Nei fala sobre sua carreira e destaca: “Jogo contra o Barcelona foi um divisor de águas”

Nei possui não só uma carreira importante, mas também uma história de vida impressionante. O agora ex-lateral direito, teve uma carreira com conquistas importantes, dentro e fora de campo, por clubes de peso no Brasil (com destaque para o Internacional). Mas ele, acima de tudo, sempre acreditou em si mesmo, inclusive superando prognóstico médico que poderia ter abreviado sua carreira. Lições de superação que servem como inspiração para não desistirmos dos nossos sonhos.

Flavio Souza
Colaborador do Torcedores.com.

Crédito: Rádio Grenal

Para quem reclama de falta de tempo, é interessante saber mais de um profissional que conciliou sua carreira como atleta com duas faculdades (administração e educação física).

Nesta entrevista exclusiva para o Torcedores, vocês podem saber um pouco mais sobre alguns fatos marcantes da carreira do ex-atleta, como a conquista da Libertadores pelo Internacional, eliminação para o Mazembe no Mundial de Clubes e planos para o futuro.

Torcedores – O que sua passagem pela Ponte Preta significou em sua carreira?
Nei – Foi onde tudo começou, onde aprendi muita coisa. Comecei na base e avancei nas categorias (disputando duas taças SP), até subir para o profissional, onde fui bem no campeonato Brasileiro de 2006. Sempre tive o respeito da torcida e fiz muitas amizades, tanto dentro como fora de campo. Infelizmente problemas, inclusive financeiros, fizeram com que o clube fosse rebaixado. Mesmo assim, consegui me destacar, ter um ótimo campeonato e ser vendido para o Internacional.

T – Você já comentou anteriormente a respeito do carinho que possui pelo Athletico Paranaense. Pode contar para nós um pouco mais sobre essa passagem?
N – Foi onde começou minha ascensão no cenário nacional do futebol. Cheguei em 2007, vindo da Ponte, sem ter tanto respeito no cenário nacional e, aos poucos, com tempo e trabalho, conquistei meu espaço. Tenho um carinho muito grande pela instituição e sou amigo pessoal do presidente Petraglia. Tenho ele como um pai, sendo grato por tudo que ele fez na minha carreira, junto do Fernando Carvalho (ex-presidente do Internacional). Da torcida do Athletico, sem palavras. Sempre me apoiaram e em uma das piores dificuldades da minha vida,minha lesão grave, eles continuaram do meu lado. A passagem que tive foi maravilhosa. Fui campeão paranaense, chegando a ser capitão nessa passagem. Sempre que volto a Curitiba, sou sempre bem quisto por todos. Uma passagem que levo sempre no coração.

T – A sua primeira lesão foi grave (rompimento dos ligamentos do joelho direito em 2008). Onde encontrou forças para não desistir e voltar a jogar, mesmo com a opinião dos médicos, afirmando que você não teria condições de voltar a jogar?
Nei – Levei um ano para me recuperar dessa lesão. Forças? Olha, acho que na vida, quem nasce para vencer, encontra forças em si mesmo. Mas tive apoio da minha família e da própria torcida, que chegou até a criar um site para dar apoio virtual a minha volta. Pela minha lesão, todo mundo achou que eu não voltaria a jogar. Isso foi dito por médicos e profissionais. Mas sempre que me desafiam, eu vou buscar. Procurei trabalhar, ter disciplina e motivação para dar a volta por cima e muito bem, realizando um ótimo campeonato pelo Athletico em 2009 (um ano depois da lesão) e consegui,inclusive, chamar atenção do Internacional, que me contratou ao final da temporada. Em uma fase onde somem os “amigos”, onde você não tem mais status e nem serventia, em um momento onde a imprensa, atletas e torcidas também desaparecem, o foco é motivar-se, acreditar em si mesmo, sem se preocupar com coisas de fora. Como eu tinha sonhos para buscar, coisas que por si só já me motivavam, eu fico feliz. Me considero vencedor nesse período da vida.

T – Você fez um ótimo Brasileiro em 2009 e teve a conquista da Libertadores em 2010.  Chegou a ter alguma frustração por não ter sido convocado para a seleção brasileira que foi para a Copa do Mundo? (NR – convocação final na Copa do Mundo contou com Maicon e Daniel Alves)
Nei – Não. Eu vivo meu momento. Sou uma pessoa que trabalha, me preocupo em fazer meu trabalho e realizar minhas conquistas. Considero que fui muito bem nos anos de 2009 e 2010. Inclusive,para mim, 2010 foi um ano de afirmação, onde já era visto com outros olhos. Sempre tive o sonho de jogar na seleção e consegui chegar a mesma quando Dunga me convocou. Sou realizado, sem frustração no futebol, exceto por não ter jogado fora do país. Quando lidamos com seleção ou qualquer coisa que venha do futebol, lidamos com escolhas. Escolhas que não devemos questionar. É a cabeça do treinador e das pessoas envolvidas. Nunca fiquei frustrado com nada, pelo contrário, sempre estive na torcida. Sou um cara muito realizado e contente, feliz pelo que consegui fazer.

T – Como foi conquistar a Libertadores pelo Internacional em 2010? O que passou pela cabeça após o apito final?
Nei – Olha, impossível descrever com palavras ou demonstrar seu sentimento diante de uma conquista tão importante. No cenário sul-americano, é a melhor conquista possível para um atleta. Foi a minha afirmação, por chegar em um time com o peso do Internacional, para suprir uma carência na lateral direita, ter um excelente campeonato e coroar isso com a conquista da Libertadores. Foi um momento único para mim, onde tive minha afirmação. Foi o título mais importante na minha carreira. O que passou na minha cabeça foi agradecimento. Ao apito final, eu me ajoelhei, tive o meu momento para olhar para o céu e agradecer por tudo que eu consegui fazer, por tudo que passei. Vindo de uma lesão e ter uma conquista, tudo que eu tinha era agradecer e continuar a trabalhar. Agora passar a vocês como foi, impossível. Só quem está lá dentro para vivenciar este momento.

T – Ainda falando da Libertadores, você teve a oportunidade de enfrentar grandes nomes do futebol sul-americano. Qual deles mais te marcou e por quê?
Nei – Foram vários jogadores que tive oportunidade de enfrentar mas, sem sombras de dúvidas, foi o Verón. Sempre fui fã do seu futebol, acompanhei sua carreira, por eu gostar do seu estilo de jogo e por ser um cara sério. Tive a oportunidade de jogar as quartas de final contra o Estudiantes e ele era quem ditava o ritmo do jogo. É prazeroso encontrar uma pessoa que você admira e ter oportunidade de jogar junto. Inclusive tive oportunidade de jogar com ele em Porto Alegre, em um jogo festivo do Dale (D’Alessandro – jogador do Internacional). Foi quem mais me marcou na Libertadores, por ter jogado contra. Para mim, foi um jogador fantástico.

T – Chegou a receber propostas para jogar fora do país?
Nei – É um tema que me assombrou durante toda minha carreira. Durante meu tempo como atleta, tive várias propostas de diversos clubes de ponta. Cheguei a ter sondagens do Barcelona, Valencia, Sevilla e Standard Liége (BEL), mas, infelizmente, minhas lesões impediram que eu fosse vendido para o exterior. Como eu citei no começo da entrevista, foi a única realização da minha carreira que não realizei (jogar no exterior) por conta do meu joelho. Mas tudo tem um porquê. Se eu não fui para o exterior, foi pelo fato que era para ter ficado no Brasil, conhecer pessoas que me mudaram a minha vida, me ensinaram a crescer e vêm me ensinando a cada dia. Não penso pelo lado ruim, tento levar pelo lado positivo.

T – Como foi enfrentar o Mazembe pelo Mundial de Clubes da Fifa em 2010? Em sua opinião, o que faltou?
Nei – Outra coisa que me assombra na minha carreira. Foi um jogo atípico. Tivemos mais finalizações, fomos melhores no jogo, mas não era nosso dia. Nem sempre o melhor vence no futebol. Foi mérito da equipe do Mazembe, pois não acredito em sorte, nunca vou acreditar. Não acho que tenha faltado algo, mesmo se estivéssemos jogando até hoje, a bola não ia entrar. Temos que ser inteligentes e humildes para olhar para trás e admitir que não deu. Existem coisas que você não consegue voltar atrás para melhorar. Tudo que passou na sua vida, que errou, temos que ter como aprendizado e tentar crescer com isso.

T – Em 2011, você teve a oportunidade de jogar contra o Barcelona pela Copa Audi. Como foi essa experiência para você? Afinal, são poucos jogadores que podem ostentar o fato de ter marcado gol contra o time espanhol.
Nei – Foi um jogo muito bom. Você vê a diferença nos times europeus, da mentalidade e inteligência tática dos jogadores. Em nenhum momento eles ficam nervosos, cumprem sempre suas funções. Encarei o Barcelona no auge, com uma posse de bola absurda. Tive oportunidade de marcar o gol muito mais por mérito do Leandro Damião e concluir a gol, acertando no único lugar que ela poderia entrar, senão o zagueiro iria tirar. Eu acredito em destino e as coisas aparecem para o lado bom. Eu vivia um momento ruim no Internacional, sendo cobrado pela torcida. Este jogo contra o Barcelona foi um divisor de águas para mim. Voltei completamente diferente para o Brasil, muito bem, com mais confiança, com a torcida do meu lado. Uma sensação diferente em jogar contra um dos melhores clubes do mundo e empatar com eles. Foi muito gostoso, uma experiência única, ainda mais tendo marcado gol nesta partida.

T – Teve algum problema com algum companheiro de time estrangeiro? Ainda mantém o contato com eles?
Nei – Eu nunca tive problema com nenhum atleta estrangeiro. Tenho contato com praticamente todos com quem joguei junto. Amizade com Guiñazú, Júlio dos Santos, D’Alessandro. A pessoa é que faz a amizade e não o país. Meu jeito de lidar, de brincar, ser justo e profissional acaba trazendo as pessoas para seu lado. Mesmo quem não tem uma certa amizade com outras, acaba tendo com você. Sempre fui um cara querido nos clubes onde passei. Difícil citar apenas um jogador. Ferreira, Tenório, que considero um irmão e que converso todos os dias, dentre outros que tive o prazer de jogar. Se deixar, eu ficaria até amanhã citando nomes e estaria sendo injusto de esquecer de alguém.

T – Agora aposentado, o que podemos esperar do profissional Nei?
Nei – Bom, deu para mim. Foram anos de carreira como atleta. Venho estudando há 6 anos para ser técnico. Podem esperar profissionalismo total, um cara dedicado, correto e justo. Sempre tentando melhorar o futebol, jogando para frente, em um futebol alegre. Futebol brasileiro. Alguém aguerrido, estudioso, que não gosta de perder e que tem gana de vitória. É o que vou tentar passar para meus atletas. Minha marcar registrada, que é o profissionalismo. Isso que vocês podem esperar do Nei daqui para frente.