Torcedores | Notícias sobre Futebol, Games e outros esportes

PAPO TÁTICO: Napoli supera o Liverpool usando elementos do “gioco all’italiana”; entenda

Assim como a história, o futebol também é cíclico. Vira e mexe algum treinador em algum lugar do mundo resgata uma maneira de jogar ou algum esquema tático do passado para a sua equipe. E foi exatamente o que se passou com o Napoli de Carlo Ancelotti nesta quarta-feira (3). A vitória sobre o Liverpool, em jogo válido pela segunda rodada da fase de grupos da Liga dos Campeões da UEFA, trouxe elementos do chamado “gioco all’italiana” (jogo à italiana em tradução literal), estratégia difundida no país da bota nos anos 1970 e 1980, com um toque de modernidade bem ao gosto de Ancelotti. O Napoli foi intenso, disciplinado e conseguiu frear o ímpeto dos comandados de Jürgen Klopp com muita dedicação e entrega dos seus jogadores.

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Reprodução / Facebook / UEFA Champions League

O chamado “gioco all’italiana” consistia numa variação do antigo 4-3-3 utilizada por quase todos os grandes times italianos nas décadas de 1970 e 1980. Essa estratégia tem suas raízes fincadas no “catenaccio” de Helenio Herrera na lendária Internazionale bicampeã da Liga dos Campeões em 1963/64 e 1964/65. Um dos laterais fica mais preso, o outro avança mais ao ataque (geralmente o que fica pela esquerda), um dos zagueiro se posiciona como líbero, um dos pontas atua como “tornante“, fechando o espaço à frente do lateral e aparecendo no ataque. Muita gente não gosta de lembrar, mas a Itália superou o Brasil em 1982 jogando dessa forma. Oriali fechava os espaços e permitia que Gentile perseguisse Zico no meio. Cabrini subia ao ataque, o talentoso Bruno Conti distribuía bem o jogo e Paolo Rossi decidia lá na frente.

O “gioco all’italiana” estava presente na Squadra Azzurra na Copa do Mundo de 1982. Scirea era o líbero, Oriali liberava Gentile para perseguir os adversários, Conti fazia o papel de “tornante” e Cabrini jogava mais solto pela esquerda. Memórias tristes para a Seleção Brasileira de Telê Santana.

Carlo Ancelotti deve ter se inspirado para montar o seu Napoli para a partida contra o Liverpool. Maksimovic ficava mais preso no lado direito com Mário Rui saindo mais pelo outro lado. Allan (OLHO NO ALLAN, TITE!!!) e Hamsik qualificavam a saída de bola, Callejón fazia o papel de “tornante” pela direita e Fabián Ruiz puxava os ataques pela esquerda. Com a bola, um 3-4-2-1. Sem ela, um 4-4-2 bem compactado e com muita pressão no homem da bola. Foi a partir dessa estratégia que o Napoli conseguiu parar o poderoso ataque do Liverpool no San Paolo, em Nápoles. Tudo era feito com muita coordenação e muita intensidade para que os espaços não aparecessem. A vida de Jürgen Klopp, que já não estava fácil, piorou com a saída de Keïta ainda no primeiro tempo. Tanto que o time sentiu a saída do guineense.

A inspiração no chamado “gioco all’italiana” é bem clara na disposição tática do Napoli no jogo desta quarta-feira (3). O técnico Carlo Ancelotti organizou sua equipe num 3-4-2-1 com a bola e num 4-4-2 compacto sem ela. O Liverpool não encontrava espaços e sofreu para criar suas jogadas.

O Napoli pressionava, mas não conseguia transformar a posse de bola em gols. Faltava capricho no último passe e mais força ofensiva. Tanto que Ancelotti sacou Milik, Hamsik e Fabián Ruiz para as entradas de Mertens, Zielinski e Verdi respectivamente. Enquanto o Liverpool começava a demonstrar desgaste físico e até mesmo satisfação com o empate dentro de casa, Callejón recebeu bola de Mertens pela direita (e às costas de Robertson) e cruzou rasteiro para a área. O atacante Insigne só teve o trabalho de completar para as redes de carrinho e fazer a fanática torcida napolitana explodir com o único gol da partida aos 44 minutos do segundo tempo. Do outro lado, Firmino, Salah, Sadio Mané, Sturridge e outros tinham noite para ser esquecida no San Paolo. A noite era azul e, é claro, do “gioco all’italiana“.

Carlo Ancelotti manteve a estratégia na segunda etapa e viu o esforço da sua equipe ser premiado com o gol do valente e talentoso Insigne nos minutos finais num momento em que o Liverpool já começava a se dar por satisfeito com o empate. Boas atuações de Allan, Hamsik, Callejón e Koulibaly, o “líbero” do Napoli.

Se Pep Guardiola já tinha “reinvertido a pirâmide” nos seus tempos de Barcelona e Bayern de Munique (resgatando o bom e velho 2-3-5), Carlo Ancelotti resgata uma estratégia e uma maneira de jogar bem conhecida dos italianos. Parte disso vem da necessidade de adaptar sua equipe à sua maneira de pensar o futebol. Não que ela seja melhor ou pior da de Maurizio Sarri. Mas fato é que o Napoli teve que se acostumar a jogar sem Jorginho. A adoção de elementos do  “gioco all’italiana” vem se tornando uma alternativa interessante no meio de tantas competições importantes na temporada e tendo que correr atrás da Juventus de Cristiano Ronaldo e da Internazionale de Mauro Icardi. Mesmo assim, a vitória sobre o Liverpool deve ser comemorada. Ainda mais depois do empate com o Estrela Vermelha na estreia.

Se falta qualidade ao Napoli em comparação com outras equipes do primeiro escalão do futebol, o time compensa com raça e bom jogo coletivo. O título é uma tarefa quase impossível. Mas os comandados de Carlo Ancelotti podem chegar mais longe do que muita gente pensa. Ainda mais resgatando e modernizando estratégias que deram muito certo num passado nem tão distante assim.

LEIA MAIS:

Napoli x Liverpool: assista aos melhores momentos da partida

Meia Serginho, ex-Santos, é destaque na Champions da Ásia

Desde 2013-2014, Neymar é o jogador que mais marcou gols de falta na Champions League