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Nada a mudar

A eliminação precoce da Seleção Brasileira na Rússia levanta os mesmos questionamentos de sempre após uma derrota – a primeira em jogos oficiais sob o comando de Tite, mas na pior ocasião, pois era um jogo decisivo. O que falhou num time que vinha jogando bem?

Caio do Carmo
Colaborador do Torcedores

Preparação não foi. Acuse a CBF de tudo e com razão, mas a seleção brasileira se planejou para o mundial. Tite assumiu o comando num momento em que a camisa estava sem prestígio – após dois fracassos na Copa América, um início de eliminatórias regular e, claro, com a decepção de 2014 ainda muito viva na lembrança da torcida.

Estreou com uma vitória convincente contra o Equador, então líder do torneio, na casa do rival. Emendou oito vitórias consecutivas – duas delas, contra a Argentina, no Mineirão, e o Uruguai, no Centenário, dando um verdadeiro show. 3 a 0 e 4 a 1. Depois, já classificado, empatou duas vezes fora de casa (Colômbia e Bolívia) e encerrou o torneio com outra boa exibição contra o Chile, no Allianz Parque.

Venceu as eliminatórias com 41 pontos – dez a mais que o Uruguai, segundo colocado, e quinze a mais que o Peru, o quinto classificado. Nos amistosos, o Brasil empatou com a Inglaterra em Londres, derrotou a Alemanha em Berlim e a Croácia, agora finalista da Copa. Por 2 a 0, fora o baile.

E neste ínterim, a seleção olímpica conquistou o ouro inédito no Rio. Não foi comandada por Tite – Rogério Micale era o treinador – mas o resultado não fez mal ao time principal. Os medalhistas Marquinhos, Renato Augusto, Neymar e Gabriel Jesus seriam convocados.

Portanto, não se pode culpar a preparação. Na véspera de embarcar para a Rússia, a seleção brasileira havia resgatado a confiança do torcedor. Tite era uma unanimidade. Algo tão raro que até sua lista final foi pouco contestada, mesmo contrariando o anseio da arquibancada que queria a presença dos gremistas Arthur e Luan nela.

Os jogos da fase de grupo acabaram sendo mais difíceis do que se previa. O empate na estréia contra a Suíça e a vitória nos minutos finais contra a Costa Rica derrubaram um pouco nossa soberba. Na verdade, trouxeram-nos para a realidade.

A Suíça só havia perdido um jogo nas eliminatórias – para Portugal, por isso disputou a repescagem – estava invicta havia seis jogos e, em 2014, foi eliminada nas oitavas pela Argentina, na prorrogação.

A Costa Rica se classificou em segundo lugar na Concacaf e tinha no elenco 12 jogadores (nove titulares) que participaram da surpreendente campanha em 2014, quando deixou Inglaterra e Itália para trás no grupo e só caiu nas quartas de final para a Holanda, nos pênaltis.

Então, por que achávamos que seria fácil? Talvez porque no Brasil damos muita bola para tradição e ignoramos feitos recentes, que também são históricos. Foi um feito a Costa Rica chegar às quartas. A Suíça ter disputado as quatro últimas Copas também. Tivéssemos preterido a crença cega na camisa, perceberíamos que não haveria vida fácil contra os nossos dois primeiros adversários.

Não obstante, o Brasil chegou ao terceiro jogo contra a Sérvia numa situação delicada: se perdesse, estava fora da Copa. Uma ironia para um time inconteste. Imagine uma eliminação na primeira fase, algo que só ocorrera duas vezes na nossa trajetória: 1930 e 1966. Vexame muito maior que o da última Copa.

Mas o Brasil venceu sem susto. Despachou a Sérvia e terminou na liderança do grupo, com os mesmos sete pontos de 2014 e 2010. Encararíamos o México, contra quem havíamos empatado (0x0) quatro anos antes. A Alemanha já estava fora. Tem lógica?

Passamos pelo México, com uma exibição no segundo tempo digna de seleção brasileira. Argentina e Espanha se despediram. Voltamos a ter esperança. Éramos os favoritos, como também o fomos em 2006, 2010 e 2014 e perdemos, e não o éramos em 2002 e vencemos.

A Bélgica sofreu para bater o Japão e, só por isso, porque até então era a sensação da Copa, nos consideramos ainda mais favoritos. É verdade que dessa vez ninguém achou que o jogo estava ganho. Até quem não acompanha futebol sabia o nome de três ou quatro belgas. Timaço.

Perdemos. Mas não foi como das outras vezes.

Em 2006, o Brasil tinha um panteão de craques e nunca foi tão dominado. Henry abriu o placar aos 12 minutos do segundo tempo e nos 33 seguintes a seleção não deu um só chute com perigo ao gol. A derrota foi magra porque os franceses não fizeram questão de ampliar. Soberanos no meio, só esperaram o tempo correr.

Em 2010, ao contrário, o Brasil jogou. E era um time inferior ao de 2006. Saiu Dida, entrou Júlio César. A dupla de zaga foi a mesma: Juan e Lúcio. Nas laterais, Cafu e Roberto Carlos foram substituídos por Maicon e Michel Bastos; na contenção, Emerson e Zé Roberto por Gilberto Silva e Felipe Melo. Kaká e Robinho estavam em ambas. No lugar dos Ronaldos – o gaúcho e o fenômeno – Elano e Luís Fabiano.

Naquele jogo contra a Holanda, fizemos um bom primeiro tempo. Robinho marcou aos 10 minutos e Kaká quase aumentou logo depois numa jogada individual, mas Stekelenburg salvou, como salvaria outras duas vezes, o que já foi razão para os comentaristas crerem que estávamos dando um banho de bola.

É curioso. No Brasil se cultua uma mentalidade ofensiva de jogo. Se um time ataca muito, isso já serve para justificar a vitória. Poucas vezes o mérito é da defesa. Geralmente, são os atacantes que falham. Naquela jogada do Kaká, por exemplo, o Brasil poderia ter feito o segundo, portanto desperdiçou o gol. Não foi o goleiro holandês quem o evitou. É um raciocínio que contraria a velha máxima de que todo grande time começa por um grande arqueiro. Além de ser uma quebra de isonomia, pois escancara a predileção do ataque em revés à defesa.

E de fato, graças a ele, foi possível a Holanda virar no segundo tempo em dois lances de bola parada – outro cacoete que por vezes nos valemos para minimizar a derrota. A interpretação é mais ou menos a seguinte: o Brasil atacou mais, então tinha que ter vencido. A Holanda marcou duas vezes de bola parada, que são gols menores porque não originaram de uma sequência de passes. Conclusão: resultado injusto.

O Brasil sofreu o segundo gol aos 68 minutos. Teve 22 para reagir, mas se abateu. Jogou bem – muito melhor do que contra a França quatro anos antes – mas só até levar o gol de empate. Depois, só deu Holanda.

Em 2014, não há o que comentar, só o fato de ter sido nossa melhor campanha desde a última estrela: semifinal (quarto lugar).

Contra a Bélgica, a seleção sofreu os dois gols nos primeiros 30 minutos. Teve todo o jogo para reagir e, ao contrário de 2006 e 2010, reagiu. O Brasil agrediu a Bélgica. Criou jogadas, finalizou e conseguiu descontar. Depois, mesmo quando o nervosismo bateu, levou perigo no ataque. Falhou nas conclusões.

O chute do Renato Augusto que saiu por pouco, no Corinthians, ele cansou de marcar. A isolada do Coutinho já entrou na gaveta no Vasco e no Liverpool. No mais, teve um goleiro. Ele está lá para isso. Neymar fez o que tinha que fazer no fim. Courtois também.

Finalização não é detalhe nem conseqüência. É um fundamento, talvez o mais importante. Times que criam muito, mas não sabem colocar a bola na rede, perdem. São criativos e ineficientes. Muitos técnicos ainda acreditam que se a equipe produzir várias jogadas, uma hora o gol sai, naturalmente. Bem, pode não sair.

O Brasil nesta Copa foi um exemplo disso. Até o duelo contra a Bélgica, a seleção se defendeu bem, deteve mais a bola que os adversários, criou várias jogadas ofensivas, e desde o primeiro jogo já demonstrava dificuldade nas conclusões. Não é só um toque final, um capricho. É o primordial. Seria preferível produzir menos e acertar mais.

Existe, claro, a frustração da derrota, mas, ao contrário das outras eliminações, não há a sensação de impotência, de que o futebol brasileiro ficou muito para trás ou de que é preciso começar tudo do zero.

Tite continua sendo um exímio treinador. Iniciará um novo ciclo tendo à disposição vários ótimos jogadores. Terá bastante tempo para preparar a próxima seleção que, quem sabe, romperá o domínio europeu que vige no futebol mundial desde o nosso último êxito. Já aprendemos o bastante. Está na hora de voltarmos ao topo. Ano que vem tem Copa América.