PAPO TÁTICO: Grêmio de Renato Gaúcho ainda precisa recuperar o bom futebol do ano passado; entenda

Renato Gaúcho tem muita razão ao reclamar do calendário do futebol brasileiro e do tempo escasso para preparar sua equipe de maneira adequada. Por outro lado, é preciso reconhecer que as duas atuações do time considerado titular do Grêmio foram bem diferentes das do ano passado, quando o time conquistou o tricampeonato da Copa Libertadores da América. Contra o Independiente, pela Recopa Sul-Americana, o Tricolor Gaúcho esteve em vantagem numérica em boa parte do jogo, mas não conseguiu transformar a posse de bola em gols. Embora ainda estejamos em início de temporada, o Grêmio ainda segue bem longe de praticar um bom futebol em Avellaneda. Mesmo com os jogadores buscando as melhores condições físicas. Há como se jogar mais. E melhor.

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: As mexidas de Renato Gaúcho deixaram o Grêmio mais envolvente e mais intenso nas tramas ofensivas. Alisson e Maicosuel podem ser úteis numa formação mais equilibrada entre os setores da equipe. Crédito da foto: Reprodução / Sportv.

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Assim que a bola rolou no Estádio Libertadores da América, o Grêmio entrou em campo armado numa espécie de 4-2-3-1 (que variava para um 4-1-4-1 conforme o avanço de Maicon), mas sem muita organização e quase nenhuma compactação. Os problemas não param por aí: Além dos espaços no meio-campo, os comandados de Renato Gaúcho sofreram com o ímpeto ofensivo e o toque de bola do Independiente. Até Luan abrir o placar num erro da saída de bola do Rey de Copas, o Grêmio levou uma bola no travessão e via seu lado direito (onde Léo Moura não conseguia acompanhar ninguém) se transformar no mapa da mina do adversário. As coisas só começaram a mudar quando a equipe gaúcha adiantou a marcação e passou a pressionar a saída de bola do time argentino. Mesmo assim, as escolhas de Renato Gaúcho não se mostraram as mais acertadas.

O Grêmio só melhorou na partida quando começou a pressionar a saída de bola do Independiente. Mesmo assim, o gol só saiu em falha da zaga adversária. No frame acima, a disposição tática do Tricolor Gaúcho quando o Rey de Copas tem a bola. Crédito da foto: Reprodução / Sportv.

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Como dissemos anteriormente, um dos grandes problemas da equipe gremista era a falta de compactação. No frame abaixo é possível perceber o espaço existente entre as linhas do Grêmio. Pouco tempo antes do gol marcado por Luan, os jogadores do Independiente aproveitam a lentidão de Léo Moura (e também a falta de cobertura pelo seu setor) e praticamente fazem uma linha de passe dentro da área, onde Benítez acabou desperdiçando a oportunidade na frente de Marcelo Grohe. Os problemas não param por aí. Os únicos jogadores lúcidos do Tricolor Gaúcho eram Maicon (que tentou chegar ao ataque sem muito sucesso) e Luan (que se movimentou muito no setor ofensivo). Tal fato mostra a falta que Arthur vem fazendo no time gremista e a necessidade de Renato Gaúcho qualificar mais o passe no seu meio-campo.

Um dos grandes problemas do Grêmio nesse ano de 2018 é o espaço entre as linhas do time. Falta compactação e mais atenção nos jogadores de meio-campo na marcação e na ocupação dos espaços à frente da área defensiva. Crédito da foto: Reprodução / Sportv.

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Mas também tivemos pontos positivos. O Grêmio foi outro time quando Maicosuel, Alisson e Jael entraram nos lugares de Lima, Cícero e Everton. O time se rearrumou no 4-2-3-1 e passou a pressionar o Independiente imprimindo uma dinâmica semelhante àquela utilizada na campanha do tricampeonato da Copa Libertadores da América. Luan foi para o centro da linha de meias e contou com a chegada de Maicon na criação das jogadas de ataque. Até mesmo Léo Moura cresceu na partida. A lamentar somente a dificuldade que o time tem para concluir a gol. Por mais que Jael seja esforçado, ele ainda mostra muitas deficiências no domínio da bola e nos momentos em que precisa fazer o pivô. Mesmo assim, a formação mais ofensiva utilizada no segundo tempo em Avellaneda pode ser utilizada mais vezes nessa temporada.

As mexidas de Renato Gaúcho deixaram o Grêmio mais envolvente e com muito mais intensidade nas tramas ofensivas. Alisson e Maicosuel podem ser úteis numa formação mais equilibrada entre os setores da equipe. Crédito da foto: Reprodução / Sportv.

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O tempo para preparar o time é escasso e o calendário do futebol brasileiro só prejudica esse processo. Mas isso não apaga o fato de que Renato Gaúcho andou errando a mão em alguns momentos. Há como se pensar em Alisson no time titular para dar mais velocidade no lado direito e ainda dar um pé a Léo Moura (substituto do lesionado Madson) na marcação pelo setor. Do mesmo jeito, Jailson pode dar lugar a Michel (jogador com mais qualidade no passe e bom trabalho de marcação) no meio-campo gremista. Tudo para recuperar pelo menos parte do bom toque de bola do Grêmio na temporada passada. Ainda resta a vaga no comando do ataque. E pelo que vem se desenhando, a tendência é que Hernane Brocador ganhe a vaga no setor justamente pelo faro de gol mais apurado do que o de Jael e pelo bom senso de posicionamento.

O Grêmio até conquistou um bom resultado na Argentina e tem todas as condições de ficar com o título jogando na sua arena. Mas ainda é preciso jogar mais e melhor do que a equipe vem jogando. Principalmente no Campeonato Gaúcho, onde o Tricolor Gaúcho teve que mover céus e terras para derrotar o Brasil de Pelotas de virada em Porto Alegre. Renato Gaúcho pode (e deve) reclamar do calendário. Mas também precisa fazer a sua parte à frente do Grêmio. Há como fazer esse time render mais.