Do exílio ao topo do mundo: Conheça a história de Modric, o homem que desbancou Messi e CR7

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Andrey Oliveira
Colaborador do Torcedores

Crédito: Créditos: FIFA/Divulgação

O ano era 1991. O governo da Croácia decide anunciar independência da Iugoslávia. A ousadia do então presidente Franjo Tudman irritou a Sérvia, aumentou ainda mais a hostilidade já existente na região e uma longa e sangrenta guerra teve início em território croata (a guerra da Croácia acabou em novembro de 1995, deixando aproximadamente 23 mil mortos). Entre bombas e tiroteios, uma criança se destacava jogando futebol nas ruas destroçadas do país que lutava para ser livre: o menino Luka, hoje conhecido por Modric, com 6 anos no início dos conflitos, driblava os adversários e os bombardeios em busca de um sonho, na época, impossível: se tornar um jogador de futebol.

O menino desfilava seu futebol pelas ruas do pequeno vilarejo de Modric, cerca de 40 quilômetros distante de algumas das principais cidades da costa da Croácia – um importante ponto turístico do país. O vilarejo, inclusive, deu o sobrenome do pequeno talento. Ainda em 1991, uma ofensiva do exército sérvio no vilarejo causou o assassinato de dezenas de pessoas – entre eles o avô de Luka, na frente de casa. Tal fato forçou a família a deixar o pequeno aglomerado de casas que viveram por décadas. O destino foi a cidade de Zadar e, entre campos de refugiados e residências provisórias, a história do pequeno Luka começaria a mudar.

A chegada na nova cidade aconteceu depois de uma grande peregrinação: a família de Luka percorreu, a pé, montanhas e florestas por mais de dois dias. Após algumas moradias improvisadas, a família foi acomodada em um hotel, que foi transformado pelo governo em um abrigo para refugiados de guerra. As dificuldades, porém, não tiraram a paixão do pequeno Luka pelo futebol: o menino passava os dias batendo bola com outras crianças no estacionamento do hotel, fato que chamou a atenção de todos, mas de uma pessoa em especial: Josip Bajlo, diretor de futebol do NK Zadar, time de futebol profissional da nova cidade. Começava, ali, a carreira do agora Luka Modric.

Josip foi avisado do talento de Modric pelo diretor do hotel, que percebeu a enorme diferença entre Luka e as demais crianças. O diretor do NK Zadar então acompanhou alguns desses jogos no estacionamento do hotel, e não demorou muito para que o primeiro contato com a família fosse feito. Poucos dias depois, Modric já era levado para treinar no clube.

O estádio ficava a cerca de 3 quilômetros do hotel, e Josip teve que ensinar diversas vezes o caminho para o, agora, atleta das categorias de base do NK Zadar: “eu mostrava com a minha mão por onde o Luka tinha que andar para não se perder na volta ao hotel”, declarou o diretor, em entrevista para o SporTV. No percurso, contudo, Modric levou alguns sustos: os bombardeios do exército sérvio e confrontos armados pelas ruas da cidade não cessavam, e por vezes o garoto precisou se esconder para se proteger.

 

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Nove anos se passaram. Com a guerra encerrada e a Croácia oficialmente independente, Modric estava com 15 anos e atuava no time juvenil do NK Zadar. A família então decidiu se mudar para um hotel próximo ao estádio. Ainda no ano de 1999, o Dínamo Zagreb, maior time do país, encheu os olhos com o talento do garoto e o levou para as categorias de base. Foi no Dínamo que Modric se tornou profissional, na temporada de 2002/2003. As atuações do meio-campista encantavam os espectadores, e rapidamente se tornou ídolo do maior clube do país – Modric conquistou três títulos nacionais até se transferir, em 2008, para a Inglaterra, onde defendeu o Tottenham, em uma polêmica transferência que até hoje é alvo de investigações.

Na terra da rainha, Modric também fez sucesso e se tornou um dos destaques do time que voltou a ser forte no cenário nacional e internacional – a equipe voltou a disputar uma edição da Liga dos Campeões depois de quase 50 anos. Em 2012, Modric daria o principal passo da carreira até o momento: o croata aceitou proposta milionária e se transferiu para o Real Madrid para ser companheiro de Cristiano Ronaldo.

A conquista da Europa

No clube espanhol, Modric logo se tornou peça fundamental de um esquema de jogo que se tornou quase imbatível – principalmente em confrontos de mata-mata. A qualidade técnica aliada a uma inteligência técnica impressionante, fizeram de Modric um meio-campista completo. Não demorou muito para que o jogador se tornasse um dos melhores do planeta, e fosse considerado pela mídia especializada como o melhor jogador de meio campo do mundo. Os gols decisivos e a irreverência de CR7, no entanto, ofuscavam a eficiência do croata.

No Madrid, Modric empilhou taças: foram quatro conquistas da Liga dos Campeões (sempre sendo um dos protagonistas), um campeonato espanhol e uma Copa do Rei. Modric forma, juntamente do brasileiro Casemiro e do alemão Kroos, um meio de campo perfeito, e era, até o fim a temporada europeia, o principal “garçom” de Crisitano Ronaldo – o português se transferiu para a Juventus.

Créditos: Real Madrid/Divulgação

 

Modric: o cara da Copa do Mundo de 2018

Mas a história reservava ainda mais para Modric. Capitão da boa seleção de seu país, Luka chegou à Rússia para a disputa da Copa do Mundo. Longe dos holofotes dos favoritos, a Croácia surpreendeu. A seleção mostrou que não foi a passeio para o torneio quando bailou sobre a Argentina de Lionel Messi, vencendo com facilidade por 3 x 0 – e com Modric marcando um golaço. A Croácia se classificou em primeiro do grupo, e enfrentaria a Dinamarca nas oitavas de final.

Modric viu, então, um filme de terror passar pela mente. Já nos acréscimos do segundo tempo, com o jogo empatado, a Croácia teve um pênalti marcado. Luka foi pra cobrança e viu o bom goleiro Schmeichel defender. O status do craque passaria de herói para vilão em apenas um lance em caso de eliminação. Na prorrogação, porém, o empate permaneceu e a decisão foi para as penalidades. Desta vez, Modric acertou a cobrança e viu sua seleção superar a Dinamarca e avançar para as quarta de final, onde enfrentariam a Rússia, donas da casa.

Novo empate e nova decisão nos pênaltis, e mais uma vez Modric acertou e a Croácia avançou de fase. A equipe já igualava a melhor campanha da história do país em mundiais, mas queria mais – o sonho de chegar a decisão era real. O adversário seria a Inglaterra, do artilheiro Harry Kane. Após mais um empate no tempo normal e igualdade mantida na prorrogação, a Croácia de novo superou o adversário nos pênaltis – com grande atuação de Modric – e fazia história: chegava, pela primeira vez, à uma final de Copa do Mundo. O adversário era a badalada seleção francesa, de Griezmann e Mbappé.

Na decisão, apesar de uma grande atuação de Modric e companhia, a vitória foi francesa. Mas nem de longe a Croácia se sentiu decepcionada. A melhor campanha da história do país em Copas do Mundo tinha a assinatura de um craque: Luka Modric, camisa 10 e capitão – e, agora, o maior jogador que o país já viu.

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Após ser o principal jogador do Real Madrid na conquista da Liga dos Campeões e liderar a Croácia na histórica campanha na Copa do Mundo, Luka Modric confirmou as expectativas e foi anunciado, pela FIFA, com um dos três finalistas ao prêmio de melhor jogador do mundo – o croata enfrentaria o egípcio Salah e o ex-companheiro de Real Madrid Cristiano Ronaldo.

E, em cerimônia realizada hoje, em Londres, Modric escreveu de vez seu na história do futebol: foi coroado pela entidade máxima de futebol como o melhor jogador do mundo, superando CR7 e Salah e derrubando uma hegemonia de 10 anos do português e do argentino Lionel Messi.

E assim, o menino que fugia das bombas, que percorreu montanhas para sobreviver, que teve uma infância difícil marcada pela guerra, venceu. Hoje, com 33 anos, Modric não escondeu a emoção e, tímido, ao lado da mulher e dos filhos, manteve a personalidade calma e discreta – frieza que o fizeram ser o melhor jogador de futebol do mundo.