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PAPO TÁTICO: Fibra e força mental, os trunfos das Sereias da Vila na conquista do Paulistão 2018

Já comentamos várias vezes aqui na coluna PAPO TÁTICO que o futebol (seja ele praticado por homens ou mulheres) é um esporte que exige cada vez mais fibra e força mental dos seus atletas. Os detalhes envolvidos nas vitórias e nas derrotas são inúmeros e um momento de desconcentração pode ser fatal. E na decisão do Campeonato Paulista Feminino, as Sereias da Vila entenderam bem esses preceitos. O Santos saiu atrás no placar duas vezes e conseguiu a igualdade que levou as comandadas de Emily Lima ao título em cima do bom time do Corinthians. Se a primeira partida da final foi recheada de duelos dentro e fora de campo, o jogo do título trouxe ainda mais provas de que basta dar um pouco de incentivo para que o futebol feminino deslanche de vez aqui no Brasil. Acorda, CBF!!!

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Pedro Ernesto Guerra Azevedo / Santos FC

É impossível começar falando da decisão do Paulistão Feminino sem mencionar o gol de Marcela, logo aos 46 segundos de partida. Tanto as Sereias da Vila como as Mosqueteiras do Parque entraram em campo com os mesmos desenhos táticos do jogo de ida, na Vila Belmiro. Emily Lima apostava num 4-1-4-1 de bastante compactação e aproximação entre as suas jogadoras, e Arthur Elias (que vem fazendo ótimo trabalho à frente do Corinthians) mantinha seu 4-2-3-1 com muita velocidade pelos lados do campo. E foi no lado direito, onde Paulinha aproveitou o cochilo do sistema defensivo santista para encontrar Marcela no meio da área para balançar as redes após se livrar da marcação. A igualdade no placar agregado mantinha o Corinthians no ataque e obrigava o Santos a repensar as suas estratégias dentro de campo.

As Sereias da Vila entraram em campo armadas no 4-1-4-1 costumeiro de Emily Lima. Só que as Mosqueteiras do Parque abriram o placar logo aos 46 segundos aproveitando cochilo da zaga santista e explorando pelo lado direito de ataque. Foto: Reprodução / Youtube / Federação Paulista de Futebol / ESPW.

Não demorou muito para que as Sereias da Vila se reencontrassem dentro de campo. Aos poucos, as comandadas de Emily Lima foram cadenciando mais o jogo e freando o ímpeto das adversárias. Essa paciência também vinha acompanhada de uma ocupação inteligente dos espaços na intermediária das Mosqueteiras do Parque. O time de Arthur Elias se fechava em duas linhas de quatro com as pontas Milenne e Adriana fechando os lados do campo e com as volantes Grazi e Gabi Zanotti saindo no encalço das jogadoras santistas. Só que faltava coordenação nesses movimentos. O frame abaixo mostra Brena ocupando o espaço à frente da zaga para receber e lançar Juliette no lado esquerdo. A lateral cruzou rasteiro para Alanna, que acabou parando na ótima goleira Lelê e desperdiçou grande chance de igualar o marcador.

O Santos seguiu controlando a partuda e freando o ímpeto ofensivo das adversárias com muito toque de bola e posicionamento inteligente das suas jogadoras, A imagem acima mostra Brena recebendo entre as linhas do 4-2-3-1 proposto por Arthur Elias no Corinthians. Foto: Reprodução / Youtube / Federação Paulista de Futebol / ESPW.

Apesar da boa movimentação das duas equipes, o gol de empate das Sereias da Vila (marcado por Brena em cobrança de falta) e o segundo do Corinthians (marcado por Érika aos seis minutos do segundo tempo) saíram em jogadas de bola parada. Mesmo assim, a partida seguia recheada de lances de emoção e bom jogo coletivo. Teve bola no travessão (de Yasmin, das Mosqueteiras do Parque), contra-ataque de manual as Sereias da Vila) e grandes defesas de Michelle e Lelê. Mas o gol do título do Paulistão sairia mais um lance de movimentação inteligente das atletas santistas. Sochor recebeu na intermediária, teve tempo para parar a bola e realizar o passe cercada por quatro jogadoras corintianas e encontrar Ketlen dentro da área. A camisa 7 recebeu dentro da área e tocou no canto esquerdo da goleira Lelê.

Sochor recebe livre na intermediária corintiana e não recebe o combate de nenhuma das quatro jogadoras que a cercavam. A camisa 21 teve tempo para esperar o melhor posicionamento da companheira e fazer o passe que resultou no gol do título. Foto: Reprodução / Youtube / Federação Paulista de Futebol / ESPW.

As duas partidas da final do Campeonato Paulista deram a certeza de que o futebol feminino tem muito a crescer se tiver incentivo e estrutura. Corinthians e Santos conseguiram fazer suas equipes jogar em alto nível e vêm revelando jogadoras interessantes. Grazi, Brena e Gabi Zanotti têm ótima qualidade no passe e grande senso de posicionamento, Chú e Marcela são incansáveis na movimentação ofensiva e Lelê e Michelle são boas goleiras. Além disso, o trabalho de Emily Lima e Arthur Elias merece ser observado com mais carinho e atenção por todos aqueles que defendem o futebol feminino. Mas o título acabou ficando com a equipe que teve mais controle dos nervos e exerceu melhor a sua estratégia. Além disso, as Sereias da Vila conseguiram suportar a pressão da torcida adversária e manter seu estilo. Não é pouca coisa.

Tomara que a CBF finalmente enxergue e entenda que a sobrevivência do futebol feminino no Brasil está diretamente ligada a competições fortes e incentivos aos clubes para que formem suas equipes. Santos, Corinthians e outros já seguem esse caminho. Falta é mais visibilidade, mais carinho com a modalidade e muito mais boa vontade de quem comanda o futebol por aqui.

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