PAPO TÁTICO: Por que continua sendo injusto colocar toda a culpa da crise da Argentina nas costas de Messi

A Argentina enfrenta a Nigéria nesta terça-feira (26) precisando desesperadamente de uma vitória por uma boa margem de gols para se manter viva na Copa do Mundo (além de secar a Islândia que encara a Croácia no mesmo horário) e se classificar para as oitavas de final. Enquanto a Albiceleste mergulha numa das mais profundas crises da sua história, os olhos do mundo se voltam para Lionel Messi. O camisa dez, o craque, o homem que deveria ser responsável por liderar a equipe também passa por um péssimo momento. Não foram raras as vezes em que “La Pulga” foi visto de cabeça baixa dentro de campo sem saber o que fazer para tirar o escrete portenho do atoleiro. Certo é que Messi não pode carregar toda a culpa pela campanha ruim da Argentina na Copa do Mundo. É preciso entender o que se passa com o time de Jorge Sampaoli dentro de campo para se entender por que o camisa dez não consegue render tudo aquilo que pode render.

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Getty Images

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Messi surgiu para o futebol mundial jogando pela direita no 4-3-3 de Frank Rijkaard no histórico Barcelona de Deco, Eto’o e Ronaldinho Gaúcho. Aos poucos, foi mostrando a sua genialidade e pedindo passagem na equipe titular sempre com muita habilidade e gols decisivos. Mas foi quando Pep Guardiola assumiu a equipe catalã que o argentino explodiu de verdade. O treinador espanhol entendeu que Messi rendia muito jogando no espaço entre o volante e a linha defensiva, recebendo a bola e tocando para um outro jogador que se lança num espaço livre. É nessa região que o argentino joga com todo seu potencial através de dribles curtos, condução precisa da bola, chutes poderosos e passes precisos. Para Messi jogar bem é preciso que ele esteja no lugar certo, no momento certo e ainda contar com opções à sua frente. É exatamente por isso que o 4-3-3/4-3-1-2 (com o argentino jogando como “falso nove”) deu tão certo no Barcelona. Era Messi no seu estado mais puro.

Messi ocupa o espaço entre os zagueiros e os volantes adversários no histórico Barcelona de Pep Guardiola, Iniesta, Piqué, Abidal, Pedro, Villa, Xavi e Daniel Alves. Foi com esse posicionamento como “falso nove” que o camisa dez conquistou o mundo. Foto: Reprodução / ITV Sport.

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Mais recentemente, Ernesto Valverde (técnico muito mais pragmático que Guardiola) entendeu que precisava dar espaço ao seu principal jogador e escalou Messi logo atrás de Luís Suárez e à frente de uma linha de quatro meio-campistas no seu 4-4-1-1 com infiltrações de Paulinho, Rakitic, Philippe Coutinho e Iniesta no título espanhol de 2017/18. Na Argentida de Jorge Sampaoli, no entanto, as coisas funcionam de maneira diferente. O problema começa pela indefinição do esquema tático. O treinador da Albiceleste já usou o 4-2-3-1 e o 3-4-2-1 na Copa do Mundo, mas tanto um como outro não funcionam e não permitem que Messi mostre sua qualidade. Não há infiltrações nos espaços vazios, não há movimentação e não há quem dialogue com o camisa dez. Muitos falam em “falta de identificação com a Argentina” para tentar justificar a queda de rendimento do principal jogador do escrete portenho. Só que a questão é outra: a estratégia de Sampaoli ainda não funcionou no Mundial da Rússia.

Já na Copa do Mundo, Messi foi um mero espectador contra a Croácia. Pouco fez em campo assim como toda a equipe da Argentina que sofreu com o bem encaixado sistema defensivo e os contra-ataques croatas. Faltou movimentação e inspiração. Foto: Reprodução / TV Globo.

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Curiosamente, uma das últimas grandes atuações de Messi com a camisa de sua seleção aconteceu justamente com Jorge Sampaoli no comando da equipe. A vitória sobre o Equador por três a um em Quito, na última rodada das Eliminatórias sul-americanas para a Copa do Mundo, trouxe “La Pulga” em estado de graça e com vontade de calar os críticos. O camisa dez saía de trás e contava com a companhia de Di María, Acuña, Sálvio e Enzo Pérez nas infiltrações e ainda tinha em Benedetto um atacante que sabia segurar a bola no ataque. Com todo o time argentino se movimentando e dando opção de passe, a vitória veio com direito a três gols de Messi e a classificação para a o Mundial. É óbvio que ainda há como se cobrar mais do craque argentino. Mas Sampaoli já possuía as ferramentas para explorar todo o potencial de seu principal jogador e acabou preferindo um outro caminho além de se mostrar completamente inseguro nas suas escolhas nas duas partidas da Albiceslete na Copa do Mundo.

A atuação de Messi contra o Equador na última rodada das Eliminatórias mostraram que Jorge Sampaoli seguia o caminho certo para encaixar o craque argentino na sua equipe. Mesmo no 3-4-2-1, o camisa dez se movimentava entre as linhas adversárias e contava com as infiltrações dos jogadores de meio-campo. Foto: Reprodução / Sportv.

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Antes que alguém reclame, Messi precisa sim ser cobrado. É um dos principais jogadores da sua geração, um dos melhores de todos os tempos e não consegue jogar na Argentina como joga no Barcelona. Este que vos escreve admira o futebol inventivo e genial de “La Pulga” mas vê o jogador sendo obrigado a carregar todo o peso da crise na seleção portenha. E é aí que está o X da questão. Futebol é um esporte coletivo. E até mesmo gênios como Messi precisam que todo o time funcione. Uma andorinha só não faz verão. Pelé contou com o brilho de toda uma geração de craques em 1970, Zidane precisou da garra de toda a equipe francesa em 1998, Maradona só fez o que fez em 1986 por que a Argentina contava com jogadores de raro talento em outros setores, Cruyff só brilhou porque a Holanda se transformou na Laranja Mecânica em 1974 e Puskás só entrou para a história por conta da fabulosa Hungria e do seu futebol inovador e revolucionário no já longínquo ano de 1954. Todo craque precisa de um time.

A Seleção Argentina precisa de Messi. Isso é fato. Mas Messi também precisa da Seleção Argentina. Precisa jogar coletivamente com jogadores que entendam seu raciocínio e o deixem fazer o que sabe. Não basta apenas talento (coisa que os comandados de Jorge Sampaoli têm de sobra). É preciso organização e uma estratégia bem feita e bem consolidada. Só resta saber se a Albiceleste e Messi ainda têm tempo e recuperar o tempo perdido e manter vivo o sonho do tricampeonato da Copa do Mundo.