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Palco da final da Copa de 62, Estádio Nacional do Chile guarda lembranças de ditadura e ‘esquece’ título do Brasil

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Jornalista, editor do Torcedores.com. Passagens pelos jornais Metro, O Estado de S. Paulo, Jornal da Tarde, Marca Brasil, Agora São Paulo, Diário de S. Paulo e Diário do Grande ABC.

Crédito: Matheus Adami/Torcedores.com

“Não há nada aqui. Nenhum museu, nenhum memorial, nada.” Foi dessa forma que a reportagem do Torcedores.com soube por um funcionário do Estádio Nacional, em Santiago, no Chile, que o palco da decisão da Copa do Mundo de 1962 e lugar em que o Brasil conquistou seu segundo título mundial não guardava nenhuma lembrança de uma das maiores glórias do futebol nacional.

Contudo, se engana quem pensa que o velho estádio sofra de “amnésia”. Memória é o que não falta ao local, inaugurado na capital chilena em 1938 e, desde então, palco de diversos acontecimentos na história do país. A Copa do Mundo de 1962 foi apenas um deles. A ditadura de Augusto Pinochet, governante do Chile entre 1973 e 1990, foi outro.

 

SEM MODERNIDADE

Esqueça todo o conceito de arenas e modernidades. Entrar no Estádio Nacional é mergulhar no passado. Não há visitas guiadas nem nada do tipo. Para conhecer o local, basta chegar e perguntar qual é o portão que dá acesso ao gramado em dias sem jogos, no caso, o de número 7. Localizado no bairro de Ñuñoa, a região é de fácil acesso – há uma estação de metrô ao lado. A demão de modernidade chegou em 2008, quando o nome oficial passou a ser Estádio Nacional Julio Martínez Prádanos – nome de um dos maiores jornalistas esportivos do Chile – e foram feitas diversas melhorias no local.

Mas, mesmo após tantos anos, é possível sentir um pouco do clima de Copa do Mundo, vencida pelo Brasil de Garrincha e Amarildo (Pelé se machucou no início da competição) em cima da Tchecoslováquia por 3 a 1. Grande parte das cadeiras, vermelhas como a cor da camisa da seleção chilena e da Universidad de Chile – coincidência ou não, os dois mandantes do estádio -, são descobertas. Em um dia em que o sol castiga, como o que a reportagem do Torcedores.com encarou, a situação complica. Mas basta olhar para a frente e sentir a imponência da natureza e da Cordilheira dos Andes.

Analisando apenas a parte futebolística, a visita pode, até, ser um pouco decepcionante. Sobretudo quando se esperava ver troféus, camisetas, chuteiras e bolas do primeiro e único Mundial organizado pelo país. Mas as lembranças do governo Pinochet são claramente mais fortes – e dolorosas – para os chilenos.

DOR E HISTÓRIA

Uma das partes mais impactantes da vista é um pedaço da arquibancada, atrás de um dos gols, em que há a frase quase apagada pelo tempo: “Un pueblo sin memória es un pueblo sin futuro” ou “Um povo sem memória é um povo sem futuro.” Nos anos da ditadura chilena, o Estádio Nacional foi um campo de concentração e tortura para os inimigos do governo Pinochet.

No lado de fora, há um grande outdoor com os dizeres “Estádio Nacional, Memória Nacional.” Claramente, outro chamado a não esquecer os horrores de um governo que deixou mais de 40 mil vítimas – não há precisão do número exato de mortos pela ditadura chilena, o que faz com que a contagem possa ser ainda maior.

Em 1990, porém, o país foi redemocratizado e Patricio Aylwin foi eleito presidente. E a festa, claro, não podia ser em outro lugar.

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