PAPO TÁTICO: Das ideias promissoras à necessidade de tempo, conheça os grandes desafios de Fernando Diniz à frente do Fluminense

Gostem dele ou não, Fernando Diniz é um dos treinadores da nova geração que podem acrescentar muita coisa nova nesse universo de mesmice do futebol brasileiro nesses últimos anos. Não somente pela proposta tática de valorização da posse de bola, intensidade nas transições e construção coletiva das jogadas de ataque, mas pela vontade quase obsessiva de produzir um jogo bonito e agradável de se ver. Fernando Diniz volta ao Fluminense (onde jogou de 2000 a 2003) para tentar recolocar a equipe novamente no caminho dos títulos. Os trabalhos realizados no Audax-SP (onde foi vice-campeão paulista em 2016) e no Athletico Paranaense (no início da temporada) deram o que falar e mostraram seu potencial. Mas seu grande desafio será, sem dúvida, no comando do Tricolor das Laranjeiras por uma série de motivos que iremos destacar aqui.

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Mailson Santava / Fluminense FC

O desenho tático preferido de Fernando Diniz é o 3-4-3, formação bastante difundida na Europa (principalmente depois que Antonio Conte ganhou a Premier League com o Chelsea) e um tanto quanto incomum aqui no Brasil. Suas equipes são caracterizadas por um jogo vertical de bola no chão e paciência para encontrar os espaços na defesa adversária, passes curtos e triangulações através da aproximação dos jogadores dentro de campo, pressão no portador da bola, alas espetados e bem abertos. Há também a troca de posições a preferência por atletas que cumpram mais de uma função em campo (como Tchê Tchê, Camacho e Bruno Paulo no Audax e Matheus Rossetto, Raphael Veiga e Pablo no Athletico Paranaense). A ideia é manter os jogadores ocupando o máximo de campo possível seja na construção das jogadas ou na recomposição defensiva.

Fernando Diniz costuma armar suas equipes num 3-4-3 baseado em valorização da posse da bola, intensidade nas transições, alas espetados e aproximação entre os setores. Essa foi a tônica no Audax-SP e no Athletico Paranaense. Foto: Reprodução / Premiere Futebol Clube.

Fernando Diniz já colocou equipes como o Barcelona de Guardiola, o Flamengo de 1981 e o Palmeiras dos 100 gols (em 1996) como algumas das suas inspirações. E uma característica bem peculiar dos times citados acima é a valorização da posse de bola para abrir espaços na defesa do oponente. Essa é uma das marcas das equipes do novo treinador do Fluminense. Os alas jogam bem abertos gerando amplitude e esgarçando a linha defensiva do adversário. Quando um jogador recebe a bola (e consequentemente atrai um marcador), os demais se lançam no espaço gerado por essa movimentação e assim as jogadas de ataque são construídas. Quase sempre com bola no chão desde o goleiro (que também participa da saída de bola), passando pelos zagueiros até chegar no setor ofensivo. É até um jogo bonito de se ver quando ele funciona.

Os times de Fernando Diniz costumam jogar com a bola no chão e com os jogadores se movimentando bastante no setor ofensivo. Tão logo um deles recebe a bola, os outros se lançam nos espaços vazios criados pela dinâmica do setor ofensivo. Foto: Reprodução / Premiere Futebol Clube.

Já o sistema defensivo dos times de Fernando Diniz costuma se fechar num 5-4-1 com o recuo dos alas para a linha de três zagueiros na frente da área. A compactação, a pressão no homem da bola e a saída rápida para o contra-ataque são pontos fundamentais nesse processo. Tanto que os “pontas” do 3-4-3 também exercem papel importante nesse momento ao fecharem o espaço que os laterais adversários terão para descer ao ataque. Embora pareça que Fernando Diniz costuma “estacionar um ônibus” na frente da área (tal como José Mourinho e Carlos Queiroz fizeram nas suas equipes), o meio costuma ficar desguarnecido com o recuo excessivo dos jogadores. Não por acaso, o Audax levou muitos gols em chute de média e longa distância no Campeonato Paulista de 2016. Inclusivo o de Ronaldo Mendes na primeira partida da decisão contra o Santos.

O 3-4-3 de Fernando Diniz se transforma num 5-4-1 quando sua equipe é atacada. Vale destacar aqui a dinâmica exercida pelos “pontas”. Os dois também voltam para fechar os espaços às costas dos defensores e vigiar as subidas dos laterais adversários. Foto: Reprodução / TV Globo.

É público e notório que as ideias de Fernando Diniz precisam de tempo para serem compreendidas pelos jogadores. Esse é um dos motivos pelos quais o treinador valoriza tanto os treinamentos e faz questão de deixar claro que os resultados desejados podem não vir num primeiro momento. Suas equipes gostam de ter a bola, mas essa falta de entrosamento nos primeiros dias pode deixar o time com um complexo de “arame liso” justamente por concluírem pouco a gol. Além da necessidade óbvia de tempo para treinar, Fernando Diniz também terá que lidar com a montagem do elenco tricolor em meio à crise financeira e política que tomou conta do clube. Os jogadores do Fluminense têm sua qualidade e podem jogar muito mais do que vinham jogando com Marcelo Oliveira. Até pela boa fase que o time teve antes do jejum de vitórias e gols no Brasileirão de 2018.

Há como se pensar o time do Fluminense (com todos os jogadores à disposição) jogando no 3-4-3 preferido de Fernando Diniz. Mesmo assim, o time precisa de reforços em todos os setores. Mesmo com o retorno de Pedro e outros que voltam de empréstimo. Link do Share My Tactics.

Fernando Diniz é um técnico de conceitos bem definidos e que não costuma abrir mão deles. Essa característica, aliás, acabou sendo um dos motivos da sua demissão no Athletico Paranaense. Sem tempo para treinar e sem um “plano B” para encaixar o time, o treinador se tornou vítima da cultura do resultado (assim como outros tantos foram) e também ganhou a alcunha de “inventor” e “professor Pardal” quando profissionais mais experientes e “cascudos” voltaram para o cenário nacional (como Luiz Felipe Scolari, Dorival Júnior e o próprio Abel Braga). Pelo que se acompanhou do seu trabalho até o momento, Fernando Diniz terá no Fluminense a sua grande chance de montar uma equipe forte e competitiva, exatamente nos moldes que pretende. A grande questão é se ele terá a compreensão de torcedores, dirigentes, jogadores e da imprensa.

Diante de tudo o que foi dito, a cultura do resultado parece ser o grande adversário do novo treinador do Tricolor das Laranjeiras. Ainda mais com o clube pegando fogo e com o time colecionando resultados ruins nas últimas temporadas. Fernando Diniz pode sim ser o cara que vai recolocar o Fluminense no caminho dos títulos. Mas será que ele terá respaldo nos momentos ruins?

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