RECORDAR É VIVER: Bruno Seidel compartilha suas lembranças dos 24 anos do Tetra

Hoje faz 24 anos que o Brasil conquistou sua o Tetra nos EUA. Foi a primeira Copa que eu acompanhei pra valer.

Bruno Seidel
Publicitário e profissional de Criação na Assessoria de Comunicação da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc). Um dos 11 selecionados para cobrir a Copa do Mundo pelo #TimeDoTas.

Crédito: Foto: Mike Hewitt / Getty Images

 

Devo admitir que, aos nove anos de idade, eu odiava futebol. Diferente da maioria dos meus colegas, eu detestava as aulas de Educação Física e não achava a menor graça em jogar bola com outros meninos. Fazia completo sentido: eu era um garoto com muito mais chances de me tornar um nerd do que um boleiro. Meus passatempos preferidos eram o videogame, os super-heróis, os desenhos animados, os gibis… futebol era para aqueles que não gostavam muito de ficar em casa, que gostavam de correr e suar. Além disso, eu jogava muito mal (bom, isso nunca mudou).

E como toda pessoa que desdenha futebol, tinha algo que me incomodava: o fanatismo de certas pessoas por esse esporte. Eu me irritava com alguns colegas meus idolatrando seus respectivos times e alguns jogadores, não via sentido nenhum naquilo. Eu me incomodava tanto com futebol que até cheguei a me interessar por um esporte “rival”, o futebol americano. Olhando pra trás, hoje percebo o tamanho da influência cultural estadunidense sobre a minha infância. Eu cheguei a acompanhar futebol americano só pra me sentir “superior” aos colegas que gostavam de futebol, um esporte de “povão”. Lembro até que eu tinha adotado um time pra torcer: o Buffalo Bills, uma equipe de Nova Iorque. Porém, era mais um auto convencimento do que uma preferência sincera, porque eu nunca cheguei a me interessar em futebol americano pra valer.

Tudo mudou quando um evento mundial, que estava pra começar naquele ano de 1994, acabou mudando a minha vida. Era a Copa do Mundo da FIFA, que foi realizada entre os dias 17 de junho a 17 de julho nos Estados Unidos. Não é segredo pra ninguém que o Brasil simplesmente para em época de Copa do Mundo. É uma verdadeira mobilização nacional que acontece a cada quatro anos. Bastava ligar a TV ou o rádio, abrir o jornal ou sair nas ruas que tudo que se via ou ouvia era relacionado à Copa, ou então às cores verde e amarela, alusivas à Seleção Brasileira. Essa lavagem cerebral da mídia estava começando a mudar meu pensamento.

Lembro que a Seleção Brasileira chegou a realizar um amistoso contra o Canadá, no dia 5 de junho, poucos dias antes do início da Copa. A família toda estava reunida na cozinha da sala e acabamos assistindo a um empate em 1 a 1. Pouca gente botava fé naquela Seleção Brasileira, treinada pelo retranqueiro Carlos Alberto Parreira e que havia se classificado aos trancos e barrancos para o mundial. O time do Brasil não inspirava confiança e já estava há 24 anos sem vencer uma Copa.

A Copa do Mundo da FIFA de 1994 foi a última a ter 24 seleções participantes. Brasil, Itália e Alemanha eram, até então, as maiores vencedoras do torneio, com três títulos cada. Havia ainda a Argentina, com dois títulos mundiais e que contava com a presença do astro Diego Maradona. Outra grande favorita para aquela Copa era a seleção da Colômbia, que havia feito uma ótima campanha nas eliminatórias (com direito a uma goleada de 5 a 0 sobre a Argentina na casa dos adversários).

 

A cerimônia de abertura

Lembro que, naquela época, eu passava boa parte do dia na casa do meu avô e da minha dinda Solange, que era anexada ao Artesanato Santa Cruz, administrado pela minha dinda e pela tia Vera Genz. Na tarde do dia 17 de junho, dia em que começou a Copa do Mundo da FIFA de 1994, estava todo mundo ligado na frente da TV pra assistir a cerimônia de abertura. Na sala da casa estavam reunidos meu vô, minha dinda e a tia Vera, que chegou até a brincar comigo: “Vai lá na rua e vê se tem alguém.” Eu fui dar uma espiada na rua e, realmente, nem parecia uma tarde ensolarada de sexta-feira. Só vi um gordo caminhando pela calçada e ninguém mais, nem barulho de carros. Voltei e respondi pra tia Vera que só tinha visto um gordo andando na rua. E ela respondeu: “Então esse gordo deve estar perdido, ou não sabe que dia é hoje.” Na hora eu não entendi muito bem aquilo, até porque eu não tinha nenhuma noção do que aquilo representava: “era só o começo de um torneio de futebol. E daí?”. Mal sabia o quanto aquele tipo de acontecimento significava.

A cerimônia de abertura da Copa, realizada no estádio Soldier Field, em Chicago, até que foi divertida. Lembro da cantora Whitney Houston entrando em campo de mãos dadas com Pelé e também um momento hilário em que a artista Diana Ross fez uma apresentação na qual cobrou um pênalti em meio ao espetáculo e acabou quebrando a goleira. “Não é bem o negócio dela, mas pelo menos derrubou a trave.”, comentou o narrador Galvão Bueno, que participava da transmissão da Rede Globo durante o evento. O jogo de abertura da Copa foi entre Bolívia e a poderosa Alemanha, atual campeã do mundo. Os alemães venceram por 1 a 0, com um gol de Jürgen Klinsmann no segundo tempo.

 

A tabelinha da Caixa

Na minha casa tínhamos uma tabelinha em folder com os jogos da Copa feita pela Caixa Econômica Federal (cortesia do meu pai). Era daquelas tabelinhas pra marcar os resultados dos jogos. Nela, os países eram representados por suas respectivas bandeiras dentro dos grupos dos quais faziam parte. Como nas fases de mata-mata (oitavas de final, quartas-de-final, semifinais e final) os times ainda eram desconhecidos, havia uma cartelinha de adesivos com as bandeirinhas dos países, que acompanhava a tabela. Conforme os confrontos da fase de mata-mata eram definidos, os adesivos com as bandeirinhas eram utilizados para completar a tabela.

Foi observando aquela tabela que eu entendi como funcionava o sistema de disputa da Copa do Mundo: era preciso classificar-se na fase de grupos após enfrentar três adversários pré-determinados (que para o Brasil, na ocasião, eram Rússia, Camarões e Suécia); depois, começavam as oitavas-de-final, contra um adversário também classificado; a partir daí, quem perdesse ia ficando de fora e quem vencesse iria avançando pra próxima fase, até sobrarem só dois que fariam a grande final. O vencedor da final seria o grande campeão. Mais interessante do que isso, eu comecei a observar as diferentes bandeiras de alguns países e comecei a me interessar por geografia de uma forma diferente daquela chatice da sala de aula.

Outra coisa que me chamou a atenção era a existência de alguns países dos quais eu nunca tinha ouvido falar (Camarões, Nigéria, Coreia do Sul, Bulgária…) e também a ausência de algumas nações que eu só conhecia graças ao jogo Street Fighter II (que, possivelmente, foi a minha primeira referência global de países e geografia). “Ué! Cadê a Tailândia?!”, exclamei ao estranhar a ausência do país asiático, que em SFII era representado por Sagat e Bison (os dois últimos chefões). Mal sabia eu que o selecionado tailandês era inexpressivo no mundo do futebol e que passou longe de se classificar para aquela Copa (aliás, nunca jogou uma).

Os grupos da Copa do Mundo FIFA de 1994 eram: A) Estados Unidos, Suíça, Colômbia e Romênia; B) Brasil, Rússia, Camarões e Suécia; C) Alemanha, Bolívia, Espanha e Coreia do Sul; D) Argentina, Grécia, Nigéria e Bulgária; E) Itália, Irlanda, Noruega e México; F) Holanda, Arábia Saudita, Bélgica e Marrocos.

 

Estreia contra a Rússia

A estreia do Brasil estava marcada pro dia 20 de junho, contra a Rússia, no Stanford Stadium, em São Francisco. A família toda se reuniu na minha casa pra assistirmos aquele jogo. Foi a primeira vez que eu senti aquele clima de Copa do Mundo, já que em 1990 ainda era muito pequeno e lembro de pouca coisa. Acabei assistindo alguns lances importantes daquela partida, que teve um gol de Romário, no primeiro tempo, e outro de Raí (de pênalti), no segundo. A vitória do Brasil por 2 a 0 me fez começar a perceber que futebol não era tão chato assim, principalmente quando o time que estamos torcendo ganha.

 

Segunda rodada

A segunda partida do Brasil na Copa foi contra a seleção africana de Camarões. Eu ainda não tinha muita paciência pra assistir a um jogo inteiro de futebol, mas lembro que enquanto a bola rolava eu estava sempre por perto de alguma TV pra saber a quantas estava o jogo. O Brasil terminou o primeiro tempo vencendo por 1 a 0 (gol de Romário). Logo depois, ouvi uma narração de gol e fui perguntar ao meu vô se já estava 2 a 0. Mas aí ele respondeu: “São só os melhores momentos.” Era uma reprise do primeiro gol e eu ainda nem sabia o que eram os “melhores momentos”. O Brasil acabou marcando mais dois gols no 2º tempo (Márcio Santos e Bebeto) e venceu Camarões por 3 a 0.

Ainda na segunda rodada, tivemos a partida entre Argentina e Nigéria. Era a arrogante seleção de Diego Maradona contra uma estreante em Copas do Mundo, que vinha de um continente pobre e sofrido. A Nigéria saiu na frente com um golaço de Siasia, mas os argentinos viraram com dois gols de Caniggia (aquele mesmo que tirou o Brasil da Copa de 1990). Fiquei com uma dó dos pobres nigerianos. Cinco dias depois daquela partida, o craque Diego Maradona foi pego no exame antidopping através de um exame de urina (coletada no dia da partida contra a Nigéria) e banido definitivamente da Copa do Mundo.

 

Empate indigesto

No terceiro jogo do Brasil na Copa, o adversário era o bom time da Suécia. Diferente das duas partidas anteriores, fomos surpreendidos negativamente e acabamos sofrendo o primeiro gol. A Suécia abriu o placar no primeiro tempo com um gol de Kennet Andersson. O Brasil ainda empataria o jogo com um gol de Romário no início do 2º tempo, mas a partida acabou mesmo empatada em 1 a 1. Pra alguém como eu, que estava acostumado a ver o bem sempre vencer no final nas obras de ficção, aquele empate não caiu bem e soou até com um gosto de derrota.

Na prática, o empate não foi ruim para o Brasil, pois a Seleção se classificou como 1ª colocada do Grupo B (se tivesse vencido, teria acontecido a mesma coisa) e obteve a melhor campanha da primeira fase entre todas as seleções. No entanto, apesar dos bons resultados (duas vitórias e um empate), o Brasil era alvo de muitas críticas. Lembro muito bem do meu vô revoltado durante os jogos, pedindo as saídas de Raí e Zinho. Ele dizia que Parreira deveria colocar o menino Ronaldo em campo. Foi a primeira vez que ouvi falar no nome desse jogador que mais tarde brilharia como um dos maiores personagens da história do futebol.

 

Quem perder, está fora

Estavam definidos os confrontos das oitavas de final. O adversário do Brasil seria o time da casa, os Estados Unidos. Os outros confrontos foram: Alemanha e Bélgica, Espanha e Suíça (2 de julho); Arábia Saudita e Suécia, Romênia e Argentina (3 de julho); Holanda e Irlanda (4 de julho); Nigéria e Itália, México e Bulgária (5 de julho). Uma chamada na TV deixava bem claro: “Agora, quem perder está fora.”. Era matar ou morrer.

Antes do jogo entre Brasil e Estados Unidos, porém, tivemos a emocionante partida entre Romênia e Argenitna. A torcida brasileira foi toda da Romênia naquela tarde de domingo. Os romenos abriram o placar com Dumitrescu, aos 11 minutos de jogo. A Argentina empatou com Batistuta logo depois, mas Dumitrescu voltou a colocar a Romênia em vantagem ainda no primeiro tempo. Na segunda etapa, a Romênia aumentou a vantagem com um gol do camisa 10 Hagi, o grande astro do time romeno. Eu e minha dinda Solange, uma declarada “anti-Argentina”, acompanhávamos o jogo pelo rádio. Na ocasião, o locutor disse abertamente que estava torcendo pela Romênia (ou seja, contra a Argentina) e a dinda Solange vibrou ao concordar: “To contigo e não abro!”. Os argentinos ainda conseguiram descontar com um gol de Balbo aos 30 minutos do segundo tempo, o que acabou deixando a partida ainda mais emocionante. No jogo que foi considerado por muitos o melhor da Copa, a Romênia foi superior e bateu a Argentina por 3 a 2. Os argentinos estava eliminados da Copa do Mundo, para a minha alegria, da minha dinda e de boa parte da torcida brasileira.

 

Independence Day

No dia seguinte foi a vez do Brasil enfrentar os Estados Unidos no Stanford Stadium, em São Francisco, em pleno dia 4 de julho, data da independência dos donos da casa. Se perdesse dessa vez, estaria fora da Copa do Mundo. Por esse motivo, a partida contra os Estados Unidos merecia uma atenção especial. O time americano contava com o ilustre zagueiro Alexi Lalas, sujeito que alguns diziam parecer um bode (cabeludo e com um enorme cavanhaque). Talvez o lance mais lembrado dessa partida (mais até do que o gol), tenha sido a expulsão do lateral Leonardo, aos 44 minutos do segundo tempo. Leonardo teve sua camisa puxada pelo americano Tab Ramos e acabou dando uma cotovelada em pleno lance. Na hora até achei exagerada a expulsão, já que Ramos estava puxando a camisa do brasileiro, que só estava “se defendendo”. No entanto, a violenta cotovelada acabou causando uma fratura no malar do jogador americano e, por esse motivo, Leonardo acabou sendo expulso da partida e suspenso por quatro jogos, ou seja, pelo resto da Copa.

No segundo tempo, o Brasil entrou em campo com um jogador a menos e com a missão de vencer os donos da casa em pleno feriado de 4 de julho. Foi quando a dupla de ataque formada por Romário e Bebeto brilhou. O “baixinho” dominou a bola na entrada da área e, cercado por três defensores, rolou para o parceiro Bebeto, que vinha por trás. Na entrada da pequena área e antes do carrinho do zagueiro Lalas, Bebeto deu um chute cruzado de primeira, marcando o gol da vitória para o Brasil.

Estavam definidas as quartas-de-final: Itália e Espanha duelariam no dia 9 de julho, às 12h (horário local); Brasil e Holanda no dia 9 de julho, às 14h30; Alemanha e Bulgária no dia 10 de julho, às 12h e Romênia e Suécia no dia 10 de julho, às 12h30.

 

Deu Branco

A partida contra a Holanda, válida pelas quartas-de-final da Copa do Mundo de 1994, é uma das que eu tenho mais vivas na minha lembrança. Naquela tarde de 9 de julho, toda a família se reuniu na casa da tia Gundi, irmã do meu tio Aici e grande amiga da família (na época a casa ainda era do tio Aici e da tia Cira). Pouco antes do jogo, no quarto dos meus pais, vi a Itália vencer a Espanha por 2 a 1 e avançar para as semifinais.

Havia um clima de desconfiança sobre a seleção brasileira antes daquele jogo. Lembro até que, no mesmo dia, o jornal Gazeta do Sul publicou uma charge na qual dizia-se que os holandeses jogariam de “salto alto”: uma alusão aos tamancos. “Mas será que vai ser tão difícil assim?”, eu me perguntava. Algumas estatísticas diziam que o Brasil não possuía um bom retrospecto contra a Holanda em Copas do Mundo. E era verdade: em 1974, a Seleção foi eliminada pelos holandeses, que contavam com a incrível geração de Johan Cruyff e companhia.

Brasil e Holanda se enfrentaram no estádio Cotton Bowl, em Dallas. O Brasil saiu em vantagem, com um gol de Romário aos 8 minutos do 2º tempo. Logo depois, aos 18, Bebeto aumentou o placar e fez 2 a 0. Bebeto aproveitou o gol pra homenagear o filho Matheus, nascido há dois dias. Na comemoração, o atacante correu até a linha lateral, posicionou os braços como quem carrega um bebê e passou a embalá-los para os lados. Romário e Mazinho acompanharam o colega e fizeram o mesmo, numa das cenas mais emblemáticas daquela seleção. Surgiu assim, a famosa comemoração “nana, neném”.

Parecia que a vitória estava garantida e que a Holanda nem metia tanto medo assim. Mas as coisas logo começaram a piorar. Numa falha da defesa brasileira, o holandês Bergkamp descontou. Já aos 31 minutos da etapa final, veio o susto: numa cobrança de escanteio cobrada por Overmars, o holandês Winter subiu mais que Taffarel e marcou o gol de empate. Todo aquele clima festivo de “já ganhou” deu lugar à tensão e o medo de ceder uma virada. Minha mãe, que assistia o jogo junto com a gente, perdeu a paciência com o goleiro Taffarel e esbravejou: “frangueiro!”.

O gol salvador, no entanto, veio só aos 36 minutos do 2º tempo. O lateral branco, que jogou no lugar de Leonardo (suspenso) sob muitas críticas, acabou cavando uma falta que ele mesmo ficou encarregado de cobrar. Branco cobrou a falta com muita força e efeito. A bola fez uma curva, desviando da barreira e do atacante Romário, que chegou a desviar-se por uma fração de segundos para permitir que ela chegasse até o gol. O Brasil estava novamente em vantagem! O histórico gol de Branco foi comemorado pelo jogador, que colocou o dedo indicador sobre a boca em sinal de protesto contra os seus críticos. Por esse motivo, ganhou o nome de “gol cala-boca”, batizado pelo próprio Branco. De forma heróica, o Brasil estava nas semifinais. E o meu interesse por futebol só crescia!

 

Quartas-de-final

Dois semifinalistas já estavam definidos. Uma delas era a Itália, seleção tricampeã mundial que contava com o talentoso Roberto Baggio, considerado o melhor jogador do mundo pela FIFA no ano anterior. O outro classificado era o Brasil, que havia passado por uma difícil partida contra a Holanda.

No dia seguinte, tivemos outras duas decisões. Uma delas era entre Alemanha e Bulgária. Os alemães eram os atuais campeões mundiais e lutavam pelo Tetra, assim como Brasil e Itália. Obviamente, a torcida brasileira era toda da Bulgária, que não possuía tradição em Copas do Mundo e jamais havia chegado tão longe em uma Copa. Naquela tarde de domingo, meu primo Ramiro estava na minha casa assistindo ao jogo conosco. Me recordo, inclusive, dele gritando: “pênalti contra a Bulgária!”. O “careca” Letchkov derrubou Klinsmann na área e provocou a cobrança de pênalti a favor dos alemães. Matthaus cobrou e abriu o placar para a Alemanha.

O jogo parecia decidido a favor dos favoritos alemães e, provavelmente por isso, decidimos nem acompanhar o resto da partida. Ramiro, meus irmãos e eu fomos pra casa da minha vó Soely, no bairro Higienópolis. Depois de brincarmos um pouco, resolvemos ligar a TV pra saber a quantas andava a partida entre Alemanha e Bulgária. Foi quando tivemos uma enorme surpresa: a Bulgária tinha virado a partida!!

Tão surpresos quanto eufóricos, vibramos com o placar do jogo, que já estava em seus instantes finais. Assim que o jogo acabou, o narrador confirmou: “a Alemanha volta pra casa”. De tão empolgados com a notícia, resolvemos tirar um sarro de alguns vizinhos da minha vó, que eram daqueles descendentes de alemães bem loiros e de sotaque carregado: “Alemão batata, come queijo com barata!”. Era uma das coisas que gritávamos para provocá-los. Se eles estavam mesmo torcendo pra Alemanha eu não faço ideia até hoje, mas é sabido que em Santa Cruz do Sul muitos descendentes de alemães torcem pela Alemanha como se fosse seu primeiro time. Naquela tarde, no entanto, a Bulgária é quem acabou levando a melhor.

Já no último jogo das quartas-de-final, entre Romênia e Suécia, seria conhecido o adversário do Brasil na semifinal. Nessa partida, acabei torcendo pela Suécia por um motivo muito imbecil: os suecos haviam empatado contra o Brasil na primeira fase, mas aquilo foi num jogo em que o Brasil tinha jogado de azul (uniforme reserva), já que os suecos jogaram de amarelo. O Brasil não estava acostumado a jogar de azul contra um time de amarelo e isso fez com que os jogadores brasileiros se atrapalhassem e confundissem os rivais suecos com seus colegas. Mas, ao longo da competição, o Brasil acostumou-se a jogar com o segundo uniforme, como no caso da partida contra a Holanda e, por esse motivo, re-enfrentar a Suécia (um adversário já conhecido) seria mais fácil do que na primeira vez. Sim, era um raciocínio idiota, mas foi esse o motivo pelo qual eu torci pela Suécia. É mais idiota ainda se lembrarmos que a própria Romênia também tinha uniforme amarelo.

A partida terminou empatada em 1 a 1 no tempo normal. Na prorrogação, os romenos passaram à frente, mas os suecos empataram o jogo e, após um empate em 2 a 2, a decisão acabou indo para as cobranças de pênaltis. Foi a primeira vez que eu acompanhei uma decisão de pênaltis. O goleiro sueco Ravelli conseguiu defender duas penalidades e, após 12 cobranças no total, a Suécia venceu por 6 a 5. Os suecos estavam na semifinal da Copa e voltariam a enfrentar o Brasil para um acerto de contas, após terem empatado na primeira fase. Clima de revanche à vista.

 

Itália na final

Completamente tomado e entusiasmado com o clima de Copa do Mundo àquela altura, eu já estava fazendo a minha projeção de como queria que fosse o desfecho do torneio: Bulgária eliminando a Itália; Brasil derrotando a Suécia; Suécia conquistando o terceiro lugar sobre os italianos e; claro, Brasil vencendo a Bulgária na Final. Mas as coisas não foram exatamente assim (apesar de quase).

No mesmo dia em que o Brasil enfrentaria a Suécia pela semifinal da Copa do Mundo, o outro finalista seria conhecido na partida anterior, entre Itália e Bulgária. O confronto ocorreu no Giants Stadium, em Nova York, no dia 13 de julho. Minha torcida era toda da Bulgária naquele jogo, afinal, os italianos já eram tricampeões mundiais, assim como o Brasil. A Itália não poderia, de jeito nenhum, ganhar o Tetra antes da gente. Além disso, o time italiano era muito melhor que a Bulgária e poderia tornar a final muito mais difícil.

Mas nesse jogo acabou brilhando a estrela de Roberto Baggio. O astro italiano marcou dois gols ainda no primeiro tempo e mostrou que seria o grande vilão da Copa para a torcida brasileira. Naquele jogo, Baggio chegou a cinco gols no mundial e despontou como um dos favoritos ao prêmio de melhor jogador do torneio.

A Bulgária ainda conseguiu descontar no primeiro tempo, com um gol de pênalti de Stoichkov. Mas o jogo acabou mesmo com uma vitória da Itália por 2 a 1.

Roberto Baggio foi substituído aos 26 minutos do 2º tempo, devido a uma contratura na coxa, e passou a ser dúvida para a final. Motivo de esperança para a torcida brasileira, que via no atacante italiano o grande vilão daquela Copa. No mesmo dia, à noite, o Brasil enfrentaria a Suécia pela outra semifinal.

 

Brasil X Suécia – A Revanche

O jogo entre Brasil e Suécia, válido desta vez pela semifinal da Copa, estava marcado para as 20h30, no horário de Brasília (16h30 no horário local, em Los Angeles). O clima de Copa do Mundo estava mais fervoroso do que nunca. Lembro-me que naquela tarde fui até a locadora que ficava no mesmo quarteirão da minha casa, para locar uma fita de vídeo. A atendente que estava no balcão chegou a se espantar: “Vai assistir filme em dia de jogo do Brasil na Copa?”, mas eu respondi: “O jogo é só de noite.”.

O jogo contra a Suécia tinha clima de revanche, afinal, aquele empate em 1 a 1 na primeira fase ainda não tinha sido digerido. Era a chance do Brasil mostrar que era melhor e garantir sua vaga na final. Ainda no 1º tempo, Zinho perdeu um gol inacreditável. Chegou-se a ouvir gritos de gol e até a TV se enganou ao colocar a vinheta no ar, mas quando vi a cara de Zinho lamentando percebi que a bola não havia balançado a rede pelo lado de dentro, e sim de fora. O jogo continuava em zero a zero.

Veio o segundo tempo e o gol não saia. Não foram poucas as chances que o Brasil criou pra abrir o placar e o time brasileiro estava realmente jogando melhor que a Suécia, mas o gol insistia em não sair. Assisti à partida na sala de casa junto com meus pais e o clima de ansiedade pelo gol crescia conforme o tempo passava. Minha mãe chegou a soltar mais um de suas pérolas futebolísticas: “Sai logo esse gol! Nem que seja do adversário!”. Felizmente, o gol acabou saindo mesmo e foi do Brasil: após um cruzamento de Jorginho para a grande área, o baixinho Romário surge em meios aos grandalhões Patrik Andersson e Nilsson, pulando mais alto que eles. O atacante brasileiro cabeceou a bola para o chão, fazendo-a quicar e ir em direção ao canto direito do gol, sem chances para o goleiro Ravelli. Era o gol da vitória brasileira.

Após o apertado triunfo de 1 a 0 sobre a Suécia, o Brasil estava numa final de Copa do Mundo depois de 24 anos. A cena de Romário comemorando a vitória enrolado sob uma bandeira do Brasil foi uma das cenas mais marcantes daquela comemoração.

Aos suecos restou comemorar o terceiro lugar três dias depois, após uma goleada de 4 a 0 sobre a Bulgária (quatro gols só no primeiro tempo).

 

A Final

Foto: Mike-Hewitt / Getty-Images

 

Dia 17 de julho de 1994: Brasil e Itália na final da Copa do Mundo da FIFA. Era a primeira vez que o Brasil chegava a uma decisão desde 1970 (curiosamente, contra a mesma Itália). Tive o privilégio de ver a Seleção decidir o título logo na primeira Copa que acompanhei pra valer. Foi um dia histórico na minha vida e, certamente, para milhões de brasileiros. Mais do que o tetracampeonato inédito, aquele jogo decidiria praticamente o “campeão do século”, já que os dois times eram tricampeões na ocasião. Além disso, estava em jogo o título de melhor jogador da Copa, já que o brasileiro Romário e o italiano Roberto Baggio chegaram à final como principais estrelas de seus times e favoritos ao prêmio Bola de Ouro da FIFA.

Na minha casa, o clima de expectativa era enorme: Quem vai ser tetracampeão? Qual vai ser o placar do jogo? Quem vai fazer o gol do título? Alguns arriscaram a dar seus palpites: meu pai apostou numa vitória de 3 a 2 do Brasil. Já minha dinda Solange apostou numa goleada de 4 a 1 (reprise de 1970?).

O jogo estava marcado para as 16h30 (horário de Brasília), no estádio Rose Bowl, em Los Angeles. O Brasil, treinado por Carlos Alberto Parreira, entrou em campo com Taffarel, Jorginho, Aldair, Márcio Santos, Branco, Mauro Silva, Dunga, Mazinho, Zinho, Bebeto e Romário. Já a Itália, do técnico Arrigo Sacchi, entrou em campo com Pagliuca, Mussi, Baresi, Maldini, Benarrivo, Albertini, Dino Baggio, Donadoni, Berti, Roberto Baggio e Massaro.

Logo aos 22 minutos do primeiro tempo, o Brasil teve uma baixa: o lateral Jorginho acabou se lesionando e teve de ser substituído por Cafu. A partida seguiu com poucas chances de gol para ambos os lados. Desse jeito, veio a inevitável prorrogação. A partida ganhou em emoção e as chances de gol aumentaram. Taffarel fez grande defesa em um chute de Baggio. Romário e Bebeto também perderam gols incríveis. Houve até um momento em que a Itália foi salva por uma bola na trave, o que fez com que o goleiro Pagliuca beijasse o poste em sinal de agradecimento.

Em meio à tensão da prorrogação, um detalhe curioso: eu saí de casa e dei um pulo no prédio vizinho. Como as ruas estavam vazias e praticamente todo mundo estava dentro de casa acompanhando o jogo, eu resolvi espiar as outras pessoas torcendo pelo Brasil. Em meio a escadaria do prédio que fica ao lado da minha casa, eu escuto vozes de um homem mais velho gritando “Lero lero lero!”, em tom de provocação. Achei aquilo muito estranho. Quem estaria gritando “Lero lero lero!”, como se estivesse zombando alguém, em meio a um dos jogos mais tensos da história do futebol brasileiro? Não consegui descobrir e acabei voltando pra casa pra acompanhar o resto da partida.

A prorrogação chegava ao final e a tensão só aumentou quando ouvi meu vô anunciando “Vai pros pênaltis!”. O nervosismo tomou conta do país inteiro. Minha dinda Solange resolveu desligar a TV e se trancar no quarto para não ter que passar por tamanho sofrimento. Eu também, com apenas 9 anos de idade, estava nervoso demais. Pela primeira vez na história, uma Copa do Mundo da FIFA seria decidida nos pênaltis.

 

Os pênaltis

Eu estava tão nervoso que não parava quieto. Assisti às cobranças de pênaltis em aparelhos de televisão diferentes, pois ficava andando de um lado pro outro. As primeiras cobranças eu assisti da janela da casa do meu vô: Baresi foi o primeiro a cobrar, pela Itália. O italiano tentou o ângulo direito e acabou chutando por cima do travesão. Começou bem!

Na sequência, porém, Márcio Santos perdeu a chance de colocar o Brasil em vantagem: cobrou no canto direito, para a defesa do goleiro Pagliuca. Nem nos pênaltis o gol saiu. Albertino cobrou o segundo pênalti pela Itália e acertou o canto direito, colocando a Itália na frente. Na sequência, o melhor jogador do Brasil, Romário, chutou no canto direito. A bola bateu na trave antes de entrar no gol. Em seguida, Evani cobrou forte no meio do gol e fez o 2º da Itália: 2 a 1.

Já na televisão de casa, eu vi Branco bater o terceiro pênalti para o Brasil. O lateral deu sua tradicional “bomba”, acertando o canto esquerdo do gol e empatando novamente as penalidades. O Brasil ainda viu brilhar a estrela do goleiro Taffarel, que defendeu o pênalti cobrado por Massaro no canto esquerdo. Era a chance de passar à frente dos italianos nas cobranças.

O capitão Dunga ficou encarregado de cobrar o quarto chute do Brasil. Chutando forte no canto esquerdo, conseguiu colocar o Brasil em vantagem: 3 a 2. Após um total de oito cobranças (quatro do Brasil e quatro da Itália), o Brasil estava na frente e, como o próximo pênalti a ser batido era da Itália, bastava os italianos errarem para o jogo acabar e o Brasil vencer. Quem estava encarregado de cobrar o quinto pênalti pela Itália era Roberto Baggio.

Meu pai anunciou de forma eufórica: “Se o Baggio errar, o Brasil é Tetra!”. Era tanta emoção na hora que eu nem tinha me dado conta do placar das penalidades e da importância daquele momento. Quando Baggio preparou-se para chutar, o Brasil inteiro estava atento e louco para dar o grito de campeão. Observado pelos olhos do mundo inteiro, Baggio chutou por cima do gol.

“Acabou! Acabou! Acabou! É Tetra! É Tetra! É Tetra! O Brasil é Tetracampeão mundial de futebol”. A memorável vibração do narrador Galvão Bueno representou o sentimento que tomou conta do Brasil naquele momento. Ao som da música tema do corredor de Fórmula 1 Ayrton Senna (o hino da vitória, usado nas transmissões da Rede Globo), o país vibrou com uma das conquistas mais emocionantes do nosso esporte. Foi uma alegria inesquecível e imensurável.

Saí correndo pela porta de casa e me atirei de rasteira no chão. Todo mundo comemorou loucamente. Era o quarto título do Brasil em Copas do Mundo, o primeiro depois de 24 anos e a hegemonia do futebol mundial. A cena de Baggio errando o pênalti, seguida pela comemoração brasileira, me emociona toda vez que a vejo e representa um dos momentos mais felizes que o futebol já me proporcionou.

 

O legado do Tetra

Foto: Mike-Hewitt / Getty-Images

 

Ver o Brasil ser tetracampeão mundial em 1994 foi, certamente, algo que marcou pra sempre a minha vida e me fez rever completamente os meus conceitos sobre futebol. Tive um enorme privilégio que foi assistir meu país ser campeão mundial justo na primeira Copa que acompanhei de verdade (em 1990 eu ainda tinha só cinco anos e me lembro de pouquíssima coisa). O esporte que antes parecia tão chato e irritante apresentou-me um evento com roteiro fascinante: momentos de muita emoção, drama, tensão, heróis, vilões, alegrias, vibração e o mais legal: um final feliz.

Apesar de ser muito criticada pelos especialistas do ramo esportivo por ter sido uma seleção extremamente burocrática e retranqueira, o time do Brasil conseguiu o mais importante de tudo: sair vitorioso. É muito melhor vencer jogando feio do que perder jogando bonito, como foi o que aconteceu com a seleção de 1982. E para um garoto como eu, que não entendia nada de técnica ou tática, foi muito marcante o fato do Brasil ter vencido aquela Copa de maneira tão emocionante, com direito a uma final decidida nos pênaltis. É como assistir a um filme emocionante, só que com uma história real e imprevisível.

Aprendi a gostar de futebol graças à Copa de 1994 e, principalmente, ao triunfo brasileiro. Personagens como Romário, Bebeto, Taffarel, Branco e Dunga passaram a ter a minha admiração. Além disso, comecei a discutir sobre futebol com outras pessoas e também resolvi acompanhar os amistosos da seleção. Ainda naquele ano de 1994, mais especificamente no dia 19 de outubro, a seleção olímpica (ou sub-23) do Brasil realizou um amistoso contra o Chile. O técnico, na ocasião, já era Zagallo, substituto imediato de Parreira. Com três gols de Sávio, um de Amoroso e outro de Marques, o Brasil venceu o Chile por 5 a 0 em Concepción, casa dos chilenos. Eu lembro que acompanhei esse jogo ao vivo na TV, fazendo uma resenha em tempo real numa máquina de escrever (!). Sávio despontava, naquele dia, como um dos meus ídolos no futebol.

Já o primeiro jogo realizado pelo time principal do Brasil após a conquista do Tetra foi um amistoso contra a Iugoslávia (hoje Sérvia), no dia 23 de dezembro de 1994. A partida foi realizada no estádio Olímpico, em Porto Alegre.

A vinda da Seleção Brasileira para a capital gaúcha foi a oportunidade de ver pessoalmente os craques do Tetra. Meu dindo Ricardo, que morava em Porto Alegre, chegou a me convidar para ir com ele no estádio Olímpico para assistirmos a partida, mas a ideia infelizmente não se concretizou e acabei vendo o jogo na TV mesmo. O Brasil venceu aquele amistoso por 2 a 0 (gols de Viola e Branco). Naquele dia, percebi que um amistoso não tinha a mesma importância que um jogo de Copa do Mundo. Os gols não eram comemorados com o mesmo entusiasmo e a vitória não representou lá grande coisa. Mas era uma forma de continuar acompanhando a Seleção após a vitoriosa campanha no mundial dos Estados Unidos. O fato de Zagallo não ter colocado em campo o promissor Sávio, autor de 3 gols naquele amistoso contra o Chile, me deixou um pouco frustrado. Cheguei até a ligar pro Hotel Plaza São Rafael, onde a seleção estava hospedada, pra falar com o técnico da seleção e lhe passar alguns conselhos, mas a recepção do hotel não autorizou (sim, eu fiz isso mesmo).

 

 

Aula de futebol

O que mais contribuiu para que eu continuasse acompanhando futebol e me interessasse cada vez mais por este esporte foi o fato de ter um professor especialista no assunto dentro de casa: meu vô Bruno Seidel. Era pra ele que eu costumava fazer perguntas como: “Quem foi o melhor jogador de futebol de todos os tempos?”; “Quais times já foram campeões mundiais?”; “O que acontece se um jogo eliminatório termina empatado?”; “Como acontecem os sorteios dos grupos da Copa?”; “Como funcionam as regras?”; “Quem são os favoritos pra próxima Copa?”; “Quem vai ser o melhor jogador do mundo?”; “Quem deve ser convocado pra Seleção?”; “Onde vão ser as próximas Copas?”…

O mais incrível é que, para todas essas perguntas, meu vô tinha uma resposta. Ele tinha muita paciência pra responder tudo o que seu neto chato e curioso perguntava. Era uma verdadeira aula de futebol dentro de casa (éramos vizinhos e eu passava boa parte do dia com ele).

Passei a acompanhar diariamente os jornais para ler notícias referentes ao mundo esportivo. Meu vô chegou a me presentear com um livro chamado “Placar Máximo”, escrito pelos autores Paulo Brito e André Luis Nery. O livro tinha resultados de todas as Copas do Mundo anteriores à de 1994, além de diversas outras competições e modalidades esportivas. Numa época em que não havia acesso à internet, aquele livro representava um excelente acervo de informações (era a minha “Wikipedia particular”). Foi lendo-o que eu passei de mero fã a estudioso do assunto, chegando até mesmo a decorar alguns placares importantes e os campeões de Copas anteriores.

Aquilo basicamente moldou o meu estilo de acompanhar futebol, que é bem diferente do estilo que eu percebo na maioria dos torcedores. Talvez o melhor termo para me definir seja o de “torcedor nerd”. Eu não gosto de analisar esquema tático ou a parte técnica, nem de me colocar no papel do treinador. Sequer chego a “torcer” pra valer por algum “clube do coração”. Jogar bola, então, está fora de cogitação!

Por ser um nerd de essência, eu acompanho futebol com o mesmo entusiasmo que tenho ao ver uma série de ação, afinal, no futebol também temos heróis, vilões (que, no caso, são sempre os jogadores adversários), um enredo em construção (você sabe como uma competição começa, mas dificilmente pode prever como ela vai terminar), grandes acontecimentos (zebras, disputas de pênaltis, goleadas, viradas…). Para ver sentido nisso, basta comparar um eletrizante dérbi com Jaspion e Macgaren se enfrentando no penúltimo episódio da série. Ou um capitão levantando a taça com um herói fazendo pose de vitória enquanto o monstro explode. Ou a ansiedade pelo próximo jogo, que se compara à ansiedade pelo próximo episódio. Só quem é nerd e acompanha futebol pode entender essas comparações.

É bem possível que, se não fossem as produções de cultura pop japonesa, que foram minha principal paixão na infância e na adolescência, a minha grande preferência seria o futebol. Eu tinha tudo para me tornar um grande “teórico da bola”, principalmente no que diz respeito a Copa do Mundo: decorava os placares, acompanhava os torneios, me informava diariamente, criava “torneios imaginários”, tinha um mentor à disposição… Mas aí vieram os super-heróis nipônicos e “roubaram a bola” dos boleiros.

Ainda assim, o interesse pelo universo futebolístico veio pra ficar com a conquista do Tetra. O constante acompanhamento da mídia, as frequentes conversas de corredor, as Copas do Mundo ocorrendo a cada quatro anos e a sua tremenda influência na cultura popular fizeram deste um dos meus assuntos preferidos. Um assunto que eu confesso dominar amplamente. Até hoje, me considero um cara que “sabe” muito sobre futebol (que é diferente de “entender”). Também né: com o vô que eu tive, não tinha como ser diferente.