PAPO TÁTICO: Ceará de Lisca é aplicado, guerreiro e não tem nada de “doido”; entenda

Lisca Doido é um treinador bastante folclórico. Já passou por diversas equipes do país e sempre carregou a fama de “maluco beleza”. Mas reduzir seu trabalho a isso é fechar os olhos para a capacidade que o técnico tem de tirar o melhor dos seus jogadores. A vitória do Ceará sobre o Corinthians nesta quarta-feira (5) é uma prova disso. Se Lisca apostou numa estratégia mais cautelosa nas partidas contra São Paulo e Flamengo (armando a equipe em duas linhas de quatro e muita velocidade nos contra-ataques), o time do Vozão mostrou muito mais consistência e confiança no triunfo sobre um adversário completamente desorganizado dentro de campo. A loucura e o folclore ficaram com os torcedores na Arena Castelão. O Ceará segue mostrando evolução tática e técnica graças ao trabalho de Lisca Doido, profissional subestimado por muitos do eixo sul-sudeste, mas bastante valorizado pela torcida do Vozão. E não é à toa.

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Fotos Públicas / © Daniel Augusto Jr. / Ag. Corinthians

Primeiro porque o treinador do Ceará faz o simples (e faz muito) com o que tem à disposição. Leandro Carvalho, Juninho Quixadá e Calyson são bastante móveis e conseguem abrir muitos espaços no ataque. Mais à frente, Arthur pode fazer o papel de referência na área ou se movimentar para as infiltrações do trio de meias, do volante Richardson ou dos laterais Samuel Xavier e Felipe Jonathan. Todos marcam, todos se movimentam e todos participam das jogadas. Tudo é feito com muita intensidade no Vozão. Do outro lado, o Corinthians de Osmar Loss (que acabou sendo “rebaixado” para auxiliar depois da partida) seguia desorganizado e quase sem força para criar. Jadson esteve em péssima noite. Assim como Ralf, Mantuan, Romero e Douglas, todos bem abaixo daquilo que podem fazer e já fizeram. O (belo) gol de falta do goleiro Éverson ajudou o Ceará a ter o controle da partida ainda na primeira etapa. Faltou aproveitar mais os espaços deixados pelo time de Osmar Loss.

Com Juninho Quixadá, Calyson e Leandro Carvalho se movimentando bastante e Arthur abrindo espaços, o Ceará conseguiu criar boas chances no primeiro tempo. Mas só foi depois do gol de Éverson que o Vozão conseguiu tomar o controle da partida diante de um Corinthians preso e sem ideias.

A movimentação do trio de meias surtiu efeito quando Leandro Carvalho passou como quis por Mantuan e serviu Calyson no meio da área no lance do segundo gol do Vozão. Com a vantagem no placar, Lisca Doido fechou sua equipe, mas não abdicou do ataque. O Ceará manteve a postura intensa para negar espaços e diminuir as chances do seu adversário que diminuiu o placar com Roger na única boa jogada do ataque corintiano em toda a partida. As entradas de Araos e Mateus Vital deixaram o Corinthians mais solto e mais leve, mas ainda sem o ímpeto necessário para chegar ao gol de Éverson (que fez grande defesa em cabeçada de Romero no início da segunda etapa). Só que nem mesmo na base do abafa (com a equipe jogando sem volantes e com dois homens de área) o Corinthians conseguiu chegar ao empate. Muito por causa do excelente trabalho defensivo de Lisca Doido e da entrega de todos os jogadores do Ceará durante os noventa minutos. Resultado mais do que justo.

Lisca Doido recuou sua equipe para suportar o “abafa” de um Corinthians que passou a jogar sem volantes e com dois homens de área. Acabou que a intensidade e entrega dos jogadores do Ceará fizeram a diferença na Arena Castelão. E os méritos são do subestimado Lisca Doido.

A superioridade do Vozão diante do Timão está escancarada nos números. Foram 63% de posse de bola, 16 finalizações, 11 na direção da meta defendida por Walter contra apenas onze do Corinthians (e apenas quatro na direção de Éverson). Nem mesmo o pequeno sofrimento no final do jogo (com a entrada do zagueiro Eduardo Brock no lugar do atacante Arthur) foi capaz de mudar o placar. Lisca Doido tem o time do Ceará na mão e vem conseguindo tirar muito de um elenco desconhecido e sem grife. A fama de “maluco beleza” fica só na arquibancada e nos cânticos da torcida do Vozão. Com a bola rolando, o treinador faz uma ótima leitura do jogo e sabe exatamente o que quer que seus jogadores façam. Foi assim contra o Flamengo (na vitória por um a zero num Maracanã lotado) e foi assim contra um Corinthians que não é sombra do campeão brasileiro de 2017. Muito por conta dos desfalques e do desmanche feito na equipe na janela de transferências internacionais. Acabou sobrando para Loss.

A segunda vitória seguida do Ceará no Brasileirão dá força para o time seguir tentando se livrar da zona do rebaixamento. A distância diminuiu, mas ainda há muito o que ser feito. Certo é que Lisca Doido é muito mais do que um “maluco beleza” e um técnico “folclórico”. Seu trabalho tem qualidade e merece ser valorizado.

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