Abusos, assédios e bebedeira: o outro lado da Copa contado de dentro de um trem

Não são nem dez da noite, há ainda um lusco-fusco do lado de fora, e duas pessoas já foram expulsas do trem 175, que saiu de Moscou ao 12h40 para chegar, dali a dezessete horas, em Samara. Um dos expelidos passou muito do ponto na bebedeira e teve de sair carregado por seguranças, que o puseram para fora numa das primeiras paradas. O outro se meteu numa briga e também foi descarregado.

Gustavo Altman
Colaborador do Torcedores

Os anfitriões da Copa, o governo da Rússia e a FIFA, ofereceram viagens gratuitas entre uma cidade e outra para quem havia comprado ingressos das partidas do Mundial – houve iniciativa semelhante na Copa da Alemanha, em 2006, mas não nas da África do Sul (2010) e Brasil (2014), até porque as viagens de trem, do Oiapoque ao Chuí, são uma miragem ou coisa dos livros de história.

O Time do Tas teve acesso a um desses trens, aquele dos dois expelidos precocemente, na viagem que levava brasileiros e mexicanos para o jogo das oitavas-de-final, na terça-feira, 2 de julho. Os vagões, que cortam um bom pedaço da porção ocidental da Rússia, são um painel de situações interessantíssimas da Copa do Mundo. De ponta a ponta, vê-se o lado bom de tanta comunhão de torcidas, o futebol globalizado, a alegria permanente – mas há também uma faceta triste e inaceitável, de comportamentos que beiram o grotesco e o ridículo.

Convém, antes, conhecer um pouco do interior dos trens, os mesmos que circulam no cotidiano, à exceção de banners colocados pela FIFA, com as cores do torneio, que parecem se multiplicar dentro das comodidades. Há cerca de dez quartos por vagão, com quatro camas em cada um. Como, no momento da reserva, é impossível saber com quem se compartilhará o cubículo, o resultado é uma mistura de nacionalidades, uma Torre de Babel futebolística.

Quer saber quem chega e quem sai dos clubes do Brasil e do mundo?

 

Brasileiros, mexicanos e russos, que formam a maioria da população no trem 175, se misturam a suecos, costa-riquenhos e os onipresentes chineses. Os clichês brotam por todos os cantos: russos se atracam a garrafas de vodka; mexicanos cortam limões para acompanhar uma tequila; e brasileiros, à falta de uma gelada, vão mesmo de cerveja quente, a norma na Rússia. O exagero na bebida – seja a vodka, seja a tequila, seja a cerveja –, em tão longa travessia, é o atalho para que se desperte os piores lados dos torcedores.

Eles estão bêbados, aglomerados no vagão-restaurante, de pé, colados uns aos outros, como se estivessem num estádio de futebol. Ao fundo, escuta-se a primeira frase de estúpido mau gosto: “essa garçonete é uma delicinha, hein?!”. A reação é uma só: todos direcionam o olhar para a russa que estava trabalhando – e os olhares já não mudam mais de direção, ameaçadores. Ao tentar se esquivar e perfurar a multidão para atender aos chamados, a garçonete também é apalpada por outros tantos, que acham graça da situação, riem alto. Brasileiros e mexicanos esquecem a rivalidade e estão juntos na farra. Puxam-na pra dançar, debocham e pedem para que ela interaja com as câmeras. Lembram o nojento vídeo que, no começo da Copa, rodou o mundo, em que brasileiros faziam uma russa repetir frases obscenas, sem que ela entendesse, evidentemente.

A moça do balcão também entra no jogo de um lado só. Ao perceber que sua aparência era similar à da garçonete, um brasileiro diz para seu amigo: “não saio daqui até a irmã gêmea devolver a piscadela”. Posiciona-se, então, em frente ao balcão, olho no olho da russa, e passa a disparar olhares explicitamente maliciosos. A situação é tão incômoda que uma mulher – uma das poucas que também estava no recinto – intervém, pedindo tempo e respeito.

No início do mês passado, a Associação do Futebol Argentino (AFA) resolveu se antecipar às cenas de assédio e decidiu orientar os torcedores com uma cartilha de conselhos ao bom comportamento durante a Copa, para os que iam à Rússia. No documento, contudo, acabaram reforçando um machismo escancarado ao indicar as melhores práticas para conquistar mulheres russas. Uma das orientações era de que os homens deveriam “tratá-las como alguém de valor, com ideias e desejos próprios”. A diplomacia brasileira cometeu erro semelhante, ao sugerir que a comunidade LGBT evitasse “demonstrações homoafetivas em público”.

Levado a comentar o comportamento dos torcedores durante a Copa – majoritariamente os homens –, o paulistano Igor Carvalho, que está acompanhando o Brasil no torneio e segue no 175, se esquiva da pergunta, mas reforça: “está impossível mesmo de pegar mulher. Achava que seria tranquilo, mas elas não estão nem aí pra gente. Qual a graça?”. A saída, segundo ele, foi ir a casas de strip-tease na Rússia. Um dos integrantes desse grupo de amigos, que não quis se identificar, contou ter ido a uma dessas casas e, indignado com o fato de que uma dançarina não havia aceitado ir com ele para a cama, sacou mil dólares da carteira e lhe ofereceu. “Só queria mostrar o dinheiro para ver até onde ela ia com essa historinha de não querer transar”, disse. “E ela ainda saiu toda brava comigo”.

É estupidez sem fim. A bebedeira também causou problemas mesmo na relação de homens com homens, não bastasse as grosserias contra as mulheres. Um dos brasileiros, figura carimbada do restaurante durante as horas em que esteve aberto, bebeu tanto que teve de ser carregado por amigos até o quarto. Ao chegar lá, não se segurou e vomitou em cima da mala de um russo que viajava com sua família. Ele acabou permanecendo no trem, sob protestos. Mais cedo, dois russos também quase chegaram à pancadaria depois de uma discussão ríspida e violenta.

A beleza ecumênica de toda Copa do Mundo é inquestionável, na promoção de encontros e da congregação de diferentes nacionalidades e etnias. É uma festa multicultural que deve ser louvada. Mas é também um painel universal da torpeza do ser humano, como se viu nas dezessete horas do trem 175.

Coloque o inglês para jogo! A Fisk desenvolve as melhores ferramentas para que você faça vários gols de mestre! Saiba mais sobre os cursos aqui.