PAPO TÁTICO: Vasco segura o Ceará e se garante na elite do Brasileirão, mas precisa aprender com os erros cometidos em 2018

Se tem um time (dentre vários outros) que fez tudo para ser rebaixado nesse ano de 2018 foi o Vasco da Gama. O planejamento ruim, o elenco extremamente mal montado, as trocas de treinadores e (principalmente) a guerra política nos bastidores do clube prejudicaram e muito o desempenho da equipe cruzmaltina na temporada. Tanto que o Trem Bala da Colina chegou na última rodada do Campeonato Brasileiro com chance de ser rebaixado para a Série B pela quarta vez em dez anos. Muita coisa. Dentro de campo, o Vasco foi aplicado taticamente, criou chances e se defendeu bem para conquistar o pontinho salvador que o garante na elite do Brasileirão em 2019. No entanto, dirigentes, comissão técnica e jogadores precisam aprender com os erros cometidos nesse ano. Até para que a agonia não volte à São Januário.

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Carlos Gregório Júnior / vasco.com.br

É bom que se diga que o Vasco tentou propor o jogo na Arena Castelão com o 4-2-3-1 proposto por Alberto Valentim, mas o time logo esbarrou na marcação do Ceará de Lisca Doido. Maxi López era ameaça constante ao gol defendido por Éverson, mas não demorou muito para que o argentino se visse isolado no ataque assim que o Vozão começou a pressionar a linha defensiva formada por Luiz Gustavo, Werley, Leandro Castán e Willian Maranhão (volante improvisado na lateral-esquerda). O Vasco também criava pouco porque não tinha chegada forte pelos lados, já que os laterais pouco avançavam e sofriam com a movimentação de Felipe Azevedo, Ricardinho, Calyson e Arthur à frente da área cruzmaltina. Só que aos poucos o escrete cearense foi aceitando a marcação e diminuiu o ritmo e a boa marcação que vinha fazendo.

O Vasco tentou impor seu jogo nos primeiros minutos, mas o Ceará cresceu a partir do momento em que começou a forçar o erro do adversário ainda no campo ofensivo. O esquema de Lisca Doido optava por encaixes e pela pressão no homem da bola. Foto: Reprodução / TV Globo.

Sobre o Ceará, é preciso destacar o trabalho de Lisca Doido à frente do time. O treinador apostou num 4-2-3-1 que se defende em duas linhas de quatro jogadores à frente do gol do excelente Éverson. Ao mesmo tempo, a equipe coloca a bola no chão e trabalha muito bem as jogadas pelos lados do campo. Nesse ponto, vale destacar o papel que os laterais Samuel Xavier e Felipe Jonatan possuem dentro da estratégia de Lisca. Os dois sobem constantemente como autênticos pontas e buscam o espaço às costas dos laterais adversários. Ao mesmo tempo, o time joga em aproximação para facilitar o passe curto ou a bola enfiada entre os zagueiros. Ricardinho, Richardson e Juninho aparecem na frente como opção para continuidade das jogadas. Na prática, a equipe sabe muito bem como ocupar os espaços. Belo trabalho de Lisca.

O time de Lisca Doido sabe muito bem como trabalhar a bola e distribuir as jogadas. Os laterais abriam bem o campo, os atacantes seguravam os zagueiros adversários e todos os atletas se aproximavam para dar opção de passe. Foto: Reprodução / TV Globo.

O tempo foi passando e Alberto Valentim quase pagou pelo excesso de cautela ao trocar Willian Maranhão por Ricardo Graça e Raul por Desábato. O Vasco foi se fechando na sua defesa e apostou num contra-ataque que veio quando Andrey desarmou no meio-campo e serviu Marrony pela direita. O camisa 38 concluiu mal, em cima de Éverson e desperdiçou chance cristalina de abrir o placar. Nesse lance, é possível notar um dos conceitos de Alberto Valentim nas transições ofensivas. Maxi López fica mais à frente para segurar os zagueiros e os “pontas” (os meias abertos do 4-2-3-1) abrem o campo para receber o passe atrás dos zagueiros. Mesmo com as deficiências técnicas de alguns jogadores, o Vasco da Gama segurou o Ceará e se garantiu na elite do Brasileirão em 2019 apesar de todos os erros cometidos na atual temporada.

A melhor chance do Vasco na partida trouxe um pouco dos conceitos de Alberto Valentim. Andrey rouba a bola, Maxi López avança para fazer o pivô e os “pontas” se lançam no espaço vazio atrás da linha defensiva. Marrony acabou parando no bom goleiro Éverson. Foto: Reprodução / TV Globo.

Por mais que o sentimento na Colina Histórica seja de alívio, é preciso que todos repensem atitudes e revejam conceitos para o próximo ano. Todo o bom elenco construído no final de 2017 foi desmontado e o Vasco sofreu na Copa Libertadores, na Copa Sul-Americana e no próprio Brasileirão. Os jogadores que substituíram os que saíram era inferiores tecnicamente e a equipe cruzmaltina foi penando ao longo do ano para se salvar. Somando os interinos, o Vasco teve quatro treinadores: Zé Ricardo, Jorginho, Valdir Bigode e Alberto Valentim. Sem um planejamento sério e pessoas sérias à frente do clube, fica difícil manter qualquer equipe na primeira divisão. É como se os deuses do futebol resolvessem dar mais uma chance ao Trem Bala da Colina por conta dos serviços prestados. Mas uma chance com ressalvas e um ultimato.

A tarefa é simples: ou o Vasco se recicla, acaba com as brigas políticas e elabora um planejamento sério, ou o sofrimento vai continuar firme e forte em 2019. Aprender com os erros é essencial para recolocar o Trem Bala da Colina no caminho dos títulos.

LEIA MAIS:

Ceará x Vasco: Veja os melhores momentos da última rodada do Brasileirão

Brasileirão 2018: veja como terminou a classificação do campeonato

Vasco se salva do quarto rebaixamento e explode internet; veja melhores memes