Naturalizações na Copa também envolvem política e acontecem com mais frequência do que você imagina; veja

Em algumas situações, a política pode interferir na carreira dos jogadores de futebol. Como são os casos dos ‘oriundis’ na Seleção Italiana de 1934 e do ‘Major Galopante’ Ferenc Puskás, na Espanha de 1962.

Lucas Meireles
Colaborador do Torcedores.com.

Crédito: Foto: Reprodução/FIFA World Cup

Atuar por uma seleção diferente do país que nasceu é comum no mundo do futebol. Para se ter uma ideia, nesta edição do Mundial, 82 jogadores se enquadram neste quesito. Dupla-cidadania, escolha pessoal, idolatria nacional, falta de oportunidades em seu respectivo país. Diversos podem ser motivos que levam um atleta a defender uma outra pátria.

Contudo, algumas naturalizações podem ser promovidas como propaganda de um regime político. Como foi o caso da Seleção Italiana que disputou a Copa do Mundo de 1934. O segundo Mundial da história.

Itália de 1934

Itália na final diante da Checoslováquia (Foto: Reprodução/FIFA World Cup)

Fanático por futebol, o ditador fascista Benito Mussolini quis trazer a Copa do Mundo para seu país para utilizá-la como propaganda de seu governo. Além disso, ele queria ver a Itália campeã do mundo. Porém, sem um time tão forte quanto seus adversários, “Il Duce” precisava de outra estratégia.

Para conseguir a Jules Rimet, ele passou a promover uma política de naturalização de atletas sul-americanos que possuíam descendência italiana para atuarem na Azzurra. Foram quatro oriundis (como eram chamados) campeões naquela edição. Os argentinos Guaita e Monti, o uruguaio Andreolo e o brasileiro Filó.

Após a Copa do Mundo, eles voltaram a atuar pelos seus clubes. Desses quatro, os dois argentinos eram peças-chave da Roma, time que representa a esquerda na capital e maior rival da Lazio do ‘Duce’. Andreolo e Filó eram jogadores do clube do coração do ditador.

Visando um enfraquecimento da forte rival, Mussolini convocou os oriundi romanistas para a Guerra da Abssínia em 1935. Para escapar, os dois argentinos voltaram ao seu país natal e desfalcaram a equipe da capital, que disputava o título. O Scudetto foi perdido, mas nos dérbis, a Lazio saía derrotada.

Puskás

Outro caso que envolve política e futebol é o de Ferenc Purczeld Biró, que foi rebatizado como Ferenc Puskás. Seu pai decidiu mudar o sobrenome por ser de origem alemã. Mas esta não seria única vez que a política atravessaria o caminho do atacante baixinho e gordinho.

Tido como um dos maiores jogadores do século XX, Puskás foi pentacampeão húngaro pelo Honvéd. Além disso, o jogador foi medalhista de ouro nos Jogos Olímpicos de Helsinque, em 1952, e vice-campeão da Copa do Mundo de 1954 pela Seleção da Hungria.

O atacante era um símbolo nacional. Porém,  quando eclodiu a Revolução Húngara de 1956, o regime socialista que comandava o país se tornou cada vez mais violento. Após uma partida contra o Atlético de Madrid, em Bruxelas, Puskás, juntamente com alguns companheiros, optou por não retornar à Hungria. O incidente fez com que o jogador fossem considerados “traidores da pátria” e difamados pela imprensa local.

Por determinação da UEFA, Puskás não poderia atuar até que regularizasse sua situação com a federação de seu país. Fazendo com que o artilheiro ficasse afastado dos gramados por cerca de um ano. Porém, após um acordo com a Federação Espanhola, o ‘Major Galopante’ pôde se naturalizar espanhol e defender o Real Madrid. Onde seria tricampeão da Liga dos Campeões da Europa e pentacampeão do Campeonato Espanhol.

Pela Fúria, como é conhecida a Seleção Espanhola, Puskás ainda atuou ao lado do companheiro merengue, o argentino naturalizado espanhol, Di Stéfano. Convocado para Copa do Mundo de 1962, no Chile, o jogador entrou para a lista de 5 jogadores que atuaram por duas seleções diferentes em Mundiais da FIFA. Além do artilheiro, apenas Luis Monti (Argentina em 1930 e Itália em 1934), José Santamaría (Uruguai em 1954 e Espanha em 1962), Altafini ‘Mazzola’ (Brasil em 1958 e Itália em 1962) e Robert Prosinecki (Iugoslávia em 1998 e Croácia em 2002) conseguiram este feito.

Reportagem feita em colaboração com Thiago D’Amaral.