bola. Faltava ao Fluminense ocupar melhor os espaços e se posicionar melhor dentro de campo.

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Ao ver sua equipe correndo atrás do adversário (e do prejuízo) no Maracanã, o técnico Abel Braga já havia corrigido o posicionamento dos seus jogadores no final da primeira etapa. Após o intervalo, o que se viu foi um Fluminense completamente diferente. Com os laterais Lucas e Marlon jogando mais espetados, Gustavo Scarpa e Marcos Júnior mais ligados e dando opção de passe a Sornoza (que parece estar voltando à velha forma) e Henrique Dourado fazendo bem o papel de pivô, o Tricolor das Laranjeiras passou a ter mais posse de bola e a ameaçar mais a meta de Diego Alves. Tudo isso por conta da mudança para o 4-2-3-1 e da entrada de Wendel no lugar de Orejuela (bem abaixo do que pode e deve jogar). O Flu avançou ainda mais as linhas e via o Flamengo rifar a bola em busca de Lucas Paquetá, Diego e Everton Ribeiro. Marcos Júnior acertou a trave e Diego Alves foi buscar chute de Gustavo Scarpa no ângulo direito.

A solução de Reinaldo Rueda foi a entrada de Márcio Araújo no lugar de Everton (para desgosto e protesto de vários torcedores rubro-negros). A ideia do treinador colombiano era recuperar o meio-campo e reforçar a marcação no setor, deslocando Willian Arão para o lado direito e deixando Everton Ribeiro ajudando na esquerda e de olho nas descidas de Lucas e Gustavo Scarpa. E funcionou de certa forma. O Fla voltou a ter posse de bola e ainda viu Juan acertar a trave direita de Diego Cavalieri depois de falta cobrada da intermediária por Trauco. Ainda houve tempo para Robinho entrar na vaga de Marlon (deslocando Scarpa para a lateral), para Wellington Silva mostrar que vem fazendo muita falta no elenco tricolor e Felipe Vizeu chegar atrasado em passe de Diego. Não foi um grande jogo. Mas foi um jogo em que o principal foi a mudança de postura de um time badalado e milionário. Faz bem de vez em quando.

Abel Braga mexeu na disposição e nos brios dos jogadores após o intervalo e viu um Fluminense intenso e envolvente equilibrar as ações no jogo e fazer Diego Alves trabalhar. O Flamengo só assustava nos contra-ataques e nas bolas paradas. Mas ainda assustava.

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Vale destacar aqui a atuação de alguns jogadores. Do lado do Flamengo, Juan foi um monstro mais uma vez. Desarmou por cima e por baixo, orientou a defesa e ainda deixou uma bola na trave. Cuellar foi um monstro na saída de bola e na marcação no meio-campo. Diego e Everton Ribeiro parecem se entender mais e mais a cada partida que passa. E Diego Alves vem trabalhando para acabar com o trauma recente dos torcedores com relação ao gol. Do lado do Fluminense, Richard foi um leão no meio-campo, marcando e correndo por Orejuela no primeiro tempo. Sornoza distribuiu bem o jogo e cresceu de produção com a mudança tática promovida por Abel Braga. Assim como Lucas, Marlon, Marcos Júnior e Gustavo Scarpa. E Wendel parece estar tomando juízo depois de levar puxão de orelha público do comandante tricolor.

A vaga nas semifinais da Copa Sul-Americana ainda está aberta. Os elencos de Flamengo e Fluminense sabem muito bem disso. Resta saber como as duas equipes vão estar na próxima semana. Os comandados de Reinaldo Rueda têm o clássico contra o Vasco. E os comandados de Abel Braga encaram o Bahia. Tudo no Maracanã. A expectativa é por um jogo mais ofensivo por parte das duas equipes e menos regulamentos embaixo do braço. Até porque o nível do futebol jogado por aqui anda bem fraquinho nesses últimos tempos. Mesmo com pequenas (e importantes) mudanças na postura.