PAPO TÁTICO: Será que esse é o fim da era do “tiki-taka” na Seleção Espanhola?

Novo treinador da Espanha, Luís Enrique anunciou a sua lista de convocados para as partidas contra Inglaterra e Croácia pela Liga das Nações nos próximos dias 8 e 11 de setembro. As aposentadorias de Iniesta, Piqué e David Silva da seleção e os jogadores chamados pelo treinador apontam para um caminho bem diferente daquele adotado por “La Roja” nos últimos dez anos. O estilo de jogo baseado no amplo domínio da posse de bola que ficou conhecido como “tiki-taka” (e repudiado por técnicos como Pep Guardiola) parece estar com os dias contados na Espanha. Não que a equipe retorne aos tempos da “Furia” e de um futebol mais vertical. A lista de Luís Enrique aponta para um estilo que una as duas escolas. Mesmo assim, os tempos dos toques para o lado e de um jogo mais estudado podem estar perto do fim. Ainda mais quando o cenário atual cobra intensidade e entrega ao extremo das principais equipes do planeta. Vide o futebol jogado na Copa do Mundo da Rússia.

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: CC BY-SA 3.0 / Wikipedia

O “tiki-taka” não foi uma invenção espanhola. Ele tem origens nos anos 1970 com Romênia comandada por Angelo Niculescu na Copa do Mundo do México. Johan Cruyff implementou sistema semelhante quando comandou o Barcelona de 1988 a 1996 (aliando conceitos do “Futebol Total” aprendido com Rinus Michels na Holanda). Mas o termo ficaria mais conhecido com a Espanha de Luís Aragonés na conquista da Eurocopa de 2008. Depois de ver sua equipe sucumbir diante da França na Copa do Mundo de 2006, o treinador espanhol percebeu a revolução que se iniciava com Frank Rijkaard no Barcelona e montou sua seleção baseada no toque de bola da equipe catalã. Jogadores como Iniesta, Xavi, Puyol, David Silva, Fernando Torres e outros acabaram se transformando nos ícones desse estilo de jogo. A Espanha (mesmo não figurando como favorita) conquistou a sua segunda Eurocopa com atuações memoráveis de nomes que entrariam para a história.

O time campeão da Eurocopa 2008 era o início de uma das eras mais vitoriosas do futebol espanhol. Era também o início do “tiki-taka” em “la Roja”. Fàbregas e Xavi pensam o jogo, Fernando Torres se movimenta na frente e David Silva e Iniesta também participam da armação. A bola gira o campo todo até que o espaço seja encontrado.

Luís Aragonés foi substituído por Vicente del Bosque logo depois da Eurocopa. O novo comandante não era tão estrategista quanto seu antecessor, mas teve sabedoria suficiente para manter o sistema de jogo e a base de “La Roja” na Copa do Mundo de 2010, na África do Sul. O estilo de valorização excessiva da posse de bola alcançou seu ápice com a Espanha dominando partidas vencidas pelo placar mínimo. Jogadores como Xabi Alonso, Pedro Rodríguez e David Villa ganharam mais espaço no 4-2-3-1 de del Bosque por conseguirem sustentar o sistema que valorizava a posse de bola, troca quase que interminável de passes e marcação sob pressão na defesa adversária. Essa foi a receita da vitória sobre a Alemanha nas semifinais e sobre a Holanda na grande final da Copa de 2010. A Espanha se transformava em modelo a ser seguido no mundo todo apesar das fortes críticas recebidas de treinadores, jornalistas e ex-jogadores com relação ao seu estilo.

A Espanha campeã da Copa do Mundo de 2010 trazia a base de dois anos antes e um jogo mais baseado no “tiki-taka”. Xabi Alonso entrou no meio para reforçar a marcação, David Villa entrou no comando de ataque e Xavi ganhou mais liberdade para pensar o jogo e encostar no trio ofensivo.

Essa geração ainda teria forças para conquistar mais uma Eurocopa (em 2012). No entanto, Vicente del Bosque acabaria sendo ainda mais radical com relação ao “tiki-taka”. Ao invés de um atacante de ofício na frente (como Fernando Torres ou David Villa), o treinador espanhol apostou num meio-campista como “falso nove” no 4-2-3-1 utilizado na competição. Na prática, segundo alguns jornalistas e analistas, “La Roja” jogava em algo parecido com comum 4-6-0, já que era bastante comum ver Fàbregas recuando para abrir espaços e participar da criação das jogadas. Embora a Espanha tenha sido a seleção com o melhor ataque (12 gols marcados) e a melhor defesa da competição (apenas um gol sofrido em seis partidas), as dificuldades diante de equipes mais fechadas começava a ficar mais clara. Mesmo assim, a goleada sobre a Itália na final calaria os críticos por mais algum tempo. Não foram poucos os que chamaram o “tiki-taka” de retranca do Século XXI. No pior sentido.

Vicente del Bosque radicalizou com a entrada de Fàbregas (um meia) no comando de ataque na conquista da Eurocopa de 2012 com a goleada sobre a Itália na finalíssima. Alguns críticos chegaram a dizer que a Espanha jogava num 4-6-0 sem referência. Mas as vitórias continuaram aparecendo.

O fracasso na Copa do Mundo de 2014 já apontava para uma necessidade de renovação de jogadores e de estilo em “La Roja”. O tão difundido “tiki-taka” vinha sendo superado por diversas equipes nos últimos anos (incluindo a própria Seleção Brasileira na final da Copa das Confederações de 2013). Marcação sob pressão, intensidade e movimentação constante eram os artifícios usados pelos treinadores adversários nas partidas contra a Espanha e outras equipes que adotavam o mesmo estilo de jogo. Derrotas como a goleada sofrida diante da Holanda na estreia do Mundial do Brasil acabariam se transformando no início de um processo que acabaria com a eliminação para a Rússia na Copa de 2018 e atuações fracas diante de adversários em tese bem mais fracos. Isso sem falar na polêmica demissão de Julen Lopetegui às vésperas da estreia diante de Portugal, fato que só deixou ainda mais evidente a necessidade de renovação de toda uma geração de jogadores.

A chegada de Luís Enrique no comando da Espanha já aponta para um caminho de mudanças na Seleção Espanhola. Talvez a solução seja o aproveitamento dos pontos positivos das principais equipes do país. A força e a entrega do Atleico de Madrid, a escola de toque de bola do Barcelona e o ímpeto ofensivo do Real Madrid. A primeira lista de Luís Enrique traz um movimento nesse sentido e também mostra um profissional um pouco mais experiente depois da experiência com o Trio MSN no Barça. E por ter sido um dos poucos jogadores que conseguiram ser ídolos no Camp Nou e no Santiago Bernabéu, o novo comandante de “La Roja” sabe como tirar o melhor de cada escola. Assim sendo, nomes como Asensio, Diego Costa e Saúl Ñíguez além dos “estrangeiros” Thiago Alcântara e Marcos Alonso podem ganhar mais chances com Luís Enrique. Além disso, Sergio Ramos e Busquets devem ter uma sobrevida até que a nova geração receba o bastão da anterior.

Luís Enrique pode manter o desenho tático e a essência do “tiki-taka” na Espanha. Mas pode ganhar força ofensiva com Diego Costa e criatividade com Asensio e Isco se movimentando por todo o campo e jogadores de estilo mais vertical no seu setor de criação. E o novo ciclo começa logo contra a Inglaterra, pela Liga das Nações.

É bem verdade que nomes como Iago Aspas, Lucas Vazquez, Koke e outros que estiveram na Copa do Mundo da Rússia ainda podem ganhar oportunidades em convocações futuras. Ainda mais com as aposentadorias de Iniesta, David Silva, Piqué e a necessidade de renovação de uma equipe que esteve no auge de 2008 até 2014. Mesmo sendo alvo de criticas de muita gente em algumas ocasiões, a Espanha teve seus momentos de brilhantismo nas principais competições que participou nesse período de tempo. E cabe a Luís Enrique coordenar a transição do famoso “tiki-taka” para um estilo que una toque de bola, intensidade e velocidade em todos os setores. A imagem que ficou de “La Roja” foi a do jogo contra a Rússia na Copa do Mundo, quando o time tocava a bola sem objetividade. Mais um ponto que merece atenção do novo treinador.

Num tempo em que o futebol exige concentração e dedicação em níveis que beiram a estratosfera, ter atenção com a renovação de um selecionado como a Espanha e observar a mudança no cenário mundial é fundamental. Luís Enrique sabe disso e sua experiência com o Barcelona pode ser muito útil nesse processo para uma “nova Fúria” no Velho Continente.

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