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PAPO TÁTICO ESPECIAL: Relembrando o legado e o pioneirismo de Cláudio Coutinho

Estamos vivenciando um momento em que o estudo mais aprofundado do futebol se torna cada vez mais comum no futebol brasileiro. Diante disso, nada melhor do que relembrar o legado de um dos pioneiros da chamada classe de “técnicos estudiosos”. Se estivesse vivo, o grande Cláudio Coutinho estaria completando 80 anos de vida neste dia 5 de janeiro. Termos como “ponto futuro”, “overlapping” e “polivalência” se tornariam comuns no período em que comandou a Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 1978 e o lendário time do Flamengo no final dos anos 1970, dando início ao time que conquistaria o mundo em 1981. Inspirado na Holanda de 1974, Cláudio Coutinho se tornaria um dos grandes pioneiros no estudo teórico do velho e rude esporte bretão por essas bandas. E aqui, na coluna PAPO TÁTICO ESPECIAL, vamos relembrar algumas de suas passagens marcantes na sua curta, porém vitoriosa carreira.

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Reprodução / Facebook / Clube de Regatas do Flamengo

Cláudio Coutinho nasceu no dia 5 de janeiro de 1939 na cidade de Dom Pedrito, no Rio Grande do Sul. Ainda jovem, veio para o Rio de Janeiro, onde ingressou na carreira militar e mostrou seu interesse pela área esportiva. Em 1968, conheceu Kenneth Cooper, idealizados do método de avaliação física que leva o seu nome num Congresso nos Estados Unidos e foi convidado pela antiga Confederação Brasileira de Desportos para ser o preparador físico da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 1970, no México. Depois de atuar como supervisor no Vasco e na Seleção Peruana e de ser coordenador técnico do Brasil na Copa de 1974, substituiu Zizinho no comando da Seleção Olímpica que viria a ficar com o quarto lugar nos Jogos de Montreal, em 1976. Sua equipe jogava num 4-3-3 típico daqueles tempos e contava com nomes conhecidos do torcedor como o goleiro Carlos, Edinho, Júnior (que jogaria no meio em algumas partidas), Batista e os velozes Marinho e Júlio César “Uri Geller”.

Cláudio Coutinho comandou a Seleção Olímpica nos Jogos de 1976 e montou um 4-3-3 típico daqueles tempos com muita força pelos lados e bom toque de bola. Destaque para a presença de nomes que se tornariam famosos como Carlos, Edinho, Júnior, Batista, Marinho e Júlio César no time que ficou com o quarto lugar na competição.

Ainda em 1976 assumiria o comando técnico do Flamengo. Mas o grande salto na carreira viria no ano seguinte, quando substituiu Osvaldo Brandão na Seleção Brasileira. Apesar de ter trazido conceitos completamente novos para o debate nas mesas redondas da época, sua equipe recebeu muitas críticas na Copa do Mundo de 1978, na Argentina. Até hoje é lembrado por ter deixado Falcão, Marinho Chagas e Júnior de fora da lista final e ter apostado em nomes como Chicão e Rodrigues Neto e na improvisação do zagueiro Edinho na lateral-esquerda. O almirante Heleno Nunes (então presidente da CBD) teria influenciado na escalação do escrete canarinho em algumas partidas (fato que explicaria as entradas de Jorge Mendonça e Roberto Dinamite nas vagas de Zico e Reinaldo respectivamente). Apesar de não ter perdido nenhuma partida, Cláudio Coutinho não foi perdoado pelos críticos e virou motivo de piada quando falou que o Brasil era o “campeão moral” da Copa do Mundo.

Coutinho trouxe termos como “overlapping”, “ponto futuro” e “polivalência” para a Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 1978. Apesar do terceiro lugar, sofreu críticas da imprensa e a interferência direta da CBD na escalação do time. Destaque para Dirceu voltando para o meio-campo para ajudar na criação das jogadas.

Voltando ao Brasil, Cláudio Coutinho levaria o Flamengo a conquistar o título que viria a inaugurar uma era de ouro no clube. O Campeonato Carioca de 1978 foi conquistado depois que o time foi campeão dos dois turnos da competição e de uma vitória épica sobre o forte Vasco da Gama no dia 3 de dezembro daquele ano. O técnico não contava com o centroavante Cláudio Adão e armou uma espécie de 4-2-2-2 no Flamengo. Carpegiani (reforço vindo do Internacional no ano anterior) e Adílio protegiam a defesa, Zico e Tita armavam o jogo e os rápidos Marcinho e Cléber ficavam mais à frente. Após o jogo embolado no primeiro tempo, Cláudio Coutinho mandaria o Galinho para o comando de ataque com Tita mais recuado. Mas a vitória sobre o Vasco (que jogava com a vantagem do empate para levar o turno) só viria com o gol antológico de Rondinelli após escanteio cobrado por Zico. Aquele Campeonato Carioca marcava o início de uma trajetória gloriosa no Flamengo.

O primeiro título de expressão de Cláudio Coutinho veio com o Flamengo no Campeonato Carioca de 1978. Sua equipe jogou numa espécie de 4-2-2-2 com Zico aparecendo no comando de ataque Júnior apoiando com firmeza e categoria. O gol do título (e da vitória sobre o Vasco) viria com a cabeçada inesquecível de Rondinelli.

Apesar das críticas e do fracasso na Copa do Mundo de 1978, Cláudio Coutinho seguiu no comando da Seleção Brasileira até 31 de outubro de 1979, quando viu sua equipe ficar na terceira posição da Copa América daquele ano. As críticas pelos maus resultados e pela dificuldade em implementar seus conceitos no escrete canarinho acabariam sendo determinantes para a sua saída e eventual chegada de Telê Santana em 1980. Mas na sua última partida (o empate em 2 a 2 diante do futuro campeão Paraguai em pleno Maracanã), Cláudio Coutinho escalaria a Seleção Brasileira num 4-2-2-2 sem centroavante fixo, com Sócrates e Palhinha se revezando no comando de ataque e abrindo espaços para a chegada de Tita (mais recuado) e Zé Sérgio pelos lados. O esquema tático serviria de inspiração para Jorge Vieira montar o Corinthians campeão paulista de 1979 com os mesmos Sócrates e Palhinha se revezando no ataque e abrindo espaços para a chegada dos pontas Romeu Cambalhota e Píter em diagonal.

Cláudio Coutinho foi demitido da Seleção Brasileira após o terceiro lugar na Copa América de 1979. Mesmo assim, sua equipe já trazia conceitos modernos para a época, como o revezamento de Sócrates e Palhinha no comando de ataque e a valorização da posse de bola ao optar por dois volantes de mais qualidade.

O maior título da carreira de Cláudio Coutinho viria em 1980 com a conquista do Campeonato Brasileiro pelo Flamengo numa partida memorável diante do não menos talentoso Atlético-MG de Procópio Cardoso. As duas equipes jogavam no 4-3-3 com um dos pontas voltando para auxiliar na criação das jogadas no meio-campo. No Fla, este homem era Tita. No Galo, era Éder Aleixo. Mas foi o escrete da Gávea quem saiu com o seu primeiro título nacional depois de uma atuação mágica de Zico, Júnior e de Nunes, o artilheiro das decisões. O centroavante se encaixou como uma luva no esquema tático de Cláudio Coutinho pela sua movimentação e a tal da polivalência. O camisa 9 abria espaços e permitia que Zico, Andrade, Tita, Toninho e Júnior chegassem no ataque para concluir a gol. Se Reinaldo, mesmo machucado, desequilibrava pelo lado do Atlético, Nunes fazia o mesmo pelo lado rubro-negro e se transformaria em peça importantíssima daquele Flamengo campeão de tudo nos anos 1980.

O Flamengo campeão brasileiro de 1980 jogava no 4-3-3 típico daqueles tempos com o recuo de um dos pontas (Tita) para ajudar na criação das jogadas e dois volantes com trato com a bola. Mas quem desequilibrou de verdade naquela decisão contra o Atlético-MG foi o atacante Nunes, o João Danado.

Cláudio Coutinho deixaria o Flamengo no início de 1981 rumo ao futebol dos Estados Unidos para comandar o Los Angeles Aztecs. Semanas antes do Fla vencer o Liverpool na final do Mundial Interclubes, o treinador viria a falecer precocemente no Rio de Janeiro enquanto praticava a pesca submarina, um dos seus hobbies prediletos. O arquiteto e criador daquele time não veria sua maior obra conquistar a América e o mundo jogando um futebol alegre e de toque refinado sob a batuta de Paulo César Carpegiani, um dos seus pupilos. Mesmo não sendo tão lembrado pela grande mídia nos dias atuais, o jornalista Jonathan Wilson (autor do seminal “A Pirâmide Invertida”) atribui a Cláudio Coutinho uma das primeiras escalações de um 4-5-1 bem sucedida no futebol. E a primeira referência ao 4-2-3-1 vem do time comandado por Carpegiani, herdeiro daquele grupo. O mesmo Jonathan Wilson deixa clara a inspiração na Holanda de Rinus Michels quando cita o termo “polivalência” na descrição daquele Flamengo histórico.

Cláudio Coutinho revolucionou treinamentos (dito pelo próprio Zico ao jornalista Paulo César Coelho no livro “Escola Brasileira de Futebol”) ao colocar um time para treinar sem um adversário e explicar as movimentações que queria ver em campo, fato bem normal nos dias atuais. Também trouxe inovações como a escalação de um zagueiro na lateral e um lateral na ponta (outras estratégias bastante repetidas hoje em dia). E tudo isso sem ter sido um jogador profissional. Coutinho era sim um estudioso. Mas amava o esporte como pouco. Ele não somente foi o mentor do Flamengo campeão de tudo nos anos 1980, mas iniciou uma nova era: a da valorização dos estudos no futebol brasileiro.

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