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Crônicas da F1: a Epopeia do Campeão sem Título; a história de José Carlos Pace

O automobilismo brasileiro tem grandes heróis, como Ayrton Senna, Nelson Piquet e Emerson Fittipaldi. Mas existe um nome que merece se juntar a este “panteão”, um dos poucos pilotos que para muitos, possui status de campeão, mesmo sem um título mundial. Aquele que segue presente na F1 mesmo após a sua morte, já que o Autódromo de Interlagos carrega seu nome: José Carlos Pace.

Rodrigo Nascimento dos Santos
Colaborador do Torcedores

Crédito: Reprodução/Twitter

“Moco” era como muitos conheciam o herói desta epopeia. José Carlos Pace, seu nome verdadeiro, com o qual foi deixando marcas pelo automobilismo mundial. Nascido em 1944 na cidade de São Paulo, talvez o garoto que se divertia no kart não imaginava o quão longe chegaria. Ele, e seus amigos, os irmãos Wilson e Emerson Fittipaldi.

Sua carreira deu inicio em 1966, aos 22 anos, em provas nacionais, nas quais conseguiu resultados expressivos. Em 1970, Pace foi para a Europa, um ano após seu amigo Emerson. A bordo de um Lotus, estreou na Fórmula 3 inglesa e conquistou o campeonato, e logo foi convidado por Frank Williams, que ainda não tinha fundado a sua equipe na F1, para correr em um de seus carros na F2.

O piloto brasileiro não pontuou, mas ainda assim, se mostrou rápido o bastante para ser escolhido por Frank como piloto de sua nova equipe na F1. Com o carro que na temporada anterior havia sido utilizado pela March, Pace fez a sua estreia na principal categoria do automobilismo mundial no GP da África do Sul, em 1972, com um 16º lugar. Na prova seguinte, na Espanha, conquistou um sexto lugar e seu primeiro ponto.

Após um ano difícil, veio o convite para pilotar em mais uma equipe estreante na F1: o time fundado pelo campeão John Surtees, que carregava o sobrenome do novo amigo de Pace. Novamente um ano complicado, mas foi nele que veio o primeiro pódio, com um terceiro lugar na Áustria. Neste mesmo ano, o brasileiro também participou de outras categorias, e impressionou até mesmo o comendador Enzo Ferrari, que segundo reza a lenda, o convidou para a equipe italiana, mas Pace se manteve fiel ao amigo Surtees.

Em 1974, um quarto lugar no GP do Brasil dava a sensação de que seria um bom ano para Pace, mas o rendimento da Surtees continuava deixando a desejar. Porém, no meio da temporada, surgiu a opção de correr pela Brabham ao lado do argentino Carlos Reutemann, e Moco aceitou sem pestanejar.

José Carlos Pace encerrou o ano com um segundo lugar em Watkins Glen, e a esperança de que finalmente, poderia demonstrar a todos que era um piloto de alto nível.

Após ter largado em segundo na prova de estreia da temporada de 1975 e ter abandonado a corrida por problemas no motor, eis que chegamos a única vitória de nosso herói na F1, e de forma inesquecível…

Interlagos, 26 de janeiro de 1975. Na primeira posição, Jean-Pierre Jarier impressionava a todos com sua segunda pole position na temporada com uma Shadow. A expectativa dos torcedores brasileiros estava em cima do atual campeão mundial e vencedor do GP do Brasil do ano anterior, Emerson Fittipaldi.

Pace largou em sexto, com Carlos Reutemann e Niki Lauda a sua frente, além dos dois pilotos acima citados. Emerson largou mal, Reutemann tomou a liderança de Jarier, e Pace soube tirar proveito da situação e logo apareceu na terceira colocação com sua Brabham.

Reutemann não ficou muito tempo na liderança, e logo Jarier estava em primeiro novamente. Na volta 14, Pace assumiu o segundo lugar do companheiro de equipe, e foi a procura do piloto da Shadow. Na volta 30, o motor do carro de Jarier começou a ter problemas, e três voltas depois, Pace assumiu a liderança.

Enquanto Pace seguia tranquilo na liderança e se aproximando de sua primeira vitória na F1, Emerson Fittipaldi foi para cima de Regazzoni e assumiu a segunda colocação, garantindo assim, a primeira dobradinha brasileira da Fórmula 1. Confira nos vídeos abaixo, a narração da vitória do Moco em Interlagos narrada por Luciano do Valle, e no vídeo seguinte, alguns momentos da prova em uma imagem de qualidade melhor que o primeiro vídeo.

Na prova seguinte, Pace conquistou sua unica pole position na F1, no GP da África do Sul. Na prova, Moco terminou em quarto, mas apesar da temporada não ter sido das mais fáceis, ele conquistou mais dois pódios, um terceiro lugar em Mônaco, e um segundo lugar na Inglaterra (vencido por Emerson Fittipaldi).

Após o sexto lugar no mundial de 1975, Pace sofreu com os motores Alfa Romeo que a Brabham adotou em 1976. Tanto é, que não conseguiu resultados expressivos como no ano anterior, e terminou a temporada na 14ª posição.

Em 1977, parecia que tudo havia mudado: um segundo lugar na prova de estreia da temporada, na Argentina, parecia o inicio da caminhada rumo a uma disputa de título mundial. O abandono no GP do Brasil e o 13º lugar na África do Sul após ter largado em segundo, diminuiu a expectativa, mas, Pace sentia que poderia ir mais longe do que nas temporadas anteriores.

O que ninguém imaginava, era que assim como começou em um GP da África do Sul, a carreira de nosso herói na F1 também terminaria na etapa sul africana: no dia 18 de março de 1977, Pace e seu amigo Marivaldo Fernandes embarcaram em um monomotor do Campo de Marte, em São Paulo, e minutos depois, o avião bateu em uma árvore na Serra da Cantareira, provocando a morte de ambos.

Devido a sua facilidade de pilotar qualquer tipo de carro com notável eficiência, José Carlos Pace ficou conhecido como o “Campeão Mundial Sem Título”, alcunha que dá nome ao livro de Luiz Carlos Lima sobre a carreira de nosso herói. Para aqueles que viram Moco correr, não havia dúvidas de que um título estava em seu destino. Mas, nem sempre, a história termina como queríamos. Em 1985, o Autódromo de Interlagos foi reinaugurado, e recebeu o nome do herói da epopeia aqui contada.

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