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PAPO TÁTICO: Entenda como conceitos do basquete e do handebol inspiraram as seleções na Copa do Mundo

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Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Danilo Borges / Portal Brasil 2016 / Fotos Públicas

A Copa do Mundo de 2018 pode não entrar para a história por conta da qualidade do futebol jogado em terras russas tal como aconteceu com no ano de 1954 (na Suíça) e 1974 (na antiga Alemanha Ocidental). Mas o Mundial da Rússia já ficou marcado por pontos importantes no âmbito tático. O primeiro deles está no fato das seleções de menor expressão terem descoberto que espaço é tudo no futebol. E o segundo (uma consequência do primeiro) é que algumas equipes começaram a incorporar conceitos de outros esportes para vencer seus adversários. É bom entender que a Copa do Mundo é um torneio de “tiro curto”. São apenas sete partidas e pouquíssimo tempo para se adaptar a uma estratégia de jogo. Não é por acaso que esse Mundial teve algumas doses de basquete e handebol. Com toda a globalização que vivemos atualmente, é mais do que natural que treinadores busquem estratégias em outras modalidades para levar seus times às vitórias.

Vamos começar pelo começo, ou seja, pela defesa. Uma das características mais marcantes dessa Copa do Mundo foi a maneira como algumas seleções negaram espaços aos adversários. Vimos a simpática Islândia e a polivalente Suécia se fecharem em duas linhas de quatro bem compactadas na frente da área. Vimos a Inglaterra de Gareth Southgate e a Bélgica de Roberto Martínez apostar na linha de cinco defensores e seguirem a tendência das últimas temporadas no futebol europeu. Mas seleções sem tanta tradição no cenário mundial levaram esse conceito às últimas consequências. Como esquecer do sufoco que a Espanha de David Silva, Iniesta e Sergio Ramos passou diante do Irã? O técnico Carlos Queiroz sabia como seu adversário precisava de espaços para impôr seu estilo e alinhou SEIS JOGADORES na frente da área. A “Fúria” só conseguiu os três pontos num gol meio “sem querer querendo” do atacante Diego Costa. E olhe lá.

A Seleção do Irã alinhou seis jogadores na frente da sua área para negar espaços à Espanha e tentar o gol num contra-ataque. Os conceitos do handebol puderam ser vistos nessa e em outras partidas da Copa do Mundo. Foto: Reprodução / TV Globo

Não sei se vocês perceberam, mas o handebol trabalha com uma dinâmica muito semelhante à utilizada pelo Irã e outras equipes nessa Copa do Mundo. A Internazionale de José Mourinho também utilizou esse conceito durante nas semifinais da edição de 2009/10 da Liga dos Campeões da UEFA. Os jogadores se dirigem para o lado onde está a bola para enfrentar o adversário sempre em superioridade numérica com o lateral e/ou ala do outro lado se mantendo fixo na linha defensiva. No meio, os atacantes pressionam quem está com a bola e evitam que a linha defensiva se desfaça na frente da sua área. Tudo isso é feito num espaço muito curto, no máximo uns dez metros. A Copa do Mundo mostrou também que uma das formas de furar esse bloqueio é apostar nos jogadores mais fortes fisicamente perto do bloqueio defensivo. Afinal, quem tem mais força física tem mais chances de escapar da marcação. Igualzinho ao que acontece no handebol.

Algumas das seleções da Copa do Mundo utilizaram conceitos do handebol na hora de se defender. A foto acima mostra essa disposição na hora de parar os ataques adversários. Foto: Reprodução / Youtube / Olympic.

Ao mesmo tempo em que o time se fecha na defesa, ele chama o adversário para seu campo gerando um espaço gigantesco e bastante propício para os contra-ataques. Zagueiros precisam avançar e os goleiros também saem da sua área. Qualquer equipe que não tenha velocidade para fazer a cobertura sofria demais quando perdia a bola na frente. E é aí que entra o conceito de outra modalidade: o basquete. O técnico Gareth Southgate não foi assistir a jogos da NBA só por lazer. Ele queria extrair elementos que pudessem ser utilizados nos gramados e encontrou nos contra-ataques fulminantes do Golden State Warriors as respostas para seus questionamentos. Intensidade, velocidade e aproveitamento dos espaços deixados pelos adversários. Nesse contexto, uma das seleções que mais sofreram com a falta de velocidade do seu sistema defensivo foi a Alemanha. Equipe inteira no campo adversário, bola perdida e contra-ataque do adversário.

Um dos segredos do time da Inglaterra nessa Copa do Mundo (e também extraído do basquete) era uma jogada chamada “pick and roll” (algo como “pegar e rolar” em tradução livre). Resumidamente falando, é uma jogada de ataque em que um dos jogadores faz um bloqueio no adversário que estiver marcando o atleta que está com a bola para criar o espaço até a cesta. Ou este parte para o arremesso ou passa a laranjinha para o atleta que estava fazendo o bloqueio. Se a jogada “pick and roll” é realizada corretamente, um dos dois está em condições de fazer o arremesso. Ao mesmo tempo, os outros três atletas do time se afastam do garrafão para criar espaço para a dupla que está executando a jogada. Ficou difícil de entender tudo isso? Confira o vídeo abaixo com algumas das jogadas “pick and roll” da NBA e entenda como ela funciona. Parece simples, mas ela se torna bastante eficiente para abrir o caminho até a cesta adversária.

Mas como encaixar isso no futebol? A Seleção da Inglaterra deu a resposta nessa Copa do Mundo: as jogadas de bola parada. Dos doze gols marcados no Mundial, oito saíram dessa maneira. Os números podem fazer com que o torcedor mais desavisado pense que o English Team tenha força apenas no famigerado “Muricybol”. A força dos ingleses vai muito além disso. Tanto que (como já dissemos) o técnico Gareth Southgate foi buscar nos conceitos do basquete a chave para deixar as jogadas de bola parada da Inglaterra ainda mais mortais e eficientes. A receita é a mesma utilizada pelas grandes equipes da NBA: dois jogadores abrem a defesa adversária se lançando pelos lados, um outro jogador puxa a marcação do meio e o zagueiro trabalha mais isolado como se a pequena área fosse o garrafão da quadra. É por isso que a eficiência do English Team nos escanteios e faltas cobradas na área é tão impressionante.

O que podemos esperar do futebol após a Copa do Mundo? Mais equipes defendendo como “times de handebol” e outras atacando como “times de basquete”? A resposta está na velocidade. Quem tem mais rapidez nas tramas ofensivas e quem é mais feliz nas conclusões a gol tem mais chances de sair vencedor. Parece óbvio, mas muita gente se esquece disso na hora de comentar as partidas. Por mais que ainda se fale em “atitude”, “raça”, “jogadores mimados” e “amor à camisa” e ainda se ganhe muita atenção e cliques com esse tipo de discurso, o futebol ainda é jogado dentro de campo. E se até o velho e rude esporte bretão busca extrair conceitos no handebol e no basquete para seguir evoluindo, quem assiste também precisa abrir um pouco a mente para compreender melhor esse esporte tão complexo e cheio de detalhes.

Uma coisa é certa: a Copa do Mundo nos mostra de quatro em quatro anos que o futebol segue em constante mudança ao longo dos anos e que as estratégias de jogo ganham mais e mais importância dentro das quatro linhas. E não seria diferente na Rússia.

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