PAPO TÁTICO: Paulinho e Busquets, as provas vivas da importância de se ter volantes bons no trato com a bola

Caro amigo leitor do TORCEDORES.COM, acho que você já deve estar cansado de ouvir falar do velho papo do “volante brucutu”. Aquele jogador que atua à frente da zaga e que tem como única função parar os ataques adversários e passar a bola para o companheiro de equipe mais próximo. O jogador que é classificado por muitos como “cão de guarda” no meio-campo. Pois bem, esse tempo acabou. E faz tempo. A vitória do Barcelona sobre o Real Madrid dentro do Santiago Bernabéu é a prova disso que estamos falando. Messi, Ter Stegen e Piqué jogaram demais. Mas quero aqui falar de dois jogadores que destruíram o escrete merengue com grandes atuações: o brasileiro Paulinho e o espanhol Sergio Busquets. Dois volantes que marcam bem, sabem o que fazer com a bola, possuem grande qualidade no passe e ainda chegam no ataque. Esqueça o “volantão” de uma vez. Para se dar bem no futebol hoje é preciso fazer muito mais do que simplesmente destruir jogadas.

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Crédito da foto: Reprodução / Facebook / UEFA Champions League

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A importância de Paulinho e Busquets no time de Ernesto Valverde ficou evidente neste sábado, em Madrid. Com o Santiago Bernabéu lotado para a realização do último “El Clásico” do ano de 2017, o Barcelona entrou em campo armado num 4-4-1-1 mais cauteloso, com Messi saindo da direita para o centro à frente de uma linha formada por Iniesta, Busquets, Rakitic e Paulinho. Este último, aparecia jogando aberto pela direita, fechando as descidas de Marcelo e saindo em velocidade para o ataque. Já o Real Madrid apostava num 4-4-2 mais ortodoxo, com Kovacic próximo a Casemiro com o objetivo de qualificar o passe na saída de bola e, claro, vigiar Messi. Toni Kroos e Modric saíam do lado para o meio para tentar bagunçar a defesa catalã. Com os merengues melhores em campo, o gol só não saiu por causa da trave e da grande atuação de Ter Stegen no gol do Barcelona. Mas o Real Madrid pecava justamente pela falta de intensidade em alguns momentos. Tanto que seu adversário cresceu no final dos primeiros quarenta e cinco minutos.

Real Madrid e Barcelona entraram em campo armados no 4-4-2, mas o time merengue esteve mais próximo do gol na primeira etapa. O Barça só equilibrou o jogo quando Paulinho começou a se lançar ao ataque pela direita. Faltava intensidade ao Real Madrid.

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Lembram que eu comecei falando da importância de se ter volantes bons no trato com a bola? Se Paulinho já havia mostrado sua importância no time de Ernesto Valverde, o que podemos falar de Sergio Busquets? O camisa cinco blaugrana talvez seja o jogador mais subestimado da história do Barcelona. Marca em cima, se posiciona bem e ainda tem uma precisão assombrosa nos passes curtos, nos lançamentos longos e nas bolas enfiadas. Além, é claro de ter uma visão de jogo absurda. No lance do primeiro gol da partida (marcado por Suárez), Busquets recebeu a bola, protegeu a sua posição e esperou o momento certo para acionar Rakitic com um passe preciso no meio de seis adversários. Já nos vitoriosos tempos de Pep Guardiola, todas as jogadas de ataque passavam por ele. E quando um jogador comum apelaria para um simples chutão para onde o corpo está virado, Busquets prefere levantar a cabeça e esperar a movimentação dos companheiros de equipe. O primeiro gol do Barcelona foi uma aula de contra-ataque. Simples assim.

Busquets conseguiu encontrar espaço para seus companheiros se posicionarem para iniciar o contra-ataque mortal do primeiro gol do Barcelona. O camisa cinco tem sido fundamental no time catalão há anos. Crédito da foto: Reprodução / ESPN Brasil.

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Se Busquets é imprescindível no início da criação das jogadas, Paulinho já mostrou a sua importância no terço final do campo. Eu e você nos lembramos bem dele atuando como segundo volante que chega ao ataque aproveitando a movimentação no setor ofensivo. E o que falar de Paulinho jogando como terceiro atacante? Não, amigo. Não fumei orégano no lugar da “erva” não. Notem o frame abaixo, onde Messi tem a bola, Suárez arranca pela direita e o camisa quinze sai do seu setor e procura o espaço vazio no outro lado, se colocando até em melhor posição do que o uruguaio para tentar o arremate a gol. Se o toque de bola está no DNA do Barcelona, Paulinho veio trazer o jogo mais vertical, mais incisivo em direção ao gol. O próprio Ernesto Valverde já falou sobre a importância do brasileiro na equipe mais de uma vez, ressaltando seu gosto por pisar na área e por balançar as redes. A qualidade tem sido tão grande que até como atacante ele tem atuado. Excelente para quem era apontado como bola fora dos catalães na última janela de transferências.

Paulinho trouxe o jogo vertical ao Barcelona com velocidade e as já conhecidas arrancadas dos tempos de Corinthians. Tudo dentro dos preceitos do 4-4-1-1 equilibrado de Ernesto Valverde que fecha o meio-campo e explora os contra-ataques de maneira mortal. Messi arma e o camisa quinze se lança no espaço vazio. Crédito da foto: Reprodução / ESPN Brasil.

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É preciso dizer que o gol de Suárez desmontou o Real Madrid. Tanto que o segundo gol não demorou a aparecer. E justo em mais uma jogada de contra-ataque que terminou com uma “defesaça” de Carvajal e o cartão vermelho para o camisa dois merengue. Messi cobrou e balançou as redes pela vigésima-quinta vez num clássico contra o Real Madrid. O técnico Zinedine Zidane não teve outra alternativa senão sacar Benzema, Casemiro e Kovacic para as entradas de Nacho Fernández, Asensio e Gareth Bale, rearrumando a equipe merengue numa espécie de 4-2-3 com Cristiano Ronaldo no comando do ataque. O Barcelona apenas administrou a vantagem tocando a bola e aproveitando os espaços generosos no meio-campo. Tanto que ainda houve tempo para Messi evitar uma saída de bola pela lateral (em lance bem duvidoso), entortar a coluna de Marcelo e cruzar para Aleix Vidal chutar forte e contar com a colaboração de Navas. Uma vitória incontestável de um time que soube aproveitar as chances que teve na casa do adversário.

Com a vantagem no placar e no número de jogadores em campo, o Barcelona apenas administrou a vantagem tocando a bola e aproveitando os espaços. O Real Madrid tentou um milagre com Bale e Asensio encostando em Cristiano Ronaldo, mas acabou sendo derrotado de forma categórica dentro de casa. E ainda houve tempo para Aleix Vidal fazer o terceiro.

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O Real Madrid encerra o ano com mais incertezas do que pensava que teria. Mesmo com o título do Mundial de Clubes da FIFA e a classificação para as oitavas de final da Liga dos Campeões da Europa, os merengues não estão no mesmo nível do início da temporada. Parece que chegou o momento em que Zidane vai precisar reinventar o time mais uma vez. Aconteceu na temporada passada com a lesão de Gareth Bale e as boas atuações de Isco e deve acontecer de novo com a má fase de Benzema e a necessidade de se deixar o meio-campo mais leve com o galês recuperando a forma e com um Asensio que já pede passagem há algum tempo. A saída pode ser um 4-2-3-1 que tenha Asensio, Isco e Bale atrás de CR7 ou o retorno ao 4-1-4-1 com Casemiro na frente da zaga e Bale, Modric, Kroos e Asensio no meio-campo. De qualquer maneira, a partida contra o Paris Saint-Germain pelas oitavas da Liga dos Campeões já começa a tirar o sono do treinador merengue. É bom abrir o olho.

Paulinho e Busquets podem não ter a fama nem os números de Messi (vigésimo quinto gol em clássicos contra o Real Madrid, gol número 526 pelo Barcelona e recorde em um só clube pelas cinco principais ligas da Europa e quinquagésimo quarto gol na temporada). Mas é preciso lembrar que os dois estão fazendo a diferença no time de Ernesto Valverde. O camisa quinze mostra que Tite estava certo em investir suas fichas no jogador quando ele ainda atuava pelo futebol chinês e que o Barcelona acertou e muito na sua contratação. Além disso, Paulinho pode pintar como opção ofensiva para a Seleção Brasileira na Copa do Mundo. Já Busquets se transformou no alicerce do time blaugrana. É o cara que organiza o time, dá o primeiro passe e arma os contra-ataques com a categoria dos meio-campistas de antigamente. Pra quê brucutus se você pode ter dois volantes do nível de Busquets e Paulinho no seu time?