PAPO TÁTICO: Entenda como a França de Mbappé engoliu a Argentina de Messi e se garantiu nas quartas de final da Copa do Mundo

De um lado, a boa e organizada equipe da França. Do outro, a mística da camisa da Argentina (e só isso mesmo). Este que vos escreve até chegou a acreditar que os comandados de Jorge Sampaoli fossem conseguir uma classificação que seria histórica no início da segunda etapa com o gol de Mercado após desvio de Messo. Só que a equipe comandada por Didier Deschamps mostrou fibra, garra, disciplina tática e contou a estrela de um certo jovem chamado Mbappé. O que o camisa dez jogou neste sábado em Kazan foi qualquer coisa de absurdo. Foram dois gols (igualando o recorde de Pelé em 1958 como o segundo jogador abaixo de 20 anos a marcar dois gols em partidas de mata-mata em Mundiais), o pênalti sofrido e convertido por Griezmann além de arrancadas fulminantes. Se a França está nas quartas de final da Copa do Mundo, muito se deve ao futebol rápido e objetivo do jovem Kylian Mbappé. 

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Getty Images

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O panorama da partida já estava desenhado quando a escalação da Argentina foi divulgada. Pavón entrava no lugar de Higuaín e Messi jogaria como “falso nove” no comando de ataque da Argentina. O grande problema é que nem o camisa 22 e nem Di María são jogadores que têm o costume de entrar em diagonal para tabelar. Some-se a isso o meio-campo sem criatividade da Albiceleste (à exceção de Banega, o único lúcido do setor) e percebe-se porque a França mandou no jogo. O 4-2-3-1 de Deschamps tinha Giroud no comando de ataque, Matuidi fechando o lado esquerdo, Griezmann por dentro e Mbappé voando pela direita e aproveitando a lentidão da zaga portenha. O camisa dez sofreu o pênalti que originou o primeiro gol da partida, mas viu sua equipe baixar a velocidade e permitir que a Argentina empatasse o jogo em belíssimo chute de Di María de fora da área em falha coletiva clamorosa do selecionado francês. Mesmo assim, Les Bleus tinham o controle do jogo. Faltava só caprichar mais no último passe e colocar mais intensidade nas jogadas de ataque.

A França mandava no jogo abusando da velocidade e da ocupação inteligente dos espaços enquanto a Argentina sofria com um time pesado e com Messi totalmente isolado no ataque. os gols de Di María e Mercado deram a impressão de que a Albiceleste pudesse vencer na base da raça.

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O gol de Di María deu certa moral aos argentinos que se lançaram ao ataque e conseguiram a virada com Mercado (meio “sem querer querendo”) logo no início da segunda etapa. Mesmo assim, a França seguia muito mais organizada. O lateral Pavard marcou belíssimo gol aos onze minutos depois de bola cruzada na área por Lucas Hernández. Na medida em que os comandados de Didier Deschamps subiam as suas linhas, a fragilidade tática do time de Jorge Sampaoli ficava ainda mais evidente. Tanto que Mbappé marcou o gol da virada depois de belo drible dentro da área aos dezoito minutos e ainda balançou as redes mais uma vez em jogada que começou na defesa francesa com o goleiro Lloris. Completamente perdida, a Argentina ainda contou com dois bons lances de Messi. O primeiro em jogada individual que terminou em chute fraco de perna direita. E o segundo em cruzamento que encontrou Agüero dentro da área no terceiro gol da Argentina. Mas já era tarde demais para qualquer reação.

Depois que Mbappé acabou com o jogo na Arena Kazan, o técnico Didier Deschamps descansou seu trio ofensivo, mas viu sua equipe cochilar no gol de Agüero já nos acréscimos. Mas já era tarde para uma reação de uma Argentina que só ameaçava através dos lampejos cada vez mais escassos de Messi.

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Difícil não colocar boa parte da culpa pela péssima campanha da Albiceleste na Copa do Mundo nas costas do técnico Jorge Sampaoli. Foram quatro formações diferentes nas quatro partidas da Argentina na Copa do Mundo além das suas escolhas no mínimo questionáveis para o selecionado portenho. Não há nada que justifique as escolhas por Meza e Enzo Pérez quando o treinador tinha jogadores como Dybala e Lo Celso no banco de reservas. E isso sem falar em nomes que sequer foram convocados e que poderiam deixar o caminho menos tortuoso como Icardi e Lautaro Martínez. Ao mesmo tempo, também é difícil não falar de Messi. O jogador sofre com o esquema tático de Jorge Sampaoli (como já explicamos aqui), mas faltou chamar mais a responsabilidade dentro de campo. O único lampejo do craque aconteceu no jogo contra a Nigéria e ainda assim sem muito brilho. A impressão que ficou é que “La Pulga” entregou os pontos rápido demais.

Além da classificação para as quartas de final, a França conseguiu criar uma identidade dentro de campo. A formação com Matuidi mais preso pela esquerda (liberando Lucas Hernández para o apoio), Kanté compensando a falta de intensidade de Pogba no meio-campo e Mbappé voando pela direita é a que melhor encaixou Giroud no time e permitiu que Griezmann tivesse campo para criar as jogadas. É bom lembrar que a equipe europeia não tem um “criador de jogadas” na própria acepção da palava (como o Brasil tem Philippe Coutinho, a Croácia tem Modric e a Bélgica tem Kevin De Bruyne). Mas os comandados de Didier Deschamps mostraram a sua força e o principal: maturidade. Mesmo com um time muito jovem e sem tanta experiência. Compactação defensiva e contra-ataque em alta velocidade são os trunfos da França nessa Copa.