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Zagueira campeã sul-americana troca Grêmio pelo Inter e explica: “Tenho que ser profissional”

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Jornalista formado pela PUCRS em agosto de 2014. Fã de esportes, sobretudo tênis. Colorado por paixão, jornalista por vocação e tenista por opção.

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Crédito: Foto: Reprodução/Twitter Gurias Coloradas

Chamaria bastante a atenção de todos caso Luan entrasse 2018 com a camisa do Inter ou se D’Alessandro trocasse as cores vermelhas pelo azul, preto e branco na nova temporada. No feminino, não é diferente – e, no caso, são os colorados que saíram em vantagem. Do lado tricolor, estão chegando ao Beira-Rio para os novos desafios a treinadora Patrícia Gusmão, a atacante Karina e a zagueira Ariane, que acaba de ser campeã brasileira sul-americana sub-20, e que conversou com a reportagem do Torcedores.com nesta semana.

Para a defensora, o que mais pesou na escolha pela camisa colorada foi um contato franco e direto feito pela direção do Inter. Ainda no final do ano passado, segundo ela, a cúpula colorada responsável pelo futebol feminino apresentou um projeto para a temporada de 2018, que foi mais do que convincente. Ao mesmo tempo, o Grêmio não havia definido o planejamento e o calendário de competições para o seu departamento feminino. Ariane não quis perder tempo. E tomou sua decisão.

“Pensei bastante sobre minha saída do Grêmio. Mas logo que acabou o campeonato aqui no Sul, a direção do Inter entrou em contato comigo e falou sobre o projeto para este ano, e eu achei bastante interessante. Já o Grêmio acabou que não mostrou projeto, estão ainda decidindo sobre essa temporada e eu como jogadora quero estar treinando e jogando. Achei que fosse melhor vir pra cá. Esse foi o peso maior da minha vinda pro Inter”, explicou Ariane.

Engana-se quem pensa, por exemplo, que a rivalidade entre os clubes é exclusividade do masculino. A própria final do Gauchão de 2017, vencida pelo Inter, deu uma amostra disso pela forma como as coloradas comemoraram – devolvendo na mesma moeda a brincadeira do “um minuto de silêncio”. Naquela decisão, em que as coloradas brilharam nos pênaltis, Ariane ainda integrava o time do Grêmio.

“Nessa hora eu tenho que ser bastante profissional e encarar as situações, até porque o mundo da bola gira. E é um novo desafio, gosto de sempre me superar e acredito que vim para agregar ao grupo, evoluir dentro de campo e ajudar no máximo que for possível. Espero que consigamos chegar nos nossos objetivos. Tudo que formos jogar, queremos ser um dos primeiros e buscar as conquistas”, acrescentou.

Título sul-americano no currículo… mas de última hora

A seleção brasileira feminina sub-20 literalmente passeou no Equador neste início de 2018. Com uma campanha irretocável, as meninas do Brasil foram campeãs de maneira invicta, com sete vitórias em sete jogos, 30 gols marcados e apenas um sofrido. Na final, 8×1 contra o Paraguai.

E Ariane estava lá… mas por bem pouco não esteve. De última hora, ela foi convocada pelo técnico Doriva Bueno para substituir a lateral-direita Monalisa Belém, que sofreu uma inesperada lesão na clavícula. À reportagem, Ariane naturalmente lamentou a lesão da colega, mas revelou que mantinha as esperanças em ser chamada mesmo depois de ter ficado fora da primeira lista.

“Quando eu vim pra casa no final da convocação de dezembro, de alguma forma eu sentia que iria voltar, apenas senti. Saiu a primeira lista, mas mesmo assim a preparação física da seleção estava em contato com a gente pra saber se estávamos treinando. Até que me chamaram contando sobre a lesão da Monalisa. Fiquei surpresa, foi uma lesão séria, fiquei triste por ela, mas também feliz por eu estar lá”, contou.

Foto do time brasileiro campeão no Equador – Crédito/CBF

“Tudo é uma grande experiência. Mas acredito que consegui encarar com tranquilidade, estávamos com o grupo muito bom. E dava pra ver no olho de cada uma que iríamos sair com o título. E sem dúvidas o que mais me marcou foi o título. Meu primeiro título com a seleção, passa um filme na minha cabeça de tudo que passei pra chegar até ali. É um sentimento muito diferente de tudo, uma gratidão enorme”, acrescentou a nova jogadora do Inter.

A equipe brasileira, assim como o Paraguai, que encerrou na segunda colocação, conseguiu vaga para a Copa do Mundo da categoria, que será disputada na França, entre os dias 5 e 24 de agosto. Certamente este já é um novo desafio no horizonte de Ariane.

Preconceito até vencer na bola

Enquanto a jovem Ariane Corrêa gastava as manhãs e tardes correndo atrás da bola e jogando entre os meninos em Tapes, no interior do Rio Grande do Sul, sua mãe era obrigada a aturar o preconceito presente na vizinhança. “De tanto andar com os garotos e jogar futebol, logo ela vai estar grávida”, diziam. Este foi apenas um dos obstáculos que a zagueira teve de enfrentar até chegar ao Grêmio, às categorias de base da seleção e agora ao Inter.

E foi um verdadeiro teste de paciência para Ariane. Sem ter muitas meninas para poder compartilhar a paixão pelo futebol, ela não viu outra alternativa a não ser buscar uma vaga nos times dos garotos. O apoio da família foi fundamental para que ela mantivesse de pé o sonho em se profissionalizar, mas, ao Torcedores.com, reconheceu o quanto o machismo foi frustrante no seu desenvolvimento como atleta.

“Eu nunca fui de ligar tanto para o preconceito. Ele existe em todo o momento, então eu acabei preferindo fazer o que eu faço sem ter que dar ouvidos pra isso. Na época que chegaram e falaram para minha mãe que eu apareceria grávida por jogar no meio dos garotos, eu fiquei meio assim com a situação, óbvio que fiquei chateada. Mas chegou um momento que eu consegui bloquear o preconceito que existe nesse meio do futebol”, confessou.

Fã de Thiago Silva e Geromel, Ariane entende que o apoio ao futebol feminino e uma maior visibilidade também podem ajudar a dar fim, de vez, ao preconceito que ainda impera nessa área. Por isso, apela:

“O futebol feminino é carente desse apoio ainda… estamos tendo um pouco mais de visibilidade em modo geral, mas tem muita coisa para ser mudada ainda. E essa visibilidade tem um pouco de trabalho nosso, temos que estar bem, fazer o nosso trabalho dentro de campo para mostrar que o futebol feminino vale a pena ser assistido”

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