PAPO TÁTICO: Sonolento e escaldado, Real Madrid joga pro gasto e se garante na decisão do Mundial de Clubes da FIFA

A sabedoria popular costuma dizer que gato escaldado tem medo de água fria. É assim na vida e também é assim no futebol. O Real Madrid entrou em campo nesta quarta-feira (19) para encarar o Kashima Antlers no Estádio Xeique Zayed, em Abu Dhabi, ciente de que qualquer cochilo ou sinal de soberba poderia ser fatal apesar da clara superioridade técnica. Ainda mais com o exemplo do River Plate diante da zebra Al Ain na terça-feira (18). E seguindo a filosofia milenar do “gato escaldado”, os merengues não deram sopa ao azar (apesar da atuação sonolenta e “pro gasto”) e se garantiram na final do Mundial de Clubes da FIFA ao vencer o escrete japonês por 3 a 1 com direito a “hat-trick” do galês Gareth Bale. Destaque para o lateral-esquerdo Marcelo (autor de duas assistências) e para o retorno de Casemiro ao time do Real Madrid depois de um mês entregue ao departamento médico do clube.

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Reprodução / Facebook / FIFA Club World Cup

O início do jogo trouxe mais do mesmo. No entanto, se o Real Madrid sofre com a irregularidade após as saídas de Zinedine Zidane e Cristiano Ronaldo do clube e toda a confusão formada com a contratação e a demissão de Julen Lopetegui, os merengues sobraram diante do Kashima Antlers. Os comandados de Santiago Solari se organizavam num 4-3-3 com Benzema no comando de ataque, Lucas Vázquez pela direita e Bale pela esquerda com a variação para um 4-4-2 com o retorno do camisa 17 para junto de Llorente, Modric e Toni Kroos. A equipe japonesa até que conseguiu ensaiar um equilíbrio nos primeiros minutos da partida em Abu Dabi (jogando com duas linhas na frente da sua área e tentando explorar os contra-ataques), mas bastou que Bale encaixasse a primeira tabela com Marcelo pela esquerda (setor de onde saíam as melhores jogadas do Real Madrid) e chutasse no canto esquerdo do goleiro Sun-Tae Kwoun.

Santiago Solari apostou no 4-3-3 para encaixar Benzema e Bale à frente de Llorente (substituto de Casemiro), Modric e Toni Kroos. Aos poucos o Real Madrid foi fazendo valer a sua superioridade em campo. Foto: Reprodução / FIFA TV.

Vale aqui destacar a liberdade que Marcelo ganhou com Santiago Solari. O camisa 12 foi visto com frequência aparecendo por dentro, quase como um ponta de lança à moda antiga, criando e participando das jogadas de ataque. O seu 4-3-3 lembra um pouco a formação clássica utilizada na Argentina na Copa do Mundo de 1974. Na época, o técnico César Menotti apostava num formação idêntica com dois pontas velozes e entrando em diagonal, um centroavante enfiado e dois “meias-volantes” aparecendo a todo momento na área adversária. As diferenças são a intensidade empregada pelo time de Madrid (embora tenha sido bem mais baixa do que nos tempos de Zidane) e o posicionamento de Marcelo. O frame abaixo (tirado momentos antes do terceiro gol do Real Madrid) mostra Toni Kroos e Modric se apresentando como opções de passe enquanto o camisa 12 recebe na frente da área e passa para Bale balançar as redes.

Marcelo tem liberdade para aparecer por dentro e até mesmo como um ponta de lança à moda antiga no esquema de Santiago Solari. Além do brasileiro, Modric e Toni Kross também pisam na área. Foto: Reprodução / FIFA TV.

Mas nem tudo são flores. Apesar da clara superioridade técnica, o Real Madrid ainda sofre com uma certa estagnação e com o declínio de jogadores como Sergio Ramos e Carvajal (bem abaixo do que já renderam). E ainda existe o fator Marcelo. Se o lateral brasileiro vai muito bem no ataque, ele ainda é o grande “mapa da mina” dos adversários do Real Madrid. Tanto que o gol marcado pelo atacante Shoma Doi nasceu do erro do camisa 12 no posicionamento defensivo. Apesar do Kashima Antlers ter ameaçado muito pouco depois de Yamamoto e Yang terem bisonhamente no segundo gol do time da capital espanhola, o setor é uma das preocupações de Santiago Solari. Como soltar Marcelo para o ataque e aproveitar todo o potencial ofensivo do jogador sem comprometer a defesa? Se um outro lateral for escalado para o camisa 12 passar para o meio, quem sairia do time? Esses são os dilemas do treinador do Real Madrid.

Apesar de ser muito útil no ataque, o posicionamento defensivo de Marcelo ainda é a grande dor de cabeça de Santiago Solari. Tanto que o único gol do Kashima Antlers saiu por aquele setor. Foto: Reprodução / FIFA TV.

É público e notório que o favoritismo na decisão do Mundial de Clubes da FIFA está todo do lado do Real Madrid. Mesmo com a zebra Al Ain prometendo se superar mais uma vez para tentar outro milagre diante da sua torcida. O exemplo da soberba do River Plate diante da equipe árabe ainda está bem viva na mente dos comandados de Santiago Solari. No entanto, apesar de todos esses fatores, é preciso reconhecer que os merengues ainda vivem um período de incerteza depois das saídas de Cristiano Ronaldo e Zinedine Zidane do clube. A base foi mantida, o belga Cortouis chegou para assumir a meta e poucos reforços chegaram, mas o sistema defensivo ainda é o grande calcanhar de aquiles da equipe. Esse talvez seja um dos motivos pelos quais o retorno de Casemiro foi tão celebrado. O brasileiro vinha fazendo falta pela fibra e pela capacidade de cobrir vários setores do campo. Mas ainda é pouco para voltar ao nível de antes.

A tendência é que o Real Madrid vença seu terceiro Mundial de Clubes seguido. O time segue escaldado e fazendo o básico num torneio sem tantas exigências. E o exemplo do River Plate é um dos motivos pelos quais os comandados de Santiago Solari não devem dar nenhuma chance ao valente Al Ain.

LEIA MAIS:

Kashima Antlers x Real Madrid: assista aos melhores momentos da partida

Casemiro pede respeito do Real Madrid pelo Al Ain na final do Mundial: “seriedade de sempre”

Bale pode superar recorde de Cristiano Ronaldo no Mundial de Clubes; confira