OPINIÃO: Sobre museus, arenas, cinzas e a nossa inércia diante das tragédias diárias

Já ouvi de alguns amigos e familiares estrangeiros que o brasileiro é um povo muito estranho. Brigamos por coisas sem importância e ficamos calados diante de fatos absurdos. Como se nada estivesse acontecendo. Como se tudo seguisse dentro da mais absoluta normalidade. Perdemos museus, parques, locais que serviriam para educação, lazer e exercício da nossa cidadania. Espaços importantíssimos para mim e para você. O que aconteceu com o Museu Nacional neste domingo (2) é um processo que já se arrasta há bastante tempo. E eu não falo apenas de museus e bibliotecas. Mas de lugares que ajudam a contar um pouco da nossa história como brasileiros que somos. Povo caloroso. Mas ainda um povo estranho. Um povo que segue inerte diante de tanta coisa errada que acontece com a nossa própria história. Difícil explicar para quem nos vê lá de fora.

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Tania Rego / Agência Brasil

Quem nasceu no Rio de Janeiro há pelo menos três décadas se acostumou a ver o Maracanã pulsando com as torcidas de Flamengo, Fluminense, Botafogo e Vasco fazendo a festa com alguns dos nossos grandes craques desfilando pelo gramado daquele que já foi chamado de “maior do mundo”. Quem visitava o estádio pela primeira vez dizia que ele parecia ter vida, parecia respirar e ter até batimentos cardíacos de tanta história que já passou por ele. E não somente os quatro grandes do Rio passaram pelo Maraca. Pelé marcou seu milésimo gol nele. Garrincha driblou incontáveis zagueiros. Maradona, Beckenbauer e outras lendas já tiveram o privilégio de pisar no seu gramado.

Só que essa história vai muito além do futebol. Quem tem seus trinta e poucos já deve ter ido assistir ao Grande Prêmio Brasil de Atletismo no Estádio Célio de Barros num domingo de manhã. Ou ver alguns dos grandes nomes da nossa natação caindo nas piscinas do Parque Aquático Júlio Delamare. E ainda tem o Maracanãzinho, palco de finais olímpicas e pan-americanas e de grandes momentos do nosso vôlei e do nosso basquete. Quanta história esses lugares não devem ter? Quantos atletas não foram revelados ali naquele complexo esportivo cravado na zona norte da cidade do Rio de Janeiro?

O que esses lugares fizeram pelo esporte brasileiro e mundial é imensurável. Só que eles estão virando cinza. Foram completamente desfigurados para atender os interesses deste ou daquele grupo. Do mesmo jeito que o Museu Nacional virou. E ninguém está falando absolutamente nada sobre esse processo que já dura pelo menos uns dez anos.

Esses mesmos amigos estrangeiros que me falaram estranhar o povo brasileiro também dizem não entendem nossa postura diante das coisas. Temos a mania de “jogar a cinza pra debaixo do tapete” e também de “consertar a porta só depois que ela é arrombada”, segundo eles. E não há como negar. Assistimos nossos museus serem destruídos não pela fúria de uma multidão insatisfeita com qualquer coisa, mas pela nossa inércia abobalhada e omissa diante de tanto descaso. Museu? Pra quê se temos a internet? Maracanã? Pra quê futebol? Só serve para alienar o povo. Atletismo, natação, vôlei, basquete? Só serve pra atleta arrancar dinheiro do governo. Essa é a nossa postura. Estamos mais preocupados em colocar a cerveja dentro do carrinho de compras do que em batalhar para que a nossa história seja respeitada. E um povo sem história é um povo sem alma. Memória pra quê se meu time joga amanhã e eu ainda não escalei meu Cartola FC?

O Maracanã foi desfigurado e seu complexo esportivo quase veio abaixo. Tudo em nome do mesmo processo que reduziu o Museu Nacional a cinzas. Foto: Tomaz Silva / Agência Brasil.

Palavras como cidadania (que está diretamente ligada à prática desportiva) e direitos humanos (que também incluem o direito à cultura, educação e ao esporte) são incendiadas todos os dias pelos mesmos grupos que permitiram que o Museu Nacional fosse reduzido a cinzas. Nós? Nós seguimos inertes, impassivos e abobalhados esperando a próxima rodada do Brasileirão. Ou o próximo incêndio.

Consciência pesada, meu amigo? Não se preocupe. Afinal, temos agora um estádio (me perdoem, uma “arena”) com menos da metade da capacidade original completamente desfigurada, totalmente superfaturada e que não passa de um arremedo do que o Maracanã já foi. Todo o complexo esportivo que existia quase se transformou num ESTACIONAMENTO. Os poucos valentes que se levantaram contra isso foram logo chamados de arruaceiros e “inimigos do progresso”. Estes se assemelham a outros tão ou mais valentes que chamavam a atenção para os problemas que o Museu Nacional e de outras instituições esportivas ou não passavam.

Somos um povo estranho de acordo com meus amigos estrangeiros. Deveríamos estar revoltados, deveríamos cobrar providências dos nossos governantes e exigir que nossa memória seja respeitada e que os culpados pela tragédia sejam responsabilizados. Mas seguimos presos à nossa inércia diante das tragédias diárias. Seguimos presos a uma rotina doentia que nos deixa com apenas uma vaga lembrança do que aconteceu. Se a história está sendo apagada, como é que vamos aprender com os erros para não voltarmos a errar no futuro? O que vai ser incendiado depois? A escola do meu filho? A minha casa? A minha rua? A minha memória?

Museus vão virar cinzas, bibliotecas vão se transformar em entulho, estádios serão desfigurados e todo o espaço destinado para a prática do esporte vai virar um monte de concreto sem valor e sem memória. Tudo porque eu e você estamos inertes. E isso é o mais triste dessa história toda.

Daqui a dois anos ninguém mais vai se lembrar do que aconteceu. Somos estranhos, lembram? Vamos brigar por qualquer futilidade na internet. Afinal, história, cultura e esporte não servem pra nada mesmo.

Voltemos à programação normal. Meu time entra em campo amanhã e eu preciso fazer meu Cartola. Me deixa ficar inerte em paz.