PAPO TÁTICO: Irã estaciona um “ônibus” na frente da área e obriga Espanha a se desdobrar para vencer a primeira na Copa do Mundo

Uma vitória da poderosa Espanha em cima da equipe do Irã é um resultado mais do que normal seja qual for a circunstância. Só que o placar magro (um a zero) mostra bem o que foi a partida na Arena Kazan. Os comandados de Fernando Hierro tiveram que cortar um dobrado para superar o “ônibus” que o técnico Carlos Queiroz estacionou na frente da área iraniana. A vitória só veio no melhor estilo Diego Costa: força física, dividida com o zagueiro adversário e uma certa dose de sorte também. O escrete comandado por Fernando Hierro segue como favorito ao título da Copa do Mundo. Mas a partida contra o Irã deixou claro que la “Furia” também tem lá seus problemas defensivos. Principalmente quando o “Time do Povo” partiu em busca de um empate que não veio.

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Reprodução / Facebook / FIFA World Cup

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A Espanha entrou em campo armada no mesmo 4-3-3 da estreia no Mundial da Rússia, mas com a entrada de Lucas Vázquez no lugar de Koke. Iniesta e David Silva organizavam a saída de bola e acionavam o trio ofensivo formado pelo já citado camisa 11, Isco e Diego Costa. Toda a já conhecida movimentação da “Furia” esbarrou na defesa de handebol armada pelo português Carlos Querioz. No papel, o Irã se mostrava num 4-5-1, mas a prática mostrava algo próximo de um 6-3-1 que fechava os lados do campo e negavam espaços ao adversário. Rezaeian, Hosseini, Pouraliganji e Hajsafi recebiam o auxílio dos ponteiros Taremi e Amiri como se estes fossem laterais adicionais. O mais prejudicado acabou sendo Lucas Vázquez, jogador que precisa de campo para mostrar seu futebol. Não por acaso, ninguém conseguiu abrir o placar na primeira etapa.

Carlos Queiroz estacionou um ônibus na frente da área do Irã e levou muitos problemas para a Espanha. Lucas Vázquez acabou sendo o mais prejudicado pela retranca rival e sofreu para mostrar seu futebol. Sem espaços, a Espanha não encontrava saídas para fazer as infiltrações.

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A imagem abaixo mostra as enormes dificuldades da Espanha para chegar ao gol. A defesa de handebol (ou o ônibus estacionado na frente da área, como queiram) não é novidade no futebol mundial. Vanderlei Luxemburgo já havia utilizado o esquema no Flamengo em 2014 (com Éverton e Márcio Araújo se somando a Léo Moura e João Paulo). E como esquecer da Internazionale de José Mourinho quando o camaronês Eto’o virou lateral-esquerdo contra o Barcelona no jogo de volta das semifinais da Liga dos Campeões da UEFA? Se pesquisarmos, a probabilidade de encontrarmos mais exemplos do esquema é bem grande. Fato é que o técnico Carlos Queiroz usou a estratégia para frear a Espanha e tentar o gol no contra-ataque. A proposta pode ser pragmática ao extremo, mas ainda assim é válida. Ainda mais numa Copa do Mundo que tem seleções de tantos níveis técnicos e táticos diferentes.

A imagem mostra a defesa do Irã se postando quase como um time de handebol. Ponteiros voltam e fecham os lados formando uma linha defensiva com seis jogadores. O ataque espanhol encontrou enormes dificuldades para furar o bloqueio defensivo no primeiro tempo. foto: Reprodução / Facebook / FIFA World Cup.

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O gol da vitória espanhola saiu dos pés de Diego Costa, justamente o centroavante rompedor e de força física que não teria (ou teria?) espaço no time campeão mundial em 2010. E não sem uma dose de sorte, já que o corte do zagueiro bateu no camisa 19 e entrou no canto direito do ótimo goleiro Beiranvand. O Irã se lançou ao ataque e chegou a balançar as redes com Ezatolahi, mas o auxiliar assinalou impedimento confirmado pelo VAR posteriormente. Enquanto isso, Fernando Hierro reoxigenava sua equipe com as entradas de Asensio, Koke e Rodrigo nos lugares de Lucas Vázquez, Iniesta e Diego Costa. Mantendo o 4-5-1 e ainda negando espaços, os comandados de Carlos Queiroz quase empataram o jogo explorando os (muitos) espaços de Carvajal e Jordi Alba pelos lados do campo. Mas a belíssima jogada de Amiri (com direito a bola no meio das pernas de Piqué) terminou com cabeçada pra fora do meia Taremi.

O Irã não abandonou a boa marcação na defesa e mostrou bom volume ofensivo depois que Diego Costa abriu o placar no início da segunda etapa. Hierro percebeu que o adversário ganhava campo e remodelou a Espanha num 4-2-3-1 com as entradas de Koke, Asensio e Rodrigo.

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O resultado da partida na Arena Kazan somado à vitória de Portugal sobre o já eliminado Marrocos deixou a disputa pelas duas vagas nas oitavas de final da Copa do Mundo em aberto. Mesmo com a derrota, basta Irã vencer o time de Fernando Santos e Cristiano Ronaldo para passar de fase. Já a Espanha caminha para avançar como líder do Grupo B, mas não sem tirar lições da vitória magra sobre os iranianos. O time de Fernando Hierro precisou da força física de Diego Costa para chegar aos três pontos e viu sua defesa sofrer horrores contra o ataque adversário. Sergio Ramos e Piqué são pesados, Busquets é lento na cobertura e os Carvajal e Jordi Alba são ofensivos demais. Mesmo jogando com um “ônibus” na frente da sua área, o Irã poderia ter empatado a partida e frustrado os espanhóis. O problema é que os comandados de Carlos Queiroz ainda pecam demais nas finalizações a gol.

Se mantiver o mesmo volume ofensivo e a estratégia de ocupação de espaços, Irã pode trazer sérios problemas para Portugal no último jogo da fase de grupos. E a Espanha teve suas deficiências escancaradas mais uma vez. O time é talentosíssimo com a bola nos pés, mas ainda faz a recomposição defensiva numa velocidade bem abaixo que o nível de uma Copa do Mundo exige.