Ring announcer mais famosa do Brasil conta como encara rotina e dribla cantadas

Vinicius Larrubia

Ela muitas vezes está em evidência, no meio de um ringue de MMA, com a imagem capturada pelas câmeras e sendo o centro das atenções. Mas a paulistana Agnes Lima, de 38 anos, não vai enfrentar ninguém. Ao contrário: vai deixar os atletas prontos para a luta. Se Bruce Buffer, ring announcer oficial do UFC, é considerado “o cara” da função no mundo, pode-se dizer que Agnes se tornou a referência no Brasil.

Atualmente, Agnes é a announcer oficial do Thunder Fight, do Premium Fight, do Max Fight, do JF Fight e do Leões da Luta, além de outros eventos. Mas a relação com o mundo das lutas vem há anos.

“Treino lutas (hapkido, boxe, muay thai e wrestling) desde sempre, antes do meu filho de 14 anos, nascer. Mas nunca tive esse ímpeto de ser lutadora, de competir. Então comecei a estudar. Minha primeira formação foi como oficial de arbitragem de boxe, pela Liga Sorocabana de Boxe. Trabalhei muito tempo com isso. Mas, por formação, sou cantora, sou formada em canto popular e um dia me perguntaram se eu assumiria a locução do boxe. Como oficial a gente deveria saber fazer tudo. E aí comecei a fazer a locução nesses eventos. Eu julgava algumas lutas, mas minha principal função era como locutora”, contou Agnes em entrevista ao Torcedores.com.

Há pouco mais de um ano, Agnes foi contatada pelo Premium Fight, perguntando se ela gostaria de ser announcer. “Realmente, não foi algo que estudei, me empenhei para fazer. Foram circunstâncias que fizeram acontecer. No boxe, eu estudei para isso. Mas quando me vi no cage pela primeira vez, vi que era o que eu queria fazer”, contou ela, que estreeou na função em 17 de setembro de 2016.

Desde então, começou a ficar mais conhecida, já que boa parte dos eventos foram transmitidos, mesmo que gravados, no Combate, (canal fechado da Organização Globo que é especializado em lutas) e a gerar frutos – ela concorre ao prêmio Osvaldo Paquetá na categoria de melhor announcer.

Isso, contudo, não significa que as mulheres ganhassem mais terreno na função.

“Sei de mais três mulheres aqui no Brasil (Renata Sattelmayer, que não está mais em atividade, Elaine Azevedo e a funkeira Nega Giza, que anuncia um evento específico no Rio de Janeiro), mas são poucas. Eu não conheço nenhuma mulher que quis fazer isso, então não sei o porquê. O que posso dizer é que, para mim, foi incrível. Eu, sinceramente, não sinto esse machismo, é mais falta de interesse.”

Antes dela, a referência feminina como announcer era a americana Lenne Hardt, que se tornou conhecida pelo trabalho no extinto Pride FC e, posteriormente, DREAM, ONE Championship e o Glory (evento de kickboxing). Curiosamente, Agnes prefere o estilo de Bruce Buffer.

“Minha inspiração, como mulher, é a Lenne. Mas, lá em cima do cage, minha maior referência é o Bruce Buffer. Eu gosto muito da Lenne, tem uma personalidade sensacional no cage, mas me identifico mais com o Bruce, o estilo, a emoção, a forma como ele se posiciona, aquela coisa de encostar no lutador, não respeitar muito o limite do cage… Minha inspiro muito nele na emoção que ele passa.”

Cantadas, sim; preconceito, não
Apesar de muitas vezes ser a única mulher em um evento de MMA, Agnes garante que nunca sofreu preconceito no mundo das lutas por conta disso. “Muito pelo contrário. Acho até que sou melhor tratada por ser mulher e hoje, 90% do público e do meio, é de homem. Muitas vezes eu chego e sou a única mulher, então, preconceito, nunca sofri.”

Já cantadas são outra história. Mas ela tira de letra. “Sobre assédio, é aquela coisa: qual é o limite do assédio? Não sou nenhuma feminista radical, então, para mim, uma cantada não é assédio. Já fui muita cantada, sim, mas aí cabe a minha dizer que estou trabalhando e não é por aí, impedir qualquer coisa. Tive cantadas, mas ninguém se excedeu comigo, ultrapassou o limite comigo. Sou bastante respeitada nesse sentido, graças a Deus.”

Dupla função
A relação de Agnes com o MMA hoje não é apenas na função de announcer. Desde dezembro de 2014, ela comanda o grupo “Do Vale Tudo ao MMA”, comunidade no Facebook que conta com mais de 66 mil membros. E foi por meio desse grupo que ela recebeu o convite para ser announcer quando começou a ser empresária de lutadores.

“O que acontece é que o grupo é grande, há 66 mil pessoas, muitos lutadores, treinadores e muita gente passou a me conhecer. E muita gente me procura e comecei a fazer naturalmente esse intercâmbio. E de repente me vi fazendo isso o dia inteiro e pensei ‘tenho de fazer isso um trabalho’. E estou começando a fechar um evento internacional, levando sete lutadores”, comentou ela, que não pretende atuar como matchmaker (responsável por “casar” as lutas de um evento).

“Hoje trabalho com 58 lutadores. Falam que é muita gente e eu concordo. Com o tempo terei de me focar nos lutadores, para investir na carreira deles. Mas ainda não sou uma pessoa conhecida. Então o que preciso agora é ter muitas opções.”

E quando ela precisa anunciar um dos atletas agenciados dentro do cage? Há tratamento diferente? Agnes nega. “Como announcer, esqueço que o lutador é meu. Não o acompanho antes ou depois das lutas. Já aconteceu, até na TV, de meu lutador perder. Digo: lá dentro nós não somos amigos. Existe um muro. No meu dia de announcer, sou apenas announcer.”

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Jornalista, editor do Torcedores.com. Passagens pelos jornais Metro, O Estado de S. Paulo, Jornal da Tarde, Marca Brasil, Agora São Paulo, Diário de S. Paulo e Diário do Grande ABC.