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ESPECIAL: Os 60 anos da Copa do Mundo de 1958 (Parte VIII – A taça finalmente é nossa)

Já ouvi de muitos torcedores mais antigos que os grandes craques do passado seriam ainda mais festejados e exaltados se as redes sociais e a internet já existissem há 50 ou 60 anos. A reportagem que encerra a nossa série especial sobre a conquista da Copa do Mundo de 1958 traz bastante desse sentimento. O jogo que deu o primeiro título mundial à Seleção Brasileira foi o ponto mais alto de um time que jogava como que por música. Zito, Djalma Santos, Zagallo, Vavá, Nilton Santos, Bellini, Garrincha, Pelé e todos aqueles que participaram do Mundial da Suécia escreveram seu nome na história do futebol com uma goleada sobre os anfitriões e uma atuação coletiva de fazer inveja a muito time badalado dos nossos dias. Para muitos, a equipe comandada por Vicente Feola é superior até do que o lendário esquadrão comandado por Zagallo, que conquistaria a terceira Copa do Mundo para o Brasil doze anos mais tarde. Discussões à parte, é sempre muito bom relembrar esses grandes times. Bom, vamos nessa?

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Reprodução / Site oficial da CBF

Antes de mais nada, é preciso lembrar que o adversário da Seleção Brasileira na final da Copa do Mundo de 1958 não era qualquer equipe. Mesmo jogando com o apoio da sua torcida, a Suécia já havia mostrado seu valor superando adversários poderosos. Na primeira fase, os comandados de George Raynor (treinador inglês com passagens por Juventus, Lazio, AIK e medalha de ouro com os suecos nos Jogos Olímpicos de 1948) passaram por México e Hungria e empataram com País de Gales, se classificando na primeira posição do Grupo 3 do Mundial. Depois disso, venceram a União Soviética por dois a zero nas quartas de final e passaram pela Alemanha Ocidental (atual campeã da Copa do Mundo) com uma bela vitória por três a um em Gotemburgo. Era uma equipe que impunha muito respeito, marcava forte e que contava com jogadores de extrema habilidade, como o meio-campo Nils Liedholm, o atacante Gunnar Gren e o rápido ponta-esquerda Lennart “Nacka” Skoglund.

A lendária camisa azul da final da Copa do Mundo de 1958. Foto: Lucas Figueiredo / CBF

Do lado brasileiro, o técnico Vicente Feola ganharia um problema de última hora. O lateral-direito De Sordi, titular durante toda a Copa do Mundo sentiu uma lesão e não poderia entrar em campo na decisão do título. Tal fato, no entanto, marcaria o camisa 14 da Seleção Brasileira por toda a sua carreira por conta de uma alegação de “amarelada” por parte do atleta. Ao mesmo tempo, ainda havia o desconhecimento do adversário. Não tínhamos redes sociais, internet e outras facilidades tecnológicas há sessenta anos atrás. O jeito era usar os “espiões”. E no caso do Brasil, esse homem era Ernesto Santos, que atestou a qualidade do escrete sueco. Os anfitriões, inclusive, ganhariam ainda o direito de usar o seu uniforme amarelo na decisão. Depois de se cogitar um uniforme branco (por conta do trauma de 1950), o azul acabou sendo o escolhido. E de acordo com Paulo Machado de Carvalho (chefe da delegação), a vestimenta traria sorte por se tratar da mesma cor do manto de Nossa Senhora.

As duas melhores seleções da Copa do Mundo adentraram o gramado do Estádio Rasunda naquele dia 29 de junho de 1958 dispostas a levantar a taça. Só que quem começou melhor foram os suecos. Com o ótimo Gunnar Gren circulando por todo o campo e organizando as jogadas, os donos da casa abriram o placar em bela jogada de Liedholm, que passou por Orlando Peçanha e Bellini antes de chutar rasteiro no canto direito de Gilmar, logo aos quatro minutos de partida. A cena de Didi pegando a bola e conversando com os demais companheiros de equipe seria o início da reação brasileira. E é nesse ponto que entra a importância de Garrincha. O camisa 11 da Seleção Brasileira levava o lateral Axbom e o volante Parling à loucura com suas arrancadas e seus dribles. E a jogada deu certo aos nove minutos quando Mané escapou pela direita e cruzou rasteiro para dentro da área. A bola passou por Pelé, mas não passou por Vavá. Era o gol de empate brasileiro no momento certo do jogo.

A Seleção Brasileira teve trabalho com a movimentação de Gren e Liedholm no meio-campo, mas logo equilibrou as ações com grandes atuações de Didi e Zagallo, dribles de Garrincha e o oportunismo de Vavá. Börjesson atuava tão recuado que mais lembrava um quarto zagueiro no time sueco.

A disputa seguiu equilibrada no meio-campo com a Seleção Brasileira levando certa vantagem. Didi era o maestro do time e Zito era a garantia de solidez defensiva. Cabe aqui citar duas curiosidades táticas. A primeira diz respeito à Suécia. O Brasil já era conhecido por atuar no seu já tradicional 4-2-4. E para travar o ataque tupiniquim, o técnico George Raynor trouxe o médio Börjesson para atuar quase como um quarto zagueiro. A outra diz respeito à transição ofensiva dos comandados de Feola. Se Didi comandava as ações no meio-campo, o desafogo da equipe tinha nome e sobrenome: Mário Jorge Lobo Zagallo. Jogava por ele e por quem mais quisesse, voltando à intermediária defensiva para dar opção de passe. Com toda essa organização, o Brasil virou o jogo aos trinta e dois minutos da primeira etapa numa jogada bem semelhante ao primeiro gol. Garrincha escapou pela direita, se livrou dos zagueiros e cruzou para Vavá empurrar a bola para as redes.

O segundo tempo nos reservaria um recital de um certo jovem de 17 anos. Com Vavá saindo mais da área e desfazendo a linha de quatro zagueiros montada por George Raynor, Pelé se transformaria em centroavante ao aproveitar o espaço no setor. Seu primeiro gol é aclamado como um dos mais belos da história das Copas do Mundo. Nilton Santos cruzou da intermediária, o camisa dez matou a bola (já se livrando do primeiro marcador), deu um chapéu em outro defensor sueco e chutou sem chances de defesa para o goleiro Svensson. Isso aos dez minutos de jogo na segunda etapa. Mas ainda haveria tempo para mais. Zagallo faria o quarto da Seleção Brasileira depois de aproveitar rebote da zaga sueca após cobrança de escanteio aos vinte e três minutos. Era o prêmio pela sua atuação segura no lado esquerdo, seja voltando para ajudar na marcação ou se lançando como uma flecha ao ataque. O camisa 7, aliás, já iniciara o movimento que transformaria o 4-2-4 num 4-3-3 quatro anos mais tarde.

O segundo tempo foi de amplo domínio da Seleção Brasileira. Zagallo ia e voltava pela esquerda, Vavá recuava para a intermediária (quase junto a Didi) e liberava Pelé para jogar quase como um centroavante. O camisa dez ainda marcaria um dos mais belos gols da história das Copas do Mundo.

Mas a Suécia ainda não estava morta. E provou isso aos trinta e cinco minutos, num dos raros momentos de cochilo da defesa brasileira na partida (e em toda a Copa do Mundo de 1958). Liedholm (o melhor jogador do escrete escandinavo junto com o já veterano Gunnar Gren) partiu com liberdade pelo meio e viu Simonsson se deslocando às costas de Orlando Peçanha e deu-lhe a bola. O camisa nove tocou na saída de Gilmar e anotou o segundo gol da sua equipe. Mas aquele 29 de junho de 1958 era azul. E brasileiro. O time retomou a concentração e seguiu levando perigo ao gol de Svensson. No último minuto viria a pá de cal: Orlando mandou a bola no peito de Pelé, passou a redondinha para Zagallo na ponta esquerda e se mandou para a área (Vavá mais uma vez recua e abre espaço). O camisa 7 levanta a cabeça, vê o garoto de dezessete anos se enfiando entre os zagueiros adversários e faz o cruzamento preciso. Pelé só tem o trabalho de cabecear no contrapé de Svensson.

Assim que o árbitro francês Maurice Guigue apitou o final do jogo, brasileiros e suecos se cumprimentaram (num momento de fair-play que deveria ser copiado por muitos times nos dias de hoje) e os quase cinquenta mil espectadores que acompanhavam a partida no lendário Estádio Rassunda irromperam em aplausos acalorados para a Seleção Brasileira. O gesto de Bellini levantando a Jules Rimet acima da cabeça para que todos pudessem ver acabaria sendo copiada por todos os capitães de seleções na festa do título. Pelé, então um menino de 17 anos, mas com futebol de Rei era confortado e festejado pelos demais companheiros (todos igualmente emocionados). E como não pode faltar vídeo nessa série de reportagens sobre a Copa do Mundo de 1958, trago um presente mais do que especial. Que tal conferir o jogo completo? Sim, é isso mesmo. É só dar play no vídeo abaixo (retirado do canal Alex De Melo do Youtube). Uma oportunidade única de ver como o futebol era (bem) jogado há 60 anos.

https://www.youtube.com/watch?v=xjGCB5VSkog

A conquista da Copa do Mundo de 1958 seria o inicio da era mais vitoriosa da Seleção Brasileira. Não por acaso, depois de Djalma Santos (eleito o melhor lateral-direito do torneio apenas pela grande atuação na final contra a Suécia), Nilton Santos, Garrincha, Zito, Didi (eleito o melhor jogador do Mundial), Vavá, Zagallo, Pelé (eleito o melhor jogador jovem) e outros tão importantes quanto estes, o futebol brasileiro se transformaria em sinônimo de “futebol-arte”, alcunha que perduraria por muitos e muitos anos. Tanto que o time de 1958 seria aclamado por muitos e reconhecido como um dos melhores de todos os tempos. Não apenas pela reunião de onze feras dentro de campo, mas pelas inovações táticas trazidas e difundidas por Vicente Feola no seu belo trabalho à frente da Seleção Brasileira. Caso você queria relembrar as outras sete matérias especiais dessa série sobre a Copa do Mundo da Suécia, seguem os links com cada uma delas abaixo. E aproveite para deixar seus comentários, sugestões e críticas pra gente. Esperamos sinceramente que você tenha gostado. Um grande abraço e até a próxima!

ESPECIAL: Os 60 anos da Copa do Mundo de 1958 (Parte I – As feridas abertas da Seleção Brasileira)

ESPECIAL: Os 60 anos da Copa do Mundo de 1958 (Parte II – A escolha de Vicente Feola)

ESPECIAL: Os 60 anos da Copa do Mundo de 1958 (Parte III – A estreia no Mundial da Suécia)

ESPECIAL: Os 60 anos da Copa do Mundo de 1958 (Parte IV – O jogo duro dos ingleses)

ESPECIAL: Os 60 anos da Copa do Mundo de 1958 (Parte V – Os três minutos mais incríveis da história do futebol mundial)

ESPECIAL: Os 60 anos da Copa do Mundo de 1958 (Parte VI – O primeiro gol de Pelé em Mundiais)

ESPECIAL: Os 60 anos da Copa do Mundo de 1958 (Parte VII – O melhor ataque contra a melhor defesa)

FONTES DE PESQUISA:

=> Invertendo a Pirâmide, de Jonathan Wilson

=> As melhores Seleções Brasileiras de todos os tempos, de Milton Leite

=> Escola Brasileira de Futebol, de Paulo Vinícius Coelho

=> Site oficial da FIFA

=> Site oficial da CBF

=> RSSSF Brasil