PAPO TÁTICO: Redenção de Akinfeev e fibra russa superam a “retranca” espanhola em mais uma bela história da Copa do Mundo

A Copa do Mundo, meus amigos, é maravilhosa. Só competições da sua magnitude conseguem trazer histórias maravilhosas como a do goleiro Igor Akinfeev. De vilão no Mundial de 2014, o camisa um da Rússia foi o grande nome da classificação do seu país para as quartas de final diante de uma Espanha tida como uma das grandes favoritas ao título de 2018 (mesmo com a saída conturbada de Julen Lopetegui do comando equipe a dois dias do início da Copa). E certas atitudes não costumam ter perdão. Enquanto a Rússia se fechava na sua defesa, a “Fúria” acabou adotando uma postura que beirou uma certa soberba diante de uma equipe que costuma dar tudo em campo. E os deuses do velho e rude esporte bretão acabaram premiando quem se dedicou mais em campo. Melhor para o time de Stanislav Cherchesov.

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Getty Images

Leia mais ~> Veja como a imprensa repercutiu a vitória da Rússia sobre a Espanha

O leitor da coluna PAPO TÁTICO até pode estranhar quando este que vos escreve fala em “retranca espanhola”. Mais do que natural. Até o zagueiro Piqué colocar o braço na bola e cometer pênalti infantil no final do primeiro tempo, a Espanha teve 75% de posso de bola e NENHUMA conclusão a gol. Fernando Hierro, que tinha optado por uma escalação mais cuidadosa com Nacho no lugar de Carvajal, Koke no lugar de Iniesta e Asensio no lugar de Thiago Alcântara, via sua equipe controlar o jogo, ter a posse da bola, mas agredir pouco. É como se os adversários dos russos tivessem optado por algo que chamaremos de “retranca com bola”. Enquanto a Rússia se fechava num 5-4-1, a “Fúria” optava pela posse de bola inócua e sem objetividade. Toca, toca, toca e toca sem efetivamente fazer algo que preste. E foi assim durante todo o jogo.

A Rússia se fechava na defesa num 5-4-1 e via a Espanha controlar o jogo num 4-3-3 de muita posse de bola mas sem efetividade e sem penetração na área adversária. A “retranca sem bola” acabou sendo punida no pênalti tolo de Piqué e convertido por Dzuyba no final da primeira etapa.

Leia mais ~> ‘Cucabol’ prevalece ao ‘Tiki-taka’ na Copa e gera repercussão na internet

O pênalti cometido por Piqué (e convertido por Dzyuba) deu uma nova cara ao jogo em Moscou. A Espanha passou a se atirar ainda mais para o ataque, mas sem a objetividade e a intensidade necessária para superar o “ônibus” que Stanislav Cherchesov estacionou na frente da área russa. A impressão que todos tinham era que Diego Costa, Sergio Ramos e companhia pensavam que o jogo poderia ser resolvido a qualquer momento. O veterano Iniesta substituiu um apagado David Silva, Carvajal entrou no lugar de Nacho e Iago Aspas foi para o jogo (na vaga de Diego Costa) para dar mais mobilidade ao ataque. Quando as chances surgiam, o goleiro Akinfeev estava lá, firme e forte para salvar a “Mãe Rússia”. A mais bonita (nos noventa minutos) aconteceu em chute de Iniesta da entrada da área e em rebote de Iago Aspas da esquerda.

Fernando Hierro mandou Iniesta e Carvajal para o jogo na segunda etapa, mas tirou a presença ofensiva da Espanha quando sacou Diego Costa para a entrada de Iago Aspas. A Rússia seguia se defendendo e tentando acelerar nos contra-ataques com Smolov e Cheryshev mais á frente.

Leia mais ~> Iniesta anuncia aposentadoria da seleção espanhola: “É o fim de uma etapa maravilhosa”

Por mais que alguns não gostem da estratégia de Stanislav Cherchesov, é preciso dizer que ela é tão ou mais legítima do que a “retranca com bola” da Espanha. O treinador russo sabia das deficiências e limitações da sua equipe e fez aquilo que o Irã fez na fase de grupos contra os espanhóis. Fechou a entrada da sua área com duas linhas: uma de cinco jogadores logo à frente de Akinfeev e outra com quatro meio-campistas logo depois dessa. No ataque, apenas Dzuyba (depois Smolov) para brigar com Sergio Ramos e Piqué por uma bola que pudesse gerar um contra-ataque. Vale destacar aqui as grandes atuações de Golovin (talvez o jogador mais técnico da Rússia), Mário Fernandes (o melhor lateral-direito da Copa do Mundo na opinião deste que vos escreve) e de Cheryshev, um leão no lado esquerdo.

A estratégia de Stanislav Creschesov era clara: dar a bola para a Espanha e tentar aproveitar um erro na saída de bola adversária para tentar o gol num contra-ataque. A garra dos russos acabou sendo premiada no final da partida. Compactação e negação de espaços. Foto: Reprodução / TV Globo.

Leia mais ~> Copa do Mundo: Akinfeev garante Rússia nas quartas e se recupera das falhas de 2014

O segundo tempo da prorrogação teve a Espanha se reorganizando num 4-4-2 mais tradicional (quase um 4-2-4 em alguns momentos) com Iago Aspas e Rodrigo (substituto de Asensio) no ataque, Isco e Iniesta tentando abrir espaços pelos lados do campo, Koke e Busquets dando suporte mais atrás e os laterais Carvajal e Jordi Alba avançando. Só que a Espanha não tinha penetração na área e abusava dos toques para o lado. A única chance aconteceu quando Rodrigo pegou bola pela direita e obrigou Akinfeev a fazer grande defesa já nos minutos finais do segundo tempo da prorrogação. A Rússia se desdobrava para marcar e fechar espaços e sentia os efeitos da dedicação tática. O 5-4-1 de Cherchesov cumpria a sua missão de dar a bola para a Espanha e segurar o ímpeto de uma seleção mais qualificada tecnicamente.

A Espanha tentou o gol da classificação armada num 4-4-2 com Rodrigo no lugar de Asensio e o avanço das linhas para o campo adversário. A Rússia se desdobrou na marcação e viu o goleiro Igor Akinfeev bilhar com grandes defesas com a bola rolando e nas cobranças de Koke e Iago Aspas.

Leia mais ~> Goleiro russo é comparado a “São Victor” após defesa de pênalti na Copa do Mundo

Decisão por pênaltis é uma das melhores maneiras de se medir a força mental e a concentração de uma equipe. E a Rússia mostrou muito mais fibra nas cobranças e contou com a estrela de Akinfeev nas defesas das cobranças de Koke e Iago Aspas. Um prêmio para quem saiu do Mundial de 2014 como vilão e ressurge no seu país natal como grande herói. E sem dúvida, um castigo imenso para uma Espanha que abusou de um “tiki-taka” completamente inócuo e sem propósito. Também é difícil não se lembrar da demissão de Julen Lopetegui a dois dias da estreia da “Fúria” na Copa do Mundo. Além disso, é complicado defender uma seleção que mostrou um futebol burocrático e que só venceu o Irã na fase de grupos e ainda assim passando um sufoco impressionante no segundo tempo. O clima nos bastidores se refletem no campo. É inevitável.

A Rússia escreve mais uma bela história na Copa do Mundo. A seleção anfitriã do Mundial pode não ter um grande time ou um grande craque no elenco, mas a maneira como esse time se entrega em campo é admirável. Nomes como Cheryshev, Mário Fernandes, Ignashevich, Golovin e Dzuyba foram gigantes e deixaram muito em campo. Mas o grande nome dessa partida se chama Igor Akinfeev. Nada como ressurgir das cinzas como grande herói dentro de casa. A Copa do Mundo, meus amigos (sim, vou repetir) é maravilhosa.