Opinião: Santos, Sampaoli e o DNA ofensivo

12.510 gols. O Santos é o time que mais marcou gols na história do futebol.

Adriano Oliveira
Colaborador do Torcedores
Santos

Crédito: Jorge Sampaoli, novo técnico do Santos (Foto: Ivan Storti/Santos FC)

O que isso significa? DNA ofensivo, como é conhecido o estilo de jogo do time alvinegro praiano. Porém, é claro que perder ou ganhar faz parte do esporte, mas não se pode fugir de sua identidade, como aconteceu com o Santos nas mãos de treinadores desavisados, como Muricy Ramalho e Jair Ventura. Com Sampaoli, a história será diferente?

Exemplos?

Em 2012, mesmo com Ganso, Neymar e André em campo, o time do Santos, treinado por Muricy Ramalho, chegou a ter o pior ataque do Campeonato Brasileiro e sequer conseguiu vaga para a Copa Libertadores da América. Em 2013, ainda com Neymar, o time de Muricy deixou escapar um feito histórico de se tornar o primeiro tetracampeão paulista, ao perder a final para o Corinthians dentro da Vila Belmiro. Retranqueiro e pouco motivacional, a preocupação de Muricy era não levar gols ao invés de fazê-los, como manda a tradição santista.

Sob o comando de Jair Ventura, no primeiro semestre de 2018, o Santos teve 44,4% de aproveitamento, com 15 derrotas e 10 empates em 39 partidas. Futebol feio e sem brilho, que destoa demais da filosofia genuína do clube. Pior. Depois de demitido pelo Santos, Jair Ventura foi contratado pelo rival Corinthians e teve aproveitamento ainda menor de 33,3%, o pior rendimento de um treinador corintiano nos últimos dez anos, acima apenas ao da temporada de 2007, quando o clube foi rebaixado para a segunda divisão do Campeonato Brasileiro com Nelsinho Baptista. Ou seja, Jair Ventura não tinha nada a ver com o Santos.

Mas e o argentino Jorge Sampaoli? Será que, mesmo com todas as limitações do atual elenco, dará certo como técnico do time mais artilheiro do futebol mundial? Apresentado oficialmente na tarde da terça-feira, dia 18 de dezembro, o hermano afirmou em sua primeira entrevista coletiva:

Espero que eu esteja à altura da história do clube. Depois da seleção argentina, passei a buscar um lugar onde tivesse a ver com minha história no futebol (…) Desfrutar do jogo, protagonizar o jogo, fazer com que cada jogador do Santos tenha claro o lugar onde está (…) O motivo para desenvolver meu projeto, é o gosto do torcedor do Santos e minha maneira de jogar: para frente”, destacou um otimista Sampaoli. E finalizou: “Como profissional, preciso estar perto da resposta a essa expectativa. (…) É um clube que teve Pelé e Neymar, que nos obriga a jogar desta maneira”.

O técnico argentino disse que conhece o elenco santista e classifica sua chegada ao Brasil como o grande desafio de sua carreira. Algo que, desde então, tem provocado bastante euforia entre os torcedores, desde a calorosa recepção ao argentino no aeroporto, quando o treinador ainda nem havia assinado contrato.

O que isso significa? Mais uma vez, o tal do DNA ofensivo. Como se sabe, característica do Santos e das equipes treinadas por Sampaoli, que também gosta de usar jogadores das categorias de base, o que deixa ainda mais feliz o torcedor santista, já que o clube tem tradição de revelar novos talentos a cada temporada.

Aos 58 anos, Jorge Luis Sampaoli é considerado um técnico rodado e experiente. Em sua passagem pela Universidad de Chile “La U”, em 2011 e 2012, foi campeão dos torneios Apertura e Clausura, e da Copa Sul-Americana onde, devido ao futebol jogado pra frente e de toque de bola rápido, rendeu à equipe chilena na época o apelido de “Barcelona da América”. O treinador foi então para a seleção do Chile, onde fez uma boa campanha na Copa do Mundo de 2014 e conquistou a inédita Copa América de 2015. Antes de assumir a seleção argentina que disputou a Copa do Mundo na Rússia em 2018, trabalhou por duas temporadas seguidas no Sevilla, da Espanha. Vibrante e de temperamento forte, Sampaoli é fã de Marcelo “El Loco” Bielsa, que também já treinou a seleção da Argentina.

Ter ideias novas, postura firme para “chacoalhar” o elenco e usar tecnologia para análise de desempenho, também são fatores bastante favoráveis que contribuíram para que a diretoria do Santos fizesse todos os esforços possíveis para fechar o acordo com Sampaoli. Além de que crescem as chances de melhorar ainda mais o rendimento dos estrangeiros no time: o uruguaio Carlos Sánchez, o paraguaio Derlis Gonzáles e, principalmente, o costa-riquenho Bryan Ruiz, este último contratado como “estrela” de sua seleção e pouco utilizado pelo ex-técnico Cuca.

O Santos é o primeiro clube brasileiro no currículo de Jorge Sampaoli. Porém, outros clubes do país já tentaram contratar o argentino. O São Paulo, por exemplo, chegou a lhe oferecer “um contrato em branco”, segundo o próprio Sampaoli, logo depois da saída de Muricy Ramalho em 2015. Corinthians e Flamengo também já fizeram propostas ao treinador.

A chegada do ex-técnico do Chile e da Argentina ao Santos teve enorme repercussão na mídia. Foi destaque no noticiário esportivo internacional e liderou os “trending topics” do Twitter, em nível mundial. Para o torcedor santista, Jorge Sampaoli chega como um inesperado presente de Natal depois de uma temporada ruim. E sua principal missão será recolocar o Santos em seu devido lugar e, é claro, com a volta do DNA ofensivo. Afinal, como bem entende o novo treinador, é quase obrigatório jogar assim para um clube que revelou nada menos que Pelé e Neymar. E que já fez 12.510 gols na história.