PAPO TÁTICO: Como a Seleção Brasileira se comportou na “primeira etapa do vestibular” para a Copa do Mundo

Crédito da foto: Lucas Figueiredo / CBF

Todo mundo sabe que fim de ano é época de vestibular (pelo menos por essas bandas de cá). Curiosamente, as coisas também têm funcionado de maneira semelhante para alguns jogadores da Seleção Brasileira. Os comandados de Tite precisaram de apenas quarenta e cinco minutos para vencer o Japão por três a um no Stade Pierre-Mauroy, em Lille, na França. Não foi lá uma partida muito empolgante, é verdade. Mas ela serviu para que o técnico brasileiro pudesse observar alguns jogadores em campo por mais tempo, casos de Fernandinho, Giuliano, Danilo, Thiago Silva e Jemerson, e também algumas (poucas) variações no sistema tático. Tudo isso já pensando, é claro, na Copa do Mundo de 2018, na Rússia. Tivemos coisas boas dentro de campo. E algumas nem tanto. Mas é nítido que a Seleção Brasileira já tem a cara de Tite, com bastante organização, disciplina tática, boa movimentação e boas trocas de passe. A próxima “etapa do vestibular” para a Copa do Mundo da Rússia acontece na terça-feira, contra a Inglaterra. 

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Assim que a bola rolou no Stade Pierre-Mauroy, já foi possível perceber que o escrete canarinho se comportava de maneira um pouco diferente do que nas últimas partidas das Eliminatórias da Copa do Mundo. Com Willian em campo, a Seleção Brasileira tinha mais cara de 4-3-3 do que de 4-1-4-1, já que o camisa 19 tem mais perfil de ponteiro do que o (em tese) titular Philippe Coutinho. E aí já temos a primeira variação tática: quando o time era atacado, Willian recuava pela direita e Fernandinho pela esquerda, num desenho tático bem semelhante ao Real Madrid de Carlo Ancelotti (clique aqui para relembrar a final da Liga dos Campeões da UEFA de 2013/14). Duas linhas com quatro jogadores bem compactadas e com os jogadores próximos para dar opção de passe na saída de bola. Na frente, Neymar e Gabriel Jesus tinham liberdade para se movimentar por todo o setor ofensivo. A atuação da Seleção Brasileira no primeiro tempo e os três gols marcados mostram que a estratégia deu certo.

Disposição tática inicial das duas equipes no Stade Pierre-Mauroy. Com Willian em campo, a Seleção Brasileira se armou num 4-3-3 semelhante ao utilizado por Carlo Ancelotti no Real Madrid. Crédito da foto: Reprodução / SPORTV.

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Se Willian fazia um bom papel como ponteiro pelo lado direito, Fernandinho e Giuliano também mostravam um bom futebol como substitutos de Renato Augusto e Paulinho. O camisa cinco organizava a saída de bola com qualidade e ainda se posicionava mais à esquerda para liberar Neymar e cobrir os espaços deixados por Marcelo (que marcou um belo gol num potente chute de fora da área) sempre que este subia ao ataque. Já Giuliano aparecia muito bem como opção de passe e ainda participava da marcação junto à Casemiro. Vale a pena também destacar a boa atuação de Danilo na lateral-direita. O camisa 22 apareceu bem no ataque e não comprometeu na marcação pelo seu setor. A sua participação no terceiro gol brasileiro (marcado por Gabriel Jesus) mostrou que ele tem seguido á risca as orientações de Pep Guardiola no Manchester City. Willian recebeu na meia-direita e abriu o corredor para a subida de Danilo, que cruzou rasteiro para o companheiro de clube marcar. Tudo dentro da dinâmica que Tite quer para a Seleção Brasileira na Copa do Mundo no próximo ano.

Danilo fez boa dupla com Willian pelo lado direito. os dois abusaram das ultrapassagens e não comprometeram na recomposição defensiva. Foi numa jogada dessas que saiu o terceiro gol da Seleção Brasileira, marcado por Gabriel Jesus. Crédito da foto: Reprodução / SPORTV.

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Mas nem tudo são flores. Talvez pela falta de entrosamento entre Thiago Silva e Jemerson na zaga ou talvez pelo relaxamento (até certo ponto natural) com a vantagem de três gols construída no primeiro tempo. Fato é que o jogo perdeu emoção e as entradas de Cássio, Alex Sandro, Renato Augusto, Taison, Douglas Costa e Diego Souza não mudaram esse panorama. Tanto que o Japão cresceu um pouco no segundo tempo e diminuiu com o zagueiro Makino marcando de cabeça após cobrança de escanteio da direita e aproveitando cochilo da zaga canarinho (principalmente Jemerson). Mas o jogo ficou nisso. E é aí que mora o perigo para alguns atletas, já que é sabido que Tite gosta de concentração e aplicação durante os noventa minutos, mesmo num amistoso. A Seleção Brasileira se deu por satisfeita com o resultado e o escrete nipônico recolheu as armas depois do gol. Ainda houve tempo para Alex Sandro perder boa chance na frente de Kawashima em bom cruzamento de Danilo. Mas nada que alterasse o placar e acabasse com a pasmaceira no final da partida.

O Japão melhorou (um pouco) no segundo tempo com o relaxamento da Seleção Brasileira e diminuiu o placar com Makino marcando de cabeça. No frame, a movimentação do zagueiro japonês até balançar as redes. Crédito da foto: Reprodução / SPORTV.

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A “primeira etapa do vestibular” para a Copa do Mundo terminou com boas impressões de Fernandinho (que foi muito bem na saída de bola e na recomposição defensiva pelo lado esquerdo), Giuliano (que teve fôlego para aparecer no ataque em dinâmica semelhante à de Paulinho apesar do claro nervosismo em alguns momentos da partida) e principalmente Danilo. Como já dissemos anteriormente, o lateral-direito do Manchester City esteve bem e se transformou em sério candidato para assumir a vaga de reserva de Daniel Alves. Não somente pela atuação contra os japoneses, mas pela já conhecida versatilidade. O camisa 22 sabe jogar na lateral e ainda cumprir algumas funções no meio-campo, fato que já o coloca junto do corintiano Fagner na disputa por uma vaga na Copa do Mundo. Ainda há espaços para mais testes, como a utilização do gremista Arthur no meio ou de outra formação tática, como um 4-2-3-1 com Philippe Coutinho centralizado e Neymar como “falso nove”.

Sobre o camisa dez, a única preocupação deste que vos escreve está no temperamento do jogador. O cartão amarelo tomado por um lance ridículo é a prova de que Tite terá bastante trabalho para mostrar a Neymar que ele será sim provocado nos jogos da Copa do Mundo. Mesmo com os pedidos da FIFA para coibir os lances mais violentos e a falta de “fair play”. Será preciso ter sangue frio para não cair na pilha dos adversários e responder unicamente na bola, onde Neymar sabe muito bem o que faz.



Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.