PAPO TÁTICO: Entenda quais são os grandes desafios de Jorge Sampaoli no comando do Santos

A chegada de Jorge Sampaoli ao Santos não deixa de ser uma aposta de alto risco. Primeiro pela resistência que boa parte dos torcedores e da imprensa esportiva aqui em nosso país mostram contra treinadores estrangeiros. E depois pelo próprio momento do técnico argentino, que deixou a seleção do seu país em baixa depois de uma campanha muito ruim na Copa do Mundo da Rússia com direito a problemas dentro do grupo e até ameaça de motim levantada pela mídia portenha. Por outro lado, o desafio de comandar uma equipe brasileira como o Santos pode fazer muito bem a Jorge Sampaoli nesse momento da sua carreira. Mas é preciso que o treinador argentino tenha em mente que seus desafios serão muito grandes. Ainda mais com tanta gente cornetando nos bastidores, nas arquibancadas e na própria imprensa.

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Rodrigo Coca / Santos Futebol Clube

Discípulo declarado do também argentino Marcelo “El Loco” Bielsa, Jorge Sampaoli ganhou notoriedade internacional na Universidad de Chile campeã da Copa Sul-Americana de 2011. Num time que contava com jogadores como os zagueiros Marcos González e José Rojas, o volante Aránguiz, o meia Gustavo Lorenzetti e o atacante Eduardo Vargas, Sampaoli utilizou conceitos de Bielsa na La U: defesa adiantada, posse de bola agressiva e muita intensidade nas transições. As características mais marcantes da histórica equipe se tornariam marcas registradas de Jorge Sampaoli. A primeira era o rodízio no elenco (era muito comum ver o meia Lorenzetti dando lugar ao atacante Gustavo Canales no seu 3-4-3 usual) e a mudança de esquema tático de acordo com as características do adversário. Na final da Sul-Americana de 2011, a La U fez 3 a 0 em cima da LDU de Quito jogando um futebol vistoso e ofensivo.

Jorge Sampaoli transformou a Universidad de Chile numa equipe ofensiva, intensa e de muita mobilidade. O título da Copa Sul-Americana de 2011 foi o início da trajetória do argentino no cenário mundial. Feito no Share My Tactics.

Sampaoli era sinônimo de modernidade e futebol ofensivo quando foi chamado para substituir seu mentor Marcelo Bielsa no comando da Seleção do Chile em 2012. A missão do argentino era manter o legado do seu antecessor, conseguir uma boa posição na Copa do Mundo de 2014 e conquistar o até então título inédito da Copa América de 2015, que seria disputada no país. O esquema tático de La Roja variava do 4-3-1-2 para o 3-4-1-2 com Valdívia fazendo o papel de enganche e armando o jogo para Alexis Sánchez e Eduardo Vargas (artilheiro da competição com 4 gols) e com Marcelo Díaz jogando como volante e se posicionando mais atrás para formar a linha de três zagueiros. Mais atrás, Aránguiz e Vidal organizavam, atacavam e marcavam gerando a intensidade tão desejada por Jorge Sampaoli. Embora o Chile tenha sido a melhor seleção da Copa América, o título só veio nos pênaltis contra a Argentina.

O Chile campeão da Copa América de Sampaoli variava do 4-3-1-2 para um 3-4-1-2 conforme a movimentação de Marcelo Díaz. O meia ValdÍvia era o enganche e a dupla formada por Vargas e Sánchis dava conta do recado no ataque. Feito no Share My Tactics.

O sucesso na Copa América transformou Jorge Sampaoli num dos treinadores mais prestigiados do planeta e despertou o interesse de equipes do Velho Continente. Após uma série de polêmicas na Seleção Chilena, o argentino partiu rumo à Espanha para comandar o Sevilla. Na final da Supercopa Europeia diante do poderoso Real Madrid de Zinedine Zidane, Sampaoli já mostrava o que queria da sua equipe: posse de bola, saída da defesa com passes rasteiros, zagueiros abertos e um dos volantes (N’Zonzi ou Iborra) recuando para qualificar o passe. Mais à esquerda, o lateral Kolodziejczak se alinhava a Pareja e Carriço e soltava o meia Vitolo como ala. A ideia do treinador era transformar a posse de bola em volume de jogo, mas o número baixo de conclusões a gol acabou prejudicando o Sevilla na final (assim como a expulsão de Kolodziejczak no segundo tempo). Mesmo assim, levou a equipe à quarta posição do Campeonato Espanhol.

Jorge Sampaoli implementou alguns dos seus conceitos no Sevilla logo na sua primeira partida à frente do clube. O time variava do 4-4-2 para o sistema com três zagueiros. Feito no Share My Tactics.

Em maio de 2017, Jorge Sampaoli era anunciado como o técnico da Argentina para a Copa do Mundo de 2018, na Rússia. E embora a primeira partida (diante da Seleção Brasileira) tenha deixado boa impressão, a sua passagem pela Albiceleste acabou sendo terrível. Seus trabalhos precisam de tempo para assimilação dos jogadores. Não existe improviso nesse processo, por maior que seja a boa vontade. Mesmo assim, a falta de tempo não serve de justificativa para seu péssimo trabalho no comando da Argentina. Desempenho ruim nos amistoso, classificação suada nas Eliminatórias para o Mundial e campanha pífia no solo russo. A eliminação nas oitavas de final para a campeã França depois de ameaça de demissão em pleno torneio, problemas de relacionamento com os atletas vazados pela imprensa e até mesmo um início de motim dentro do elenco marcaram a polêmica passagem de Sampaoli pela Albiceleste.

A passagem de Jorge Sampoali pela Seleção Argentina foi recheada de polêmicas e maus resultados. A eliminação diante da França, nas oitavas de final da Copa do Mundo, mostrou uma equipe sem ideias. Feito no Share My Tactics.

Agora Sampaoli chega na Vila Belmiro com duas missões bem claras. A primeira (e mais complicada na opinião deste que escreve) é recuperar seu prestígio comandando uma equipe brasileira com todo o cenário levantado no primeiro parágrafo deste texto. Além disso, o técnico argentino ainda vai precisar usar o pouco tempo que tem para conhecer o elenco, indicar contratações (a de um atacante para o lugar de Gabigol é a mais clara até o momento) e fazer com que os atletas que terá à sua disposição assimilem seus métodos e sua filosofia de trabalho. O chamado “DNA ofensivo” do Peixe pode ajudar nesse processo, já que Jorge Sampaoli tende a privilegiar mais o ataque. No entanto, qualquer mau resultado será elevado à quinta potência, mesmo sabendo que ele terá as mesmas condições de trabalho do que qualquer outro treinador brasileiro que assumisse o Alvinegro Praiano no seu lugar. Não é tarefa fácil.

Jorge Sampaoli terá muitos desafios pela frente na Vila Belmiro. A diretoria terá que dar o respaldo e a blindagem necessária para o argentino trabalhar e conquistar os resultados que a torcida tanto deseja. Quem não será no Santos que o argentino terá a sua redenção e iniciará seu ao primeiro escalão dos treinadores no cenário mundial?

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