PAPO TÁTICO: Modric merece mesmo o prêmio de melhor do mundo?

O croata Luka Modric já havia conquistado o prêmio de melhor jogador da Copa do Mundo da FIFA num momento em que muitos apontavam para o francês Mbappé e para o belga Hazard. Nesta segunda-feira, na cerimônia da entrega do FIFA The Best em Londres, o camisa dez da seleção croata e do Real Madrid acabou com sequência de prêmios para Messi e CR7 ao levar mais essa conquista pra casa. Embora Modric tenha protagonizado momentos incríveis nos últimos anos, ficam as dúvidas de muitos (incluindo este que escreve): será mesmo que o croata fez por merecer o prêmio de melhor do mundo? Ele jogou mais do que Mohamed Salah e Cristiano Ronaldo em 2018? E Messi? Será que o argentino merecia estar na disputa pelos seus números no Barcelona? Diante de tantas perguntas, fica a impressão (para não dizer certeza) que a FIFA não tem critérios lá muito claros para a escolha dos seus agraciados.

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Wikipedia Commons / CC BY-SA 3.0

É óbvio que a Copa do Mundo tem um peso enorme no FIFA The Best. A competição mais importante do futebol mundial consagra jogadores e treinadores desde 1930 e ainda tem lugar cativo no imaginário do torcedor. Mesmo num momento em que muita gente perdeu o interesse pelas seleções nacionais. O ponto aqui, no entanto, é saber o quão decisivo Modric foi na campanha que levou os comandados de Zlatko Dalic ao vice-campeonato. O camisa 10 jogava por dentro num 4-1-4-1 que deu liga durante a Copa e teve participação importantíssima na vitória sobre a Argentina por três a zero. E quando relembramos algumas das partidas do escrete croata no Mundial da Rússia, percebemos que nomes como Perisic, Mandzukic, o goleiro Subasic e o zagueiro Vida acabaram sendo muito mais decisivos em determinados momentos do que Modric. Claro que o camisa 10 exercia papel importante pela sua experiência e liderança no time comandado por Zlatko Dalic. Mas a Copa pede mais do que isso.

Modric jogava por dentro no 4-1-4-1 de Zlatko Dalic na campanha do vice-campeonato da Copa do Mundo pela Croácia. O camisa 10 teve atuação destacada nos três a zero sobre a Argentina, mas acabou dividindo o protagonismo com Perisic, Subasitc e Mandzukic no Mundial da Rússia.

Na humilde opinião deste que escreve, os franceses Varane e Mbappé, o belga Hazard e o croata Mandzukic foram muito mais decisivos do que Modric. Claro que tal fato não apaga ou diminui sua importância dentro da sua seleção. Difícil puxar pela memória alguma das sete partidas da Croácia na Copa do Mundo em que o camisa 10 tenha feito a diferença além da vitória por três a zero sobre a Argentina na fase de grupos. Além disso, como não lembrar da atuação do goleiro Subasic nas oitavas de final contra a Dinamarca, jogo no qual ele defendeu um pênalti e evitou que Modric se transformasse no vilão depois de desperdiçar um pênalti no segundo tempo da prorrogação? A grande verdade é que a Croácia acabou chegando longe na Copa do Mundo muito mais por causa do jogo coletivo e da entrega dos seus jogadores do que pela atuação destacada deste ou daquele jogador. E Modric, mesmo com toda a sua categoria, não foi tão decisivo como se pensa. Ainda mais depois de ter recebido o prêmio de melhor da competição.

O panorama é mais ou menos o mesmo quando analisamos a temporada nos clubes. Modric forma o tripé no meio-campo do Real Madrid com Casemiro e Toni Kroos e distribuía o jogo pelo lado direito no já conhecido e estudado 4-3-1-2 de Zinedine Zidane. Ou fechava como volante por dentro encostando em Carvajal e Isco, ou abria pelo lado fechando a segunda linha de quatro quando a sua equipe era atacada. No entanto, o camisa 10 merengue não foi tão decisivo na conquista da sua quarta Liga dos Campeões da UEFA mesmo sendo importantíssimo na defesa e no ataque. Tanto que Zidane não teve como sacá-lo do time após a sua entrada ao perceber que o croata chegava na frente e marcava com a mesma categoria. No entanto, se a FIFA queria premiar um meio-campista, fica difícil entender por que Iniesta e Sneijder passaram em branco (principalmente em 2010 e 2011) quando foram muito mais decisivos do que Messi e Cristiano Ronaldo em várias temporadas.

Modric foi importantíssimo no 4-3-1-2 de Zidane na conquista da sua quarta Liga dos Campeões pelo Real Madrid. Mas fica difícil competir com os números de Cristiano Ronaldo e Messi. Mesmo sendo jogador de meio-campo, o croata não foi tão decisivo quanto o português e o argentino.

Claro que a comparação com jogadores de ataque como Cristiano Ronaldo e Mohamed Salah (seus concorrentes no FIFA The Best) é pesada. Mas os números dizem muita coisa sobre essa disputa. Segundo colocado na premiação, CR7 marcou 54 gols e deu 11 assistências em 55 jogos por Real Madrid e Portugal. Salah terminou com 50 gols e 14 assistências em 58 jogos, e Messi, o quinto colocado (Mbappé foi o quarto), 52 gols e 21 assistências em 64 jogos. Modric marcou apenas cinco gols e deu 11 assistências em 59 partidas. Por mais que o croata tenha importância no Real Madrid e na seleção da Croácia, a impressão que ficou depois do FIFA The Best é que a FIFA tentou criar um fato novo para acabar com a sequência de Messi e Cristiano Ronaldo. E como os dois não foram tão bem na Copa do Mundo como foram nos seus clubes, a entidade acabou optando por Modric. A grande questão é que teve jogador que foi muito melhor do que ele no Mundial da Rússia.

Que o torcedor não me leve a mal. Modric é um dos melhores meio-campistas que este que escreve já viu em campo. Sabe muito bem o que faz com a bola e ainda tem muito a fazer no futebol no alto dos seus 33 anos. O ponto aqui é entender os critérios utilizados pela FIFA nas suas premiações. Regularidade (ponto forte do croata) conta e muito. Mas será que é a única coisa que vale no final das contas?

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