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PAPO TÁTICO ESPECIAL: Recordando os grandes times de Rinus Michels, o melhor treinador do Século XX

O período é de festa por conta do Carnaval. Mas sempre há tempo e oportunidade para se falar de alguns dos gênios do velho e rude esporte bretão. Na última sexta-feira (09/02), Marinus Jacobus Hendricus Michels (ou simplesmente Rinus Michels) completaria noventa anos de idade. Eleito pela FIFA como o melhor treinador do Século XX, foi mentor de grandes treinadores do futebol mundial como Johan Cruyff e Frank Rijkaard e até hoje é considerado um dos melhores de todos os tempos. Foi responsável pela criação daquilo que se chamou de “Futebol Total” com a Seleção da Holanda na Copa do Mundo de 1974, uma das poucas equipes que não foram campeãs a serem lembradas por todos. Rinus Michels não mudou apenas a maneira de se jogar e entender o futebol. Ele revolucionou o esporte como poucos. E aqui, na coluna PAPO TÁTICO ESPECIAL, vamos relembrar alguns dos grandes momentos do melhor treinador do Século XX.

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Reprodução / Facebook / AFC Ajax

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Rinus Michels nasceu no dia nove de fevereiro de 1928 em Amsterdam, na Holanda, e foi um atacante de qualidade. Depois de doze temporadas no Ajax (onde marcou 122 vezes em 264 partidas na Liga Holandesa), teve que abandonar os gramados aos trinta anos depois de uma lesão nas costas. Voltaria ao clube em 1965, assumindo o cargo de treinador e levando o Ajax ao título holandês daquela temporada. Aos poucos foi montando o time que seria o gérmen do “Futebol Total” de 1974 com a chegada do líbero iugoslavo Velibor Vasovic além de nomes como Heinz Stuy, Gerrie Mühren e de um jovem surgido na base chamado Johan Cruyff. Depois do vice-campeonato na Liga dos Campeões da UEFA de 1968/69, Rinus Michels finalmente conquistou o título mais importante do continente na edição de 1970/71 (como uma vitória por dois a zero sobre o grego Panatinaikos) já com o Ajax emulando o 1-3-3-3 que ficaria famoso três temporadas mais tarde na Copa do Mundo da Alemanha Ocidental.

O Ajax campeão da Liga dos Campeões de 1970/71 contava com Johan Cruyff jogado por todo o campo, o líbero Vasovic qualificando a saída de bola e com uma movimentação absurda de todo o time. O título viria com uma vitória por dois a zero sobre o Panatinaikos no lendário Estádio de Wembley.

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O título na Liga dos Campeões e a revolução que já se desenhava no Ajax despertou o interesse o Barcelona que contratou Rinus Michels e também Johan Cruyff para livrar o clube catalão de um jejum incômodo de títulos. A conquista do Campeonato Espanhol viria apenas na temporada 1973/74, mas com um time que entraria para a história do futebol com uma goleada impiedosa sobre o Real Madrid por cinco a zero em pleno Santiago Bernabéu. Além de recuperar atletas como Carles Rexach, Marcial e Juan Manuel Asensi, Michels trouxe o peruano Hugo Sotil e montou uma equipe de respeito que poderia jogar no 4-3-3 e “inverter a pirâmide” jogando num ofensivo 3-2-5 conforme a movimentação dos seus jogadores. Aquele Barcelona seria o início de uma verdadeira revolução no clube que culminaria com Pep Guardiola já nos anos 2010 emulando os preceitos que aprendeu com um discípulo direto de Rinus Michels: o grande Johan Cruyff.

O Barcelona ficaria com o titulo espanhol de 1973/74 jogando um futebol vistoso e de muita movimentação. O 4-3-3 utilizado por Rinus Michels na goleada por cinco a zero sobre o Real Madrid podia se transformar até num 3-2-5 conforme a movimentação dos jogadores. Simplesmente inesquecível.

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Rinus Michels assumiu a Seleção Holandesa poucos dias antes da Copa do Mundo da Alemanha Ocidental substituindo o tcheco František Fadrhonc que viria a ser seu assistente. O mais curioso dessa história foi que Michels revelou em entrevistas que não tinha a intenção de criar o “Totaalvoetbal” quando assumiu a Orange e que começou a montar o time a partir da defesa. Mesmo assim, entraram para a história as atuações daquele time que se estruturava num 4-3-3 onde todos atacavam e todos defendiam sem posições fixas num verdadeiro carrossel. Após superar o Uruguai e a Bulgária, a Holanda despachou a argentina e o Brasil com vitórias incontestáveis e só parou na anfitriã Alemanha Ocidental. Sobre o revés na final da Copa do Mundo, Michels diria: “O futebol não é de quem acerta mais, mas de quem erra menos. Ganha quem souber explorar melhor as falhas alheias. Foi o que fez a Alemanha”. Um resumo perfeito do que foi aquele jogo em Munique.

A “Laranja Mecânica” entrou para a história das Copas do Mundo como uma das seleções que encantaram o mundo, mas que não conseguiram o título. Cruyff, Rep, Rensenbrink, Krol e Neeskens eram os pilares de uma equipe em que todos atacavam e todos defendiam sem posições definidas.

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Depois do vice-campeonato na Alemanha Ocidental, Rinus Michels retornou ao Barcelona e teve passagens pelo Ajax e pelo futebol norte-americano antes de chegar ao FC Köln (ou Colônia, como o clube é conhecido aqui no Brasil) no início da década de 1980. Amargou mais vice-campeonatos antes de formar um time de respeito com nomes como o goleiro Harald Schumacher e os atacantes Klaus Allofs, Klaus Fischer e Pierre Littbarski, todos eles com passagens vitoriosas pela Seleção Alemã. O grito de campeão viria apenas em onze de junho de 1983 com o título da Copa da Alemanha sobre o rival Fortuna Köln com sua equipe jogando num 4-3-3 bem semelhante ao da Holanda em 1974: trocas de posições, jogo vertical e muita disposição de todos os jogadores da equipe dos Bodes. Curiosamente, essa foi a última conquista de destaque do Colônia no cenário nacional. Mais uma prova da importância de Rinus Michels para o futebol.

Contando com nomes como Harald Schumacher, Klaus Allofs, Klaus Fischer e Pierre Littbarski, Rinus Michels levou o FC Köln ao título da Copa da Alemanha em 1982/83. A equipe adotava o mesmo 4-3-3 que ficou famoso com a “Laranja Mecânica” nove anos antes.

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Por fim, Rinus Michels finalmente conquistaria o tão sonhado título com a Seleção Holandesa na Eurocopa de 1988, na Alemanha Ocidental. Comandando uma geração de jovens valores como Marco Van Basten, Ruud Gullit, Frank Rijkaard e Ronald Koeman se movimentando constantemente e explorando todas as possibilidades de um 4-4-2 muito bem equilibrado, a “Laranja Mecânica” reviveria seus anos de ouro vencendo a Inglaterra e os anfitriões num jogo que ficou marcado como a “vingança de 1974” (considerado por muitos como a verdadeira decisão da Eurocopa de 1988). Na final, contra a União Soviética de Valery Lobanovskyi, a Holanda venceria por dois a zero com uma atuação mágica de Gullit e um golaço de Marco Van Basten. O já veterano Rinus Michels enfim alcançava o sucesso na Seleção Holandesa com seu estilo de jogo arrojado, ofensivo e, finalmente, vencedor.

Rinus Michels finalmente seria campeão no comando da Seleção Holandesa na Eurocopa de 1988 com uma equipe que aliava disposição e técnica num 4-4-2 muito bem armado. Destacavam-se aí novos valores como Marco Van Basten, Ruud Gullit, Ronald Koeman e Frank Rijkaard.

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Conhecido pelo estilo brincalhão fora dos gramados, Rinus Michels se transformava quando a bola estava rolando. A crueldade e a rigidez com que tratava alguns jogadores fez com que ganhasse a alcunha de “General”. Mesmo assim, é considerado por muitos nomes do esporte como um dos melhores treinadores de todos os tempos. Ainda passou pelo Bayer Leverkusen e comandou novamente a Seleção Holandesa na Eurocopa de 1992 antes de se aposentar ao final do torneio, aos 64 anos de idade. Manteve-se ligado ao futebol nomeadamente como membro, e mais tarde vice-presidente do Comité para o Desenvolvimento Técnico da UEFA. Em 2005, após realizar sua segunda cirurgia cardíaca, em Aalst, na Bélgica, não resistiu e veio a falecer. Mas seria eleito o melhor treinador do Século XX ainda em vida.

Sobre o estilo de Rinus Michels, o grande Johan Cruyff diria: “Seja como jogador, seja como treinador, ninguém que me ensinou tanto quanto ele. Eu sempre admirava sua liderança”. Seu estilo de jogo ofensivo, de trocas de posições e de passes com o objetivo de confundir os adversários e um excelente preparo físico ganhou terreno com o passar dos anos e encontrou seu ápice com o Barcelona de Johan Cruyff e segue sendo perpetuado por discípulos como Pep Guardiola e outros grandes nomes. Rinus Michels trouxe para o vocabulário da crônica esportiva várias expressões como pressão ao adversário, dinâmica, mobilidade e movimentação. Por isso é que o “General” merece as nossas reverências hoje e sempre.