Opinião: clubes, jogadores e torcidas perdem com o formato da Copa do Brasil

A Copa do Brasil chega à fase semi-final com dois jogos fortes – de um lado Flamengo contra Corinthians e no outro, Palmeiras e Cruzeiro medem forças. Juntos, os 4 possuem 14 conquistas da Copa. Precisaram de 4 jogos para atingir tal condição, enquanto dos 80 que começaram lá em janeiro ou fevereiro, sequer às quartas chegaram. E nessa situação que se discute se o torneio é democrático, com chances iguais para todos que lá disputam ou a Copa do Brasil apenas salva ano ruim de time grande?

Luiz Gustavo Freire
Colaborador do Torcedores

Crédito: Créditos: Lucas Figueiredo/CBF

Para isso, voltemos ao ano de 1987. Naquele ano, os 12 grandes clubes do Brasil mais o Bahia se uniram para formar o já extinto Clube dos 13. Essa entidade ficou encarregada de organizar um Campeonato Brasileiro mais enxuto e também mais rentável aos clubes, que pouco recebiam das TVs para a transmissão de seus jogos. A Copa União, como ficou conhecido aquele campeonato, ficou dividida em 3 divisões (similar ao que acontecia até 2008), desrespeitando alguns critérios técnicos do campeonato de 1986.

Com essa remodelagem, times como o Botafogo da Paraíba, o Nacional de Manaus, o Operário de Campo Grande, dentre outros, não teriam a chance de enfrentar um dos 12 grandes do futebol brasileiro, pois estavam em outras divisões e, para enfrentá-los novamente, teriam de aguardar, além de trabalhar duro nas divisões inferiores visando o acesso à elite.

Para conter essa insatisfação, a CBF criou no ano de 1989 a Copa do Brasil. Inspirada em torneios europeus, como a Copa do Rei, Coppa Italia e FA Cup, ela dava a campeões estaduais e alguns vices a chance de buscar uma vaga na Copa Libertadores de 1990. Os times distantes dos grandes centros teriam novamente a chance de enfrentar os grandes, gerando uma receita interessante – em alguns casos responsável pelo orçamento de um ano inteiro, audiência televisiva e uma grande vitrine a atletas de clubes fora da elite do futebol brasileiro.

Até 2012, salvo em alguns poucos anos como 2000, todos os participantes começavam a participação do início, independente se participavam da Copa Libertadores – nos anos 2000, eles deixaram de disputar a competição pela coincidência de calendário. Isso abriu caminho para grandes zebras como Criciúma em 1991, Juventude em 1999, Santo André em 2004 e Paulista em 2005. Essas zebras marcaram para sempre o torneio.

A partir de 2013, houve uma grande mudança no torneio. Para começar, o número de participantes passou de 64 para 87. Mais vagas para os campeonatos estaduais e os times que disputavam a Copa Libertadores entravam direto nas oitavas de final. Essa mudança foi muito comemorada pelos clubes grandes, afinal, em caso de fracasso no torneio internacional, uma nova chance de disputar estava a 8 jogos de distância. Entretanto, de lá para cá, as zebras foram cada vez mais raras e inclusive, motivadas para que clubes disputassem a Copa Sul-Americana – os melhores classificados no Brasileiro do ano anterior e eliminados antes das oitavas tinham vaga assegurada.

No ano de 2016, a Confederação Sul-Americana anunciou que o Brasil teria direito a 7 vagas na Libertadores da América. Isso aumentou a Copa do Brasil de 2017 para 91 times disputantes. E agora, 11 clubes teriam direito a vaga direta nas oitavas de final: os 7 classificados no ano anterior pelo Brasileirão e Copa do Brasil (no caso do campeão desta), campeões das Copas do Nordeste e Verde e para o campeão da Copa Sul-Americana e da Libertadores se brasileiros, caso não, o campeão da Série B e o melhor classificado do Brasileiro que não foi à Libertadores entrariam direto nas oitavas de final.

Com isso, as chances de novas zebras e os times que não disputam divisões superiores têm tido cada vez menos chances de receber os grandes, afinal, muitas vezes a grande maioria entrava já nas oitavas de final e precisaria, portanto, ser um dos 5 dentre 80 clubes a chegar nesta fase. Apesar da premiação que pode chegar a R$64 milhões, parece que o charme e a graça da Copa do Brasil ficaram em segundo plano e ela virou uma espécie de Brasileirão mata-mata.

É realmente interessante fazer da Copa do Brasil um mini Campeonato Brasileiro em detrimento da sua essência? Até que ponto salvar um ano ruim de time grande é importante? Perguntas que estão, infelizmente, sem resposta e quem perde são as torcidas apaixonadas de clubes que não figuram na Série A há um bom tempo e dificilmente terão condições de chegar lá, com as dificuldades financeiras e técnicas das divisões de acesso do Brasileiro. Os clubes e jogadores também saem perdendo, pois terão menos vitrine na televisão, menos chance de aparecerem para o país e atletas, que muitas vezes poderiam jogar uma Série B ou até a A, deixam de surgir.

A ideia que poderia ser feita, é viável e atenderia a todos da melhor maneira é a seguinte: todos os clubes das 4 divisões têm vaga assegurada no torneio, com os estaduais indicando mais 40 participantes, com todos os estados com uma vaga assegurada, mais 13 vagas extras limitadas a uma por estado. Esses times buscam 20 lugares para ser um dos 10 a enfrentar 34 da Série D (metade dos participantes e times definidos por sorteio).

Nesta fase, os 44 clubes buscarão lugares para enfrentar os demais 34 da Série D, onde estes buscarão enfrentar os da Série C e depois os 40 das Séries A e B. Com isso, os estaduais seriam mais valorizados e também todas as divisões do futebol brasileiro, pois quanto mais alta a divisão, ele terá uma vantagem em entrar depois na Copa do Brasil. Porém, diferente dos 5, o número que enfrentará os 40 da Séries A e B passa a ser de 24 times.

Além disso, jogos aos finais de semana – com rodadas dos estaduais e Brasileiro transferidas ao meio de semana e confrontos únicos e sem vantagem de empate. Com isso, teremos jogos mais emocionantes e com o maior equilíbrio (em teoria) para todos os participantes. Claro que outras ideias podem surgir, mas ela faz da Copa do Brasil novamente um torneio democrático, em que sua essência seja realmente mais valorizada.

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