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PAPO TÁTICO ESPECIAL: O legado de Rubens Minelli, um dos maiores treinadores do Brasil

Os mais novos podem não conhecer o nosso personagem principal. Mas quem acompanha o futebol brasileiro há alguns anos sabe que se trata de um dos maiores treinadores que esse país conheceu. E no último dia 19 de dezembro, ele completou 90 anos de vida. Rubens Francisco Minelli. Ou simplesmente Rubens Minelli. Primeiro tricampeão brasileiro consecutivo, um dos primeiros técnicos a importar novas tendências do exterior e pioneiro na mudança dos treinamentos táticos e físicos por essas bandas, Minelli está presente em qualquer lista dos treinadores mais influentes da história do futebol brasileiro. E no mês em que ele completa 90 anos de vida, a coluna PAPO TÁTICO relembra seus grandes times e algumas das suas inovações trazidas ao longo de tantos anos dedicados ao velho e rude esporte bretão.

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Reprodução / Facebook / São Paulo FC

A carreira de Rubens Minelli como jogador de futebol acabou quando ele tinha apenas 27 anos devido a uma fratura na perna. Passou pelas categorias de base do Palmeiras e comandou clubes como América de Rio Preto, o Botafogo de Ribeirão Preto, o Sport e o Francana antes de assumir o comando da equipe principal do Verdão em 1969. A diretoria alviverde desejava uma reformulação no elenco e Rubens Minelli foi buscar o goleiro Leão, os laterais Eurico e Zeca, o meia Jaime e o ponta Pio nas categorias de base para montar o Palmeiras campeão do Torneio Roberto Gomes Pedrosa daquele ano. No papel, um 4-2-4 típico daqueles tempos. No entanto, o esquema soltava Ademir da Guia como meia-atacante e tinha em Pio um “falso ponta” pelo lado esquerdo para preencher o meio e ocupar espaços. Na prática um 4-3-3 que lembrava um 4-2-2-2.

O então jovem treinador foi buscar jovens valores nas categorias de base e montou um Palmeiras forte e envolvente no ataque. Ademir da Guia virava meia-atacante quando Jaime voltava para fechar o meio com Dudu e Pio voltava pela esquerda como um “falso ponta”. Quase um 4-2-2-2 típico dos anos 1980.

Rubens Minelli deixou o Palmeiras em 1971 e passou por Rio Preto e Portuguesa antes de desembarcar em Porto Alegre para comandar o Internacional em 1974. Desde cedo já entendia a importância de se ocupar bem os espaços e a necessidade de jogar e não deixar jogar. Com ideias e conceitos importados da Holanda de Rinus Michels e montou o time que seria campeão gaúcho naquele mesmo ano. Na temporada seguinte, já contando com o talento do então jovem Paulo Roberto Falcão, a categoria de Paulo César Carpegiani, a velocidade de Valdomiro e a experiência de Manga, Rubens Minelli venceria seu segundo título brasileiro com o Internacional. A taça viria depois da vitória sobre o Cruzeiro por um a zero (gol marcado pelo grande Figueroa) com o Colorado jogando num 4-3-3 que soltava Falcão e Carpegiani para encostar no ataque.

Rubens Minelli conquistou o Campeonato Brasileiro de 1975 ao mesclar juventude e experiência no Internacional. O então jovem Paulo Roberto Falcão já tinha liberdade para encostar no ataque e contava com a categoria de Paulo César Carpegiani, Flávio Minuano, Caçapava, Figueroa e outros grandes nomes na conquista do título.

O bicampeonato nacional viria com um time que entraria para a história pelos conceitos inovadores implementados por Rubens Minelli. De acordo com o próprio treinador, o Internacional campeão brasileiro de 1976 jogava num 1-3-1-2-3. Muito número, não é? Vamos explicar: Marinho Peres virava líbero (aproveitando a experiência adquirida no Barcelona), Figueroa se alinhava a Cláudio e Vacaria na marcação do trio ofensivo do adversário e Caçapava protegia a zaga ao lado do polivalente Batista. Mais à frente, Falcão foi adiantado para armar as jogadas de ataque logo atrás de Valdomiro, Dario e Lula. Aquele Internacional é considerado até hoje como uma das melhores equipes que já venceram o Campeonato Brasileiro. E o estilo moderno persiste: linhas adiantadas, ocupação de espaços, superioridade numérica no meio e marcação forte.

Marinho Peres era o líbero, Figueroa se alinhava a Cláudio e Vacaria, Caçapava e Batista protegiam a zaga e Falcão ganhava liberdade total. O Internacional campeão brasileiro de 1976 tinha o dedo de Rubens Minelli: intensidade, marcação forte e adiantada e muita velocidade nas transições.

O ano seguinte traria mais um desafio para Rubens Minelli. O treinador foi contratado pelo São Paulo e já ele mostraria um pouco do seu lado estrategista ao posicionar dois volantes (Chicão e Teodoro) na frente da forte zaga tricolor. A final do Campeonato Brasileiro de 1977 seria realizada contra o fortíssimo time do Atlético-MG, uma das mais talentosas equipes daqueles tempos, fato que obriga Rubens Minelli a repensar e remontar o time titular. Além dos dois homens de contenção no meio, o treinador recua o ponta Viana para vigiar as subidas de Toninho Cerezo. Com Mirandinha incomodando na frente, Zé Sérgio abusando da velocidade pela direita e Darío Pereyra distribuindo o jogo, o São Paulo consegue segurar o Galo em pleno Mineirão lotado e conquista seu primeiro título nacional na disputa de pênaltis.

Chicão e Teodoro protegendo a zaga, o uruguaio Darío Pereyra distribuindo o jogo no meio-campo e Viana mais recuado de olho nas descidas de Toninho Cerezo. Rubens Minelli estudou o Atlético-MG e mexeu na formação do São Paulo para faturar seu quarto título nacional e o terceiro consecutivo.

Minelli não comandou a Seleção Brasileira após a Copa do Mundo de 1978 apesar dos títulos e rumou para o futebol árabe na temporada seguinte. Voltaria ao Brasil no início da década de 1980 para comandar o Palmeiras, mas o estilo mais veloz daqueles tempos prejudicou um pouco o seu retorno. Passaria ainda pelo Atlético-MG antes de chegar ao Grêmio em 1985, onde pôde contar com nomes como o goleiro Mazarópi, os meias Bonamigo, Valdo e Osvaldo, o goleador Caio Júnior e um ainda jovem Renato Gaúcho para conquistar o campeonato gaúcho daquele ano recuperando elementos usados por ele nos anos 1970. Valdo era o “falso ponta” pela esquerda e circulava por todo o campo para abrir espaços para a chegada dos meias. Renato bagunçava a defesa adversária a partir da direita e Caio Júnior decidia na frente.

Rubens Minelli repetiu a estratégia do “falso ponta” em mais um 4-2-2-2 bem montado no Grêmio campeão gaúcho em 1985. Valdo recuava pela esquerda e tinha liberdade para circular por todo o campo para abrir espaços para Bonamigo, Caio Júnior e um então jovem Renato Gaúcho.

Passaria por Santos, Corinthians e Grêmio (mais uma vez) antes de chegar ao Paraná Clube em 1990 (fundado no dia do seu aniversário). Foi o primeiro técnico do time e marcaria seu nome na história da instituição ao participar diretamente da conquista de dois títulos no famoso pentacampeonato estadual (1993 a 1997). A última taça foi conquistada com uma equipe que mesclava a experiência de Régis (ex-Vasco), Sidney (ex-São Paulo) e Caio Júnior (ex-Grêmio) com a juventude de Ricardinho, habilidoso meia que brilharia com a camisa do Corinthians e faria parte do grupo campeão da Copa do Mundo de 2002 com Luiz Felipe Scolari. Aquele Paraná Clube jogava no típico 4-2-2-2 daqueles tempos, mas a movimentação constante dos jogadores permitia variações para um 4-3-3 ou até mesmo um 4-2-3-1 bastante moderno para a época.

O Paraná Clube do pentacampeonato estadual de 1997 era dinâmico, veloz e marcava forte no meio-campo. Destaque para Régis, Ageu, Caio Júnior, Sidney, Mazinho Loyola e para um jovem chamado Ricardinho que surgia como grande promessa no time comandado por Rubens Minelli.

Rubens Minelli ainda ocupou vários cargos como dirigente antes de se aposentar definitivamente do futebol já nos anos 2000. Seu legado de conceitos e estratégias inovadoras para as equipes que comandou o coloca como um dos grandes treinadores de todos os tempos e mentor de nomes conhecidos do nosso futebol como o já citado Felipão, Muricy Ramalho, Cuca e vários outros técnicos mais conhecidos do grande público. Poucos foram tão revolucionários e inventivos como Rubens Minelli. Diante do seu legado, é impossível não estranhar o fato de que ele nunca tenha conseguido uma chance de comandar a Seleção Brasileira mesmo depois do seu tricampeonato nacional. Coisas do futebol brasileiro que segue com as mesmas falácias e as mesmas manias desde o tempo em que se amarrava cachorro com linguiça.

Minelli merece um lugar entre os cinco grandes treinadores da história do futebol brasileiro. Por tudo o que fez em mais de 30 anos, desde às mudanças nos treinamentos passando pelo estudo do adversário, chegando na sua capacidade de formar times competitivos e por muitos outros motivos que não cabem neste espaço.

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