OPINIÃO: O que esses negros maravilhosos ensinaram para o mundo?

20 anos depois da geração Black-Blanc-Beur de 1998, a França conquistou sua segunda Copa do Mundo com um time multiétnico e com raízes em 17 países diferentes. Entenda a relevância disso para o mundo no contexto social e político atual.

Bruno Seidel
Publicitário e profissional de Criação na Assessoria de Comunicação da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc). Um dos 11 selecionados para cobrir a Copa do Mundo pelo #TimeDoTas.

Crédito: Arte: Time do Tas

 

Charge de M. Rifaï

 

A seleção francesa, que venceu a Copa do Mundo disputada na Rússia, chama atenção por ter um elenco multirracial formado por jogadores de diferentes etnias. Na verdade, apenas dois atletas do time nasceram fora da França: o goleiro reserva Steve Mandanda, que nasceu na República Democrática do Congo, e o zagueiro Samuel Umtiti, nascido em Camarões (o meia Thomas Lemar nasceu em Guadalupe, um dos países que correspondem à França ultramarina, bem como Martinica).

 

Foto: Reprodução / Instagram. @equipedefrance

 

No plantel francês, há uma interessante variedade de descendentes de nações como Angola, Argélia, Camarões, Filipinas, Guadalupe, Guiné, Haiti, Itália, Mali, Marrocos, Martinica, Mauritânia, República Democrática do Congo, Senegal e Togo. Essa característica lembra bastante o time francês que venceu sua primeira Copa do Mundo há 20 anos atrás. Apelidado de “Black-Blanc-Beur” (negros, brancos e árabes), o time tinha como principal estrela Zinedine Zidane, descendente de argelinos. Com o título conquistado em casa, a França passou uma mensagem para o mundo de que uma nação multiétnica e que abraça seus imigrantes tem muito mais chances de prosperar. Para o jornalista Éric Frosio, correspondente do jornal L’Équipe no Brasil, o que aconteceu na Rússia remete diretamente ao primeiro título francês de 20 anos atrás: “Isso é pouco uma réplica do que aconteceu em 1998, quando o conceito Black-Blanc-Beur surgiu naquele momento. Era uma novidade. Muitas origens diferentes, como da Nova Caledônia, da Armênia eda Argélia, pelo Zizou. Com a vitória final, a França achou que tinha demonstrado que a integração entre povos era um sucesso. Tudo isso foi romantizado, extrapolado. Vinte anos depois, está começando surgir de novo esse conceito. Os políticos vão querer usar, claro, essa onda para dizer que está tudo bem. Que a França está bem representada e integrada. Mas nada mudou 20 anos depois.”

 

Foto: Reprodução / Instagram. @equipedefrance

 

Com a recente questão dos refugiados e o posicionamento do presidente francês Emmanuel Macron favorável ao acolhimento dos imigrantes, essa ideia de integração e pluralização étnica ganha no título francês uma importante propaganda pró-imigração. Mais ainda pelo fato de Macron ter assistido à final da Copa no Estádio Lujniki, em Moscou, ao lado de personalidades como o presidente russo Vladmir Putin, a presidente croata Kolinda Grabar-Kitarovi e o presidente da FIFA, Gianni Infantino. Depois de vibrar com a vitória do seu país, Macron participou da cerimônia de premiação debaixo de uma forte chuva.

 

Foto: Reprodução / Instagram. @le.signe.jul

 

A Copa do Mundo é, junto aos Jogos Olímpicos, a maios celebração entre nações do planeta. É a grande oportunidade que o mundo tem de vivenciar a maior integração de povos, culturas e etnias da humanidade. Logo, a consagração de uma equipe que vive em sua essência a questão multirracial (possivelmente mais do que qualquer outra) possui uma representação muito impactante nessa discussão. Que craques como Mbappé, Umtiti e Pogba possam simbolizar a consolidação da inclusão e da diversidade, algo que o mundo tanto precisa.