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Alinhado com Renato, técnico do Grêmio no início do Gauchão projeta: “Meninos darão frutos”

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Jornalista formado pela PUCRS em agosto de 2014. Dupla Gre-Nal.

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Crédito: César Bueno comandará o Grêmio nas primeiras rodadas do Gauchão - Foto: Rodrigo Fatturi/Grêmio

Os torcedores gremistas ainda saboreavam o doce gosto da conquista do tricampeonato da América quando, quatro dias depois de testemunharem a soberana vitória sobre o Lanús, na Argentina, o clube voltou a campo para atuar pelo Brasileirão. Entre uma piscada e outra, em um domingo que já não parecia mais ter importância para os tricolores, quem parou em frente à televisão para assistir Atlético-MG 4×3 Grêmio, pela derradeira rodada do nacional de 2017, se encantou com o que viu. O resultado foi o menos importante em uma jornada de muita técnica, velocidade e até atrevimento dos garotos gremistas.

E são esses mesmos meninos que, a partir de quarta-feira, 17, contra o São Luiz, em Ijuí, iniciam a disputa do Gauchão de 2018. Na casamata gremista estará o paranaense César Bueno, que também comandou o clube na derrota por 1×0 diante do Santos fora de casa, pelo Brasileirão de 2017. Alinhado com Renato Gaúcho, o técnico da transição gremista vê com otimismo a participação do time nas primeiras rodadas do estadual – ainda de férias, o elenco principal se reapresenta no dia 18 e deve “assumir” o campeonato a partir da sexta rodada.

Até lá, os comandados de Bueno terão a missão de iniciar a campanha e entregar uma boa classificação ao time de cima. Para isso, o grupo de transição carrega como referência a boa exibição contra o Galo de Fred, Robinho e Elias, no Horto, e deve receber os reforços de Alisson, Thonny Anderson e Paulo Miranda – recém contratados pelo tricolor para a temporada de 2018. Em depoimento ao Torcedores.com, o comandante gremista garantiu que a torcida tem bons motivos para prestar atenção na equipe que dará a largada no estadual.

“A torcida do Grêmio pode esperar uma equipe muito técnica. Uma equipe que vai representar as cores da camisa do Grêmio com muita força, muita raça e que está muito motivada para conseguir os resultados e entregar o Gauchão à equipe de cima com uma boa classificação”, resumiu.

Contratado em abril de 2017 – seduzido pelo projeto da base tricolor -, Bueno trilhou um rápido caminho até chegar à equipe de transição e também à comissão técnica permanente do clube, da qual passa a fazer parte assim que encerrar a participação do time de transição no estadual. Na última terça-feira, o técnico recebeu a reportagem do Torcedores no CT Luiz Carvalho e aprofundou um pouco mais as suas ideias de futebol – leia a íntegra do bate-papo a seguir:

Reportagem esteve no CT Luiz Carvalho nesta semana

Duelo contra o Atlético-MG, ligação com Renato e trabalho com jovens: um pouco mais de César Bueno

Torcedores.com: A partida contra o Atlético-MG, na última rodada do Brasileirão do ano passado, serve de modelo para o que tu quer do Grêmio nesse início de Gauchão?

César Bueno: Em alguns fatores, essa partida contra o Atlético-MG vai nos ajudar. Foi o primeiro jogo profissional de muitos daqueles nossos atletas, então ela vai nos ajudar em uma avaliação para formatar a equipe nesse início de estadual. Mas, assim, não vai ser exatamente aquela equipe que vai iniciar. Ela vai nos dar algumas referências de participação individual de alguns atletas, comportamento de atletas em determinadas situações de jogo, mas coletivamente a partida foi diferente. O Atlético-MG precisava do resultado, um Brasileirão, uma outra circunstância. No Gauchão são condições diferentes, em termos de gramado, e também a obrigatoriedade de se buscar o resultado. Contra o São Luiz, que vai ser a estreia, por exemplo, e contra o Atlético, há diferenças. Entramos em Minas como franco-atiradores.

T: Naquele jogo, chamou a atenção a velocidade do Grêmio do meio para frente. Tu gosta que as tuas equipes joguem dessa maneira?

CB: Aquela foi uma situação que a gente tinha um time do Atlético-MG, que tinha dificuldades nos momentos de transições, e era um time que sabíamos que tentaria propor o jogo desde o início, com muita posse de bola, um jogo mais cadenciado com os jogadores que eles tinham naquele momento. Com isso, iriam nos dar campo para essa nossa transição rápida em velocidade. Hoje em dia no futebol você praticamente não consegue trabalhar se não tiver velocidade. Não só jogadores velozes, mas velocidade de passe e de transições. O que a gente vai tentar é usar a velocidade no momento que pudermos, mas daqui a pouco o adversário usa um posicionamento de marcação mais baixa, aí precisaremos da posse de bola e temos jogadores técnicos dentro desse grupo de transição. A gente acredita muito nessa técnica deles pra fazer essa posse até envolver o adversário.

Vista de um dos campos do CT – Foto: Eduardo Caspary/Torcedores.com

T: Tu está construindo a tua carreira, até o momento, nas categorias de base. A tua preocupação maior é com a parte técnica dos garotos ou em inserir conceitos táticos desde cedo?

CB: A minha maior preocupação, na verdade, não é técnica nem tática. É mais emocional. Eles têm muito conceito, já que estão há muito tempo trabalhando na base do Grêmio. Um ou outro que chegou na fase final de formação. Mas a maioria já tem conceito técnico, tático, tecnicamente são jogadores muito bons, mas o fator emocional é algo que a gente tenta prepará-los, porque no Gauchão vai ser uma situação adversa, com estreia no campo do adversário, pressão de torcida, o primeiro jogo após o vice mundial… então a pressão e a cobrança estarão presentes, e o fator emocional é uma situação que estamos tendo maior cuidado.

T: Há a preocupação de montar o time de base da mesma forma que o profissional é montado?

CB: Em modelo de jogo, sim. Não esquematização, do 4-1-4-1, 4-2-3-1, isso não. Não temos essa preocupação. De modelo, sim. Posse de bola, marcação alta, transitar com velocidade tanto na defesa como no ataque, isso sim. O modelo que o Renato implanta no profissional a gente vai tentar replicar aqui com os garotos.

T: O Renato acompanha o teu trabalho, conhece os meninos e mantém contato direto contigo?

CB: Nesse início de temporada, não. É um período de férias dele. Ele teve um ano bem carregado em 2017. A gente teve bastante contato no ano passado, quando conversamos muito sobre a equipe que foi para os jogos contra o Santos e o Atlético-MG. Mas nesse primeiro momento, não. Ele conhece os garotos, muitos deles trabalharam com ele em treinamentos no ano passado. Mas a gente não teve contato agora, em 2018.

OUÇA A ENTREVISTA COMPLETA COM CÉSAR BUENO:

T: Acredita que algum dos meninos que tu vai escalar agora, nesse princípio de Gauchão, possa se tornar titular do time principal durante o ano, assim como ocorreu com o Arthur em 2017?

CB: Sim, com certeza. Isso daí é uma projeção do próprio clube. De aproveitamento desses garotos. A gente tem muitos jogadores de qualidade, que podem ser aproveitados. E você pode ver isso quando detecta que nesse momento o número de contratações do Grêmio é baixo. Há muita confiança nessa categoria de base, que tem um potencial que pode alimentar muito bem as carências do profissional e dar frutos no futuro.

T: Publicamente, tu já fez diversos elogios à base do Grêmio. Vê diferença do trabalho feito no Grêmio com relação a outros clubes?

CB: Olha, na minha chegada aqui no Grêmio houve uma situação em que a direção bateu muito forte, e que me atraiu muito para trabalhar no clube. O discurso era em cima da formação de atletas, não a formação de equipes. E temos trabalhado muito assim na base, sendo que muitas vezes nossas equipes sofrem um pouco pela falta de conjunto ou desequilíbrio tático para sempre colocar os melhores em campo. Então tem vezes que o encaixe da equipe não fica ideal. Isso me chamou atenção e deu resultado. Talvez as nossas equipes, no momento, não sejam tão competitivas na base, mas ela revela muitos jogadores, que é o objetivo da base. Foi algo que vi de diferente no Grêmio. Hoje a base do Grêmio é diferente de cinco anos atrás, quando eu enfrentava o clube. Hoje são times técnicos, um outro jeito de se jogar. E está dando frutos no profissional.

T: Apesar da sequência de dois grandes títulos, o Grêmio vive um jejum no estado sem vencer o Gauchão desde 2010. Há uma pressão em cima disso também no teu trabalho?

CB: Diferente da base, o profissional é resultado. A gente não tem uma pressão, a gente transforma isso em motivação. Estamos muito motivados, interessados, acreditando muito que esse estadual pode ser um bom momento nosso. O Grêmio sempre entra para ganhar, ainda mais no estadual, que já ganhou tantas vezes. Mas pressão não entra. Entendemos mais como motivação e oportunidade.

(Reprodução/SporTV)

T: Depois de um dos gols contra o Atlético-MG, que é o jogo-referência do teu time, os garotos provocaram o Inter. Tu entende que isso faz parte? Há uma orientação nesse sentido para os garotos?

CB: Eu acho que a provocação moderada faz parte. É uma situação que se não o futebol fica chato. Além de esporte, o futebol é um jogo e entretenimento. Dependendo da maneira como ela é feita, eu acho válida. Aquela situação do jogo contra o Atlético-MG, pra falar a verdade, eu nem tinha visto. Fui ver depois na reprise do jogo pela televisão. Enquanto for sadia e não for ofensiva, eu acho válida. É uma brincadeira, não uma provocação. Isso pode ser feito tanto por nós como pelo adversário. Só tem que ter um pouquinho de limite para não gerar a violência, que acontece muito.

T: Tu carrega o objetivo de dirigir o time profissional do Grêmio?

CB: Eu sou muito tranquilo nesse sentido. Quando eu vim para a categoria sub-20 do Grêmio, a minha intenção era ficar muito tempo naquela categoria. Tudo aconteceu muito rápido. Não tenho pressa para esse tipo de situação. Eu gosto muito de trabalhar com esses jogadores jovens. Me agrada muito. Naturalmente, em um futuro, pode ser que apareça alguma oportunidade, mas eu não tenho pressa. Estamos muito bem com o Renato. Torço para que ele tenha vida longa no Grêmio, até porque além de um ídolo é um baita treinador. Então, assim, eu não tenho pressa. Aparentemente nesse momento parece que isso pode acontecer no Grêmio, mas pode ser em outro lugar, enfim. No momento estou bem satisfeito com o que vivo agora.

Relembre a escalação gremista que iniciou Atlético-MG 4×3 Grêmio:

Bruno Grassi; Felipe, Ruan (Ericson), Emanuel e Conrado; Balbino, Machado, Jean Pyerre (Matheusinho), Lucas Poletto (Batista) e Dionathã; Pepê. Técnico: César Bueno

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