Opinião: seleção brasileira feminina de vôlei precisa ser renovada

O Brasil se despediu do Mundial disputado no Japão de maneira melancólica. Entre vitórias suadas e derrotas amargas – como para a Alemanha – o que deu errado na busca pelo título inédito? E quais as lições que ficam para o futuro?

Tauany Rodrigues
Apaixonada por vôlei, futebol americano e futebol, mas amante de todos os esportes.

Crédito: Divulgação/CBV

O Brasil entrou em quadra contra o Japão precisando de nada mais nada menos do que o jogo perfeito contra as donas da casa. Um três a zero classificaria as brasileiras para o final six. Em outros tempos, a confiança dos torcedores estaria em alta, pois era um resultado possível. Mas diante das atuações da seleção comandada por José Roberto Guimarães, era difícil acreditar que o time que perdeu um set para a limitada seleção mexicana e que tomou uma virada histórica para o time alemão, conseguiria o jogo perfeito. E de fato, mesmo com oito pontos de vantagem para fechar o primeiro set, o conjunto brasileiro foi eliminado da competição.

Para o torcedor que acompanhou a seleção de perto, desde a sua preparação, a eliminação contra as japonesas não foi uma surpresa. O time sempre se mostrou inconstante e nervoso em quadra. Durante a competição, foi possível observar isso em alguns momentos: a virada que sofreu para a Alemanha, o rodízio de jogadoras e o set que culminou com a eliminação brasileira.

Mas mesmo após um mundial decepcionante, existem lições que devem ser aproveitadas dessa verdadeira montanha russa que foi a participação brasileira. Aprender com os erros, para corrigi-los na preparação para a próxima grande competição: os jogos Olímpicos de 2020.

Os erros

É inevitável não falar sobre os erros após uma eliminação precoce de uma das principais favoritas. Alguns aspectos que ocorreram tanto durante a preparação como durante a competição precisam ser destacados.

Na preparação, o Brasil já se mostrou inconstante. Na principal competição preparatória, foi a única seleção entre as grandes a jogar a maior parte dos jogos com o time principal. Além disso, convocou as mesmas jogadoras para todas as semanas da competição. Enquanto isso, os adversários aproveitaram para rodar o elenco, e abrir as possibilidades sobre novas convocadas. A seleção americana é exemplo disso. Graças ao seu rodízio na VNL, jogadoras como a ponteira Bartsch – Hackley e a jovem Wilhite ganharam suas vagas na competição.

Além disso, algumas atletas brasileiras não estavam 100%. Caso de Natália, Dani Lins, Thaisa e Gabiru. Três delas seriam titulares da equipe, caso tivessem a condição ideal. Mas estavam sem ritmo nas competições que antecediam o Mundial. Algumas nem jogaram, caso de Natália. Essa falta de ritmo e falta de condições de jogo, prejudicou o rendimento das mesmas quando foi necessário. Natália, a principal ponteira brasileira hoje, não conseguiu fazer uma partida inteira no Mundial.

As indecisões do técnico também pesaram muito. Desde o corte de Amanda, que já estava no Japão e foi cortada em cima da hora, até o rodízio entre centrais e levantadoras, ficava evidente o quanto José Roberto Guimarães não tinha um time definido. Porém, algumas peças não saiam do time, mesmo jogando abaixo do esperado. Enquanto outras, dificilmente jogavam uma partida inteira. Iniciou o Mundial com a levantadora Dani Lins, trocou por Roberta, e durante os jogos sempre alternava entre as duas. No jogo contra a Alemanha, por exemplo, hesitou demais em colocar Roberta no banco quando a virada germânica se desenhava e algo deveria ser feito.

Contra o Japão novamente, deixou Roberta em sinuca de bico ao não fazer uma inversão que poderia desafogar uma rede que estava tomando 7 pontos seguidos. Contra a Holanda, entrou em quadra com Drussyla, deixando a ponteira mais regular – Fernanda Garay – no banco. A mesma precisou entrar durante o jogo. Carol e Adenizia viviam um rodízio constante. Thaísa por muitas vezes foi esquecida pelo treinador. Assim como Rosamaria.

As lições

Houveram alguns erros. Mas é necessário aprender com eles. O técnico José Roberto Guimarães, disse em entrevista ao site globoesporte.com que reconhece que levou jogadoras fora da forma ideal, mas diz que faria tudo de novo. De fato, levar jogadoras lesionadas e que precisariam de tempo para recuperação, prejudicou muito o trabalho do Brasil, que sempre trabalhava com o elenco limitado. A lição a ser tirada desse fato é que a seleção não pode depender da recuperação de jogadoras lesionadas, por mais importante que elas sejam.

Outras jogadoras que disputaram a Superliga e tiveram bons desempenhos foram preteridas para que as jogadoras fora das condições ideais fossem convocadas. Seleções como a Itália e Rússia perderam atletas importantes para seus times como Bosetti e Kosheleva, mas usaram as competições pré – mundial para encontrar alternativas para suas jogadoras lesionadas.

A falta de definição do time titular também deve ser revista. Chegar em uma competição do nível de um campeonato mundial sem o time definido, não é o ideal. Das 4 seleções semifinalistas, todas jogaram a competição com o time bem definido. Salvo em jogos que já estavam classificadas e valiam pouco ou por lesão de alguma atleta, os times se mantiveram os mesmos. Exemplo disso é a seleção da Sérvia, que foi indiretamente responsável pela eliminação brasileira na competição.

Renovação. É a palavra que deve ser prioridade na seleção. Se observarmos as seleções semifinalistas (Itália, Sérvia, Holanda e China), todas passaram por renovações recentes e têm em suas principais jogadoras, jovens talentos que foram inseridos na seleção de seus países como as opostas Paola Egonu e Tijana Boskovic. Enquanto o conjunto brasileiro conta com novos nomes como Rosamaria e Drussyla, que precisam ser trabalhadas para o futuro, mas que encontram certa resistência do técnico em serem utilizadas em grandes momentos.

Fato é que o Brasil precisa aprender com os seus muito erros no Mundial para na próxima grande competição, não cometer os mesmos erros. Na história do Brasil, uma derrota como a desse ano, faz com que a seleção se fortaleça e chegue forte na competição seguinte. Foi assim quando em 2004 sofreu uma duríssima eliminação pra Rússia e em 2008 chegou ao ouro olímpico em Pequim.

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