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A participação histórica do Avenida na Copa do Brasil e a saga de quem seguiu o clube até São Paulo

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Jornalista formado na Universidade Federal de Santa Maria (2018), 22 anos, e fanático pelo futebol bem jogado para além das quatro linhas. Twitter: @luisfernanfilho/Insta: @luisfrrs

Crédito: Foto: Rodrigo Nascimento

Desde a noite de 13 de fevereiro, um clube situado em Santa Cruz do Sul, no estado gaúcho, já vinha fazendo história na Copa do Brasil 2019. O Avenida, pouco conhecido pelos torcedores brasileiros até então, venceu o Guarani (SP)- campeão brasileiro- pelo placar mínimo, na primeira fase, com gol no último segundo de jogo. A partir desse lance, tudo mudou para o lado verde da cidade.

O Periquito- como é chamado carinhosamente pelos torcedores- entrou para o hall dos clubes que, de alguma forma, marcaram a competição e todas as torcidas que simpatizam com a bravura de um time que não desiste de enfrentar alguém com maior projeção nacional. O Avenida insistiu em seguir fazendo história, mesmo que a trajetória já fosse considerada especial por sua primeira participação na Copa do Brasil, além de estar participando de forma inédita de uma competição nacional em 75 anos.

O gol do atacante Flávio Torres, aos 46 da segunda etapa, no Estádio dos Eucaliptos, pela primeira fase da competição, colocava panos quentes em uma semana conturbada para o Avenida, que havia sofrido uma goleada por 6 a 0 diante do Grêmio no Gauchão. Jogadores e comissão técnica se uniram para a partida diante do Bugre, até porque a classificação inédita teria o ganho financeiro nos cofres da equipe que ainda jogará a Série D em 2019.

A vitória inacreditável e a viagem marcada para SP

Com o triunfo nos Eucaliptos, a torcida inflamou o coro de que o confronto na segunda fase da competição, em plena Arena Corinthians, seria a página mais efervescente da história avenidense. Após a vitória diante do Guarani, a partida histórica em São Paulo aconteceria em menos de uma semana. Estrutura, plantel milionário, experiência em Copa do Brasil e com uma das maiores torcidas do país, o Timão era o favorito natural do duelo. Porém, isso só parecia importar para os analistas e comentaristas de plantão, ou alguém despido da paixão por um clube de futebol que começava a fazer história.

Os dias que antecederam o jogo na capital paulista, sobretudo, foi uma espécie de ‘corre-corre’ por parte da imprensa local e os torcedores que, diga-se de passagem, sequer imaginavam enfrentar um gigante do futebol brasileiro tão cedo. Esse foi o caso da torcedora Márcia Melz, 32 anos, que presenciou a classificação do clube na primeira fase, em Santa Cruz do Sul. Ela mal sabia que estaria presente na partida mais inimaginável para os torcedores do Avenida, que seria jogada na Arena. Aliás, após a vitória inédita na competição, Márcia nem sequer lembrava que tinha viagem a trabalho marcada para São Paulo, ocasionalmente, na mesma semana em que o time de coração estaria na capital.

“Quando o Avenida conquistou a classificação no jogo contra o Guarani aqui em Santa Cruz do Sul, eu já estava com viagem de trabalho a São Paulo confirmada. A partir daí, comecei a me organizar para conseguir o ingresso e também ajustar minha rotina para ir até Itaquera. Quando avisei em casa que estava tudo certo para ir ao jogo, a alegria dos meus pais foi quase como marcar um gol em final de campeonato!”, brincou.

A história da torcedora é comum a boa parte dos torcedores que acompanham os times pelo interior. Cresceu indo nos Eucaliptos ainda com o pai, fanático pelo clube e que desde cedo a incentivou para comparecer aos jogos do periquito. A paixão pelo clube, segundo ela, é uma herança de família.

“Meu pai, além de torcedor, durante muito tempo fez parte da charanga do clube e a paixão dele pelo futebol me fez frequentar o estádio e torcer pelo Periquito desde pequena. Com a carteirinha na mão, cheia de orgulho, lembro de ir aos jogos com meu pai, tios, primos depois de almoçar na casa da minha vó que era vizinha do estádio”, lembrou Márcia.

A história que já estava sendo escrita, ali, aos olhos dos torcedores avenidenses desde a primeira fase, ganhava um sentimento especial a quem pudesse presenciar a partida na capital paulista. Afinal, seriam mais de 1.200Km entre Santa Cruz e a tão sonhada partida que gravaria na memória e na história do clube, o capítulo mais memorável. Mesmo que Márcia fosse a trabalho para São Paulo, todos os pensamentos estavam no duelo contra o Corinthians. Uma equipe nunca joga sozinha. Foi preciso criar um cenário de batalha para que o Avenida chegasse aonde chegou, pela primeira vez em mais de 75 anos da sua história.

Nem a doença impedirá de seguir o AVENIDA

Assim como os torcedores que puderam viajar a São Paulo, existem aqueles que representam todo o restante da torcida, detalhando os lances e as emoções da partida inédita entre as equipes. Nisso tudo, a imprensa local também não deixou de fazer parte do momento mais importante do Avenida na Copa do Brasil. Estar presente naquela transmissão representava, profissionalmente, uma experiência valiosa para os jornalistas de Santa Cruz.

A repórter esportiva, Sabrina Heming, 24 anos, da Rádio Santa Cruz, também viajou a São Paulo para acompanhar todos os detalhes do confronto pela competição. A jornalista que havia trabalhado na assessoria do Avenida tempo atrás, presenciou internamente o ótimo 2018 do periquito e, inclusive, a boa campanha no Gauchão, que levou o clube à semifinal e a Taça da Federação Gaúcha- a Copinha- que garantiu o time na Copa do Brasil desta temporada. Ao seu ver, a vitória válida pela primeira fase foi um momento épico pra todos que presenciaram o feito inédito.

“Sabia-se que naquele jogo o gol era essencial. E acredito que da forma como foi, aos 46 da segunda etapa, deixou todos muito emocionados. Isso inclui a própria imprensa. A repercussão ali já foi muito positiva, até pelo fato de já se saber que o adversário seria o Corinthians. O clima começou a se desenhar muito positivamente com o apoio de todos os lados, todo mundo se ajudando para que mais esse momento histórico fosse contado e vivido da melhor maneira possível”, relatou a repórter.

No entanto, Sabrina poderia não ter vivenciado esse momento memorável, tanto é que nem sequer deveria ter viajado por recomendações médicas. Esforços a parte, a repórter decidiu viajar de qualquer maneira, afinal, era uma batalha épica a ser contada pela própria profissional que, pela primeira vez, cobriu um jogo fora do Rio Grande do Sul.

“Viajei com o computador, câmera, celular, gopro, bateria portátil e muita vontade de contar todos os detalhes desse momento histórico. Porém, eu não deveria ter ido, pois, antes da partida diante do Guarani, eu fui diagnosticada com início de pneumonia. Viajei sem o médico saber, mas tomei a medicação e voltei ilesa”, brincou.

Os 45 minutos da vitória

Ao chegar na Arena Corinthians, o elenco do Avenida tinha a missão de representar o contingente de torcedores no interior gaúcho que sonhariam em ver o clube que amam numa situação daquelas. Antes mesmo da partida, o periquito já tinha como referências outros clubes do estado que haviam feito história nas edições anteriores da Copa do Brasil, cada um da sua forma. O maior deles, com toda a certeza, sendo o Juventude campeão em 1999 sobre o Botafogo, diante dos 100 mil torcedores abarrotados num Maracanã que parecia ganhar vida.

Naquela noite de 20 de Fevereiro, há uma semana, o Avenida entrava em campo com o apoio de todos os torcedores avenidenses, mesmo aqueles que não se fizeram presentes na Arena, mas que lotavam os bares e as residências em Santa Cruz. O jogo que recém começava, logo com 10 minutos, já reservava dois gols do Avenida em plena Arena. No primeiro de Flávio Torres-herói na primeira fase- aos quatro minutos, e Tito faziam virar realidade um sonho guardado a sete chaves dentro de cada torcedor do periquito. “O primeiro gol até agora não consigo lembrar como aconteceu, ainda estávamos na euforia de estar lá, nem tinha dado tempo para sentar”, relatou a torcedora após o tento surpreendente do time no início da partida.

“Era um sonho ver aquele placar marcar 2 a 0. Nunca vai sair da minha cabeça e de nenhum avenidense. O que aconteceu, logo depois, talvez fosse o esperado diante de um adversário daquele tamanho, mas aqueles dois gols, aqueles 45 minutos de vitória, foi um sonho em forma de realidade e é disso que jamais vamos esquecer”, afirmou Márcia.

Na visão de quem esteve na cobertura midiática do acontecimento, Sabrina admitiu o nervosismo pelo jogo inédito e a responsabilidade em descrever as emoções da partida a todos os torcedores que ficaram em Santa Cruz. A repórter viu com bons olhos os dois primeiros gols do periquito, porém, permaneceu cética com os primeiros 45 minutos, mesmo que o nervosismo natural tomasse conta.

“Eu estava nas cabines e tremia mais que ‘vara verde’, o colega chegou a brincar que nunca viu eu digitar devagar na vida, que isso só aconteceu lá. Mas, mesmo com a virada no final, nos tirando a esperança da classificação, saí de lá muito orgulhosa da cobertura e do que presenciei. Tanto como torcedora ou jornalista, o que o Avenida fez na Arena, foi algo que eu vou ter muito orgulho de contar para os meus filhos no futuro”, completou.

“Orgulho” é o que define em palavras a atuação do clube gaúcho na Copa do Brasil, especialmente a partida diante do Corinthians que, por detalhes, não se transformou na maior vitória do Avenida em competição nacional. Esse foi o sentimento de muitos torcedores avenidenses depois da virada tomada por 4 a 2. Inclusive, no caso do torcedor e Conselheiro, Ivan Textor, 60, que é conhecido dentro da cidade e que vivenciou as diversas fases do clube nas últimas décadas.

Ivan Textor, torcedor e conselheiro do Avenida/Arquivo pessoal

O conselheiro do clube afirmou que foi relacionado para a viagem a São Paulo, porém, brincou ao dizer que mesmo “se não fosse convidado, iria de qualquer maneira como torcedor fanático do clube”. Em Santa Cruz, ele é conhecido como “Ivan do Avenida”, sendo um dos torcedores mais queridos dentro da instituição. Ainda não acreditando em tudo o que aconteceu nas últimas semanas, é mais um torcedor avenidense que jamais esquecerá dos 45 minutos iniciais em Itaquera, ou melhor, que gravou nas retinas uma partida que antes parecia ser possível apenas nos melhores sonhos.

“A sensação foi a melhor possível. Foi emocionante estar em São Paulo acompanhando o meu Avenida pela primeira vez em uma Copa do Brasil. O resultado pra mim foi secundário, o que fica mesmo é a lembrança extraordinária. Um dia os meus netos irão dizer que o vovô esteve lá”, completou.

Para o clube que se desenvolveu no Bairro Várzea, em Santa Cruz, as páginas seguem sendo escritas para além da Copa do Brasil. O que fica, portanto, é o sabor meio amargo da derrota diante do Corinthians, mas também a satisfação dos torcedores em presenciarem uma equipe que foi do anonimado a “mais querida” do Brasil por uma noite de quarta-feira.

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