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Opinião: O calvário da Portuguesa

“A Associação Portuguesa de Desportos foi rebaixada para a Série D do Campeonato Brasileiro na tarde deste domingo. Na condição de visitante, o tradicional time rubro-verde perdeu por 2 a 0 para o Tombense, resultado que provoca a queda à última divisão do futebol nacional.”(Notícia publicada pelo site ‘gazetaesportiva.com’ às 17h56 do dia 18 de setembro de 2016)

Adriano Oliveira
Colaborador do Torcedores.com.

Crédito: Divulgação: Facebook

Diferentemente de boa parte das coisas da vida, o futebol é uma opção. É você quem escolhe o time que deseja torcer. Na vida, não dá para escolher ser pobre ou rico, mas dá para escolher para qual time torcer. E já que você se propõe a amá-lo pelo resto de sua vida, por que cargas d’água escolher um time que não conquista um título há mais de 40 anos? Para que escolher sofrer numa das poucas coisas da vida em que se tem o privilégio de escolher? Por que a Portuguesa?

O torcedor da Lusa busca desesperadamente encontrar respostas para essas perguntas. E acredita tê-las cada vez que vê um velho torcedor lusitano, daqueles sisudos e de cara fechada, fazendo festa na padaria após uma vitória e fechando as portas mais cedo quando a derrota é mais dolorida. Só a paixão pelo futebol pode explicar o motivo de se torcer hoje para a Lusa. Uma prova de amor verdadeiro, quase inabalável. Sim, quase. Afinal, parece até que o calvário não terá mais fim.

Tudo começou em dezembro de 2013. O time aplicou um duro golpe até mesmo no mais fervoroso torcedor rubro-verde quando fora rebaixado para a segunda divisão do Campeonato Brasileiro no lugar do Fluminense, depois de conseguir se manter fora da zona da degola a duras penas dentro de campo. “Justamente do Fluminense”, diriam os mais inconformados. Um rebaixamento inesperado, decidido nos tribunais por gente que, muitas vezes, nunca chutou uma bola na vida. Uma tragédia na história do clube, o início de um pesadelo que se mostra interminável, ano após ano.Tudo porque, inexplicavelmente, foi escalado um jogador suspenso que atuou por cerca de 15 minutos na última partida do campeonato, pela última rodada, que já não tinha mais nenhuma importância. O típico jogo para cumprir tabela. A decisão do STJD, no Rio de Janeiro, aconteceu numa sexta-feira e o duelo diante do Grêmio foi no domingo, dois dias depois em Porto Alegre. O advogado do clube estava presente no momento do julgamento e da informação da sentença. O jogador Hevérton foi punido com suspensão e sequer poderia ser relacionado para a partida. Mas ele jogou por 15 minutos e, por causa disso, a Portuguesa perdeu 4 preciosos pontos que lhe causaram o descenso para a Série B de 2014 no lugar do Fluminense.

Desse dia em diante, tudo mudou para a Portuguesa. Pobretona, mergulhada em dívidas (que atualmente chegam a cerca de R$ 350 milhões), o time do Canindé fez outra fraca campanha em 2014 e foi rebaixado para a Série C de 2015. E como nada é tão ruim que não possa piorar, depois de quatro rebaixamentos em quatro temporadas, o fantasma parecia não desistir de assombrar os lusitanos. Dona de uma campanha sofrível na Série C de 2016, com apenas quatro vitórias, dois empates e nada menos que doze derrotas, somente 14 pontos conquistados, a Portuguesa estava à beira de mais uma queda, ainda mais dolorosa, já que dessa vez o destino seria a última divisão do futebol nacional.

Era tarde de domingo e, por ironia do destino, o time entrava em campo na cidade de Tombos, em Minas Gerais, com a missão de literalmente não levar o maior tombo de sua história diante do modesto Tombense, time que havia se tornado profissional apenas 17 anos antes. Apática, a Lusa sofreu o primeiro gol da partida decisiva aos 29 minutos do primeiro tempo. No mesmo instante, no Rio de Janeiro, o Botafogo de Ribeirão Preto fez 1 x 0 sobre o Macaé, que era concorrente direto da Portuguesa na luta para escapar da degola. Veio o segundo tempo. A Portuguesa não mostrava reação. Até que, aos 24 minutos, Gedeilson recebeu livre pela direita e cruzou. Após chute de um tal de Maradona no travessão, a bola, caprichosa, sobrou para Bileu que a dominou e finalizou com precisão. 2 x 0 para o Tombense. Estava se confirmando o derradeiro capítulo de um dramático fado lusitano, com todos os fantasmas que a assombram desde o polêmico episódio da escalação irregular de Hevérton em 2013.

– Seria tudo isso então um castigo para o que fizeram com a Lusa?, pergunta o torcedor.

Hoje, em 2019, seis anos depois do começo do calvário, a Portuguesa certamente enfrenta seu pior momento na história, dentro e fora de campo. Desde 2013, o time engatou marcha-a-ré e foi caindo, caindo e caindo ao ponto de ficar de fora da quarta e última divisão do Campeonato Brasileiro de 2017. Dois anos antes disso, o clube ainda foi rebaixado para a Série A2 do Campeonato Paulista e nunca mais conseguiu subir. Pelo contrário, a Lusa briga para não cair para a terceira divisão. Sem exposição na mídia, secou-se a fonte de patrocínios e de direitos de televisão. O clube teve seis presidentes em cinco anos e nenhum deles conseguiu arrumar a casa. Aliás, por falar em “casa”, a parte do terreno do Canindé que pertence à prefeitura de São Paulo foi levada a leilão por duas vezes. Mas não houve interessados. Para amenizar a situação e não fechar as portas, a diretoria então decidiu criar a “Feirinha da Madrugada da Portuguesa”, uma espécie de camelódromo no Canindé com espaço para mais de 5 mil estandes de vendedores ambulantes. O torcedor foi pego de surpresa quando certo dia chegou ao clube e se deparou com tratores e máquinas escavadeiras colocando abaixo o centro aquático do clube para a instalação do tal camelódromo.

As piscinas não estavam funcionando há mais de um ano mesmo, conformou-se.

O tão esperado “ressurgimento” da Portuguesa de Desportos tem início em janeiro de 2019, no estádio do Canindé. Diante do São Bernardo, a Lusa estreou na segunda divisão do Campeonato Paulista. A missão é não mais lutar contra o descenso, mas o retorno à elite do futebol estadual. Para isso, o clube decidiu contratar o técnico Luiz Carlos Martins, conhecido como o “Rei do Acesso”. Tarefa nada fácil, já que na disputa da Copa Paulista, outro longo torneio estadual cujo campeão ganha vaga na última divisão nacional do ano seguinte, o time do Canindé também deu vexame no ano passado e foi eliminado ainda na etapa de grupos. Dessa vez, o clube decidiu contratar jogadores experientes, como Kleiton Domingues, Hudson e Anderson Cavalo. Gerley (ex-jogador de Palmeiras e Bahia) e André Rocha (com passagens por Athletico-PR, Vasco e Palmeiras) são os nomes mais conhecidos. Todos eles com mais de 30 anos de idade.

A Portuguesa, o importante time de outrora do futebol paulista, espera encerrar seu calvário para deixar de fazer parte, simplesmente, do resto. Seu torcedor mais otimista só deseja que o time consiga de fato recuperar seu prestígio e que, em 2020, possa desempenhar dentro de campo seu papel com mais dignidade e devolver o orgulho ao seu torcedor no ano de seu centenário. Afinal, o fiel torcedor da Lusa ainda acredita que, felizmente, o futebol é uma opção.