Crônicas da F1: o mito romano chamado Andrea, muito além do apelido “De Crasheris”

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Colaborador do Torcedores

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Um dos mais folclóricos pilotos de todos os tempos da F1, o italiano Andrea De Cesaris foi sinônimo de muita velocidade, e abandonos. Enquanto para alguns, se tratava de um “destruidor” de carros (o que lhe rendeu o apelido “De Crasheris), para outros, era o tipo de piloto que poderia extrair o máximo de qualquer monoposto (mesmo extrapolando na maioria das vezes).

Nem todas as lendas são protagonizadas por heróis, assim como no mundo do automobilismo, não existe espaço apenas para os campeões. Existem aqueles, que de alguma forma, escrevem seu nome na história, e protagonizam capítulos interessantes. E com certeza, na coleção de contos da F1, é preciso deixar espaço para o romano Andrea de Cesaris.

De Cesaris nasceu em Roma, na Itália, no dia 31 de maio de 1959. Recebeu o apoio de seu pai (um representante comercial da Marlboro bem sucedido) para ingressar no automobilismo, fez bastante sucesso nas categorias de base, inclusive, sendo vice campeão da Fórmula 3 em 1979, título que perdeu para o brasileiro Chico Serra.

Sua estreia na F1 ocorreu no ano seguinte, em 1980, quando participou de duas etapas da temporada pela Alfa Romeo: os GPs do Canadá e dos Estados Unidos, e abandonou em ambos, uma prévia do que viria a seguir em sua carreira na categoria…

Com um forte apoio da Marlboro, De Cesaris ganhou um lugar na McLaren para o ano seguinte, na temporada que marcou para sempre a carreira do piloto romano: foram 15 provas realizadas, e 22 chassis destruídos, o que além de lhe render uma demissão do time de Ron Dennis, lhe rendeu o apelido de “De Crasheris”. Inclusive, o seu acidente durante o treino para o GP da Holanda rendeu uma imagem memorável para os fãs, onde de um lado, víamos o carro do italiano batendo, e do outro lado, o boneco da Michelin em um cartaz, fugindo.

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Em uma entrevista publicada no site Projeto Motor anos atrás, o italiano se defendeu da fama de destruidor de carros: “A McLaren precisava justificar sua falta de lealdade e esforço por mim, em vez de me defenderem, dizendo a verdade. Infelizmente, eles não poderiam me atender por causa da minha idade e meu carro. Então era mais fácil eles pegarem um jornalista, me chamarem de ‘De Crasheris’ e colocarem toda a culpa nos meus ombros.”

“Era uma F1 diferente. Eu tinha 20 anos, era inexperiente e a McLaren tinha recursos muito limitados naquele período. Era o começo da “nova” McLaren (fase em que o time de Woking se juntou com o Project 4 de Ron Dennis) e não pude experimentar o carro antes da temporada. Além do mais, fui obrigado a disputar metade do campeonato com o modelo antigo, que era um desastre.”

Após a desastrosa temporada de 1981 pela McLaren, De Cesaris voltou para a Alfa Romeo, e na terceira corrida de 1982, em Long Beach, conseguiu sua primeira e única pole position na F1, superando seu ídolo Niki Lauda. Mas, na corrida, a história foi diferente, e após ter liderado por 14 voltas, acabou abandonando na volta 33. Ainda assim, foi neste mesmo ano que o italiano conquistou o seu primeiro pódio, em Mônaco, sendo que se a gasolina não tivesse acabado, ele poderia até mesmo ter vencido.

No ano seguinte, veio a melhor temporada de Andrea de Cesaris na F1: dois segundos lugares, e por pouco não conquistou sua primeira vitória, em Spa-Francorchamps, mas por conta de um problema mecânico, não conseguiu. Terminou o ano na oitava posição do mundial de pilotos, sua melhor colocação na carreira.

Em 1984 e 1985, Andrea de Cesaris foi para a Ligier, onde os tempos de “De Crasheris” voltaram: no último ano pela equipe francesa, foram oito abandonos em onze provas disputadas, além de um espetacular acidente na Áustria, o que acabou com a paciência de Guy Ligier e do próprio De Cesaris, e na prova seguinte ocorreu a rescisão contratual.

A partir daí, De Cesaris passou por diversas equipes pequenas: Minardi em 1986, Brabham em fase de declínio em 1987 (e ainda assim, conseguiu um 3º lugar em Spa), Rial em 1988, Scuderia Itália em 1989 e 1990, Jordan em 1991, Tyrrell em 1992 e 1993, e novamente Jordan em duas provas da temporada de 1994, e Sauber no restante da temporada, no ano em que encerrou sua carreira na F1, com 208 GPs disputados.

Foram poucos os momentos marcantes de De Cesaris nessas equipes menores. Vale destacar o acidente em Mônaco em 1989, quando ao tentar colocar uma volta em Nelson Piquet, os dois bateram e ficaram presos na curva Lowes. Na corrida seguinte, no Canadá, De Cesaris fez uma excelente prova de recuperação, e terminou a prova em terceiro lugar, naquele que foi o seu último pódio na F1.

Também merece destaque o GP da Bélgica de 1991, aquele em que Michael Schumacher estreou na F1, o companheiro de equipe do jovem alemão era ninguém menos do que Andrea de Cesaris. E enquanto o futuro heptacampeão não passou da primeira volta, o italiano chegou a ser segundo colocado na prova, mas infelizmente seu Jordan quebrou.

Talvez um dos últimos grandes momentos de Andrea de Cesaris que vale lembrar, foi fora da F1: ele participou de uma competição de kart chamada Masters Karting, na região de Bercy, em Paris, em dezembro de 1993, que marcou o último embate entre Senna e Prost. E enquanto os olhos estavam voltados no duelo entre os dois rivais históricos, o líder da prova até a penúltima volta foi o italiano, que no final, foi ultrapassado pelo francês.

Após encerrar a carreira na F1, De Cesaris se dedicou à atividades na Bolsa de Valores, e correu esporadicamente em competições destinadas a ex-pilotos, além de ter encontrado uma nova paixão: o windsurf.

No dia 5 de outubro de 2014, dia que ficou marcado pela morte do piloto francês Jules Bianchi no GP do Japão de F1, coincidentemente, Andrea de Cesaris sofreu um acidente com a sua moto em uma estrada de Roma, e faleceu aos 55 anos de idade.

Foram 208 GPs disputados na F1, dos quais De Cesaris abandonou 147, uma média de 70,67% das provas em que participou, o que faz dele o piloto com o maior número de abandonos da história da categoria. Além disso, o italiano registrou uma pole position, uma melhor volta, e cinco pódios.

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