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Copa do Brasil realiza sonho de torcedores que moram longe dos times; conheça histórias

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Colaborador do Torcedores

Crédito: Tico (de óculos e peruca), Marcele (de camisa verde) e Diego: entre amigos, realizando o sonho de ver o Flamengo (arquivo pessoal/Diego Souza)

Torcer para um grande clube e morar no interior, muitas vezes em outro estado, é saber que o time do coração será acompanhado quase sempre por meio de televisão, rádio, jornais ou internet. Ir à beira do campo e ver de perto um jogo da equipe favorita é um sonho muitas vezes realizado pela Copa do Brasil, que leva os tradicionais times de massa às mais diversas regiões do país. A semifinal entre Flamengo e Ipatinga, em 2006, ofereceu essa oportunidade a flamenguistas do interior de Minas Gerais.

“O Flamengo, para mim, sempre foi algo muito grande. O que a molecada de hoje sente quando vê Barcelona e Real Madrid, como algo inatingível, isso para mim, lá no Vale do Jequitinhonha (MG), era o Flamengo. Rio de Janeiro e Flamengo eram coisas muito distantes de mim”. O relato é do torcedor Diego Souza (que não é “aquele”!), flamenguista desde a infância em Araçuaí (MG). A grandeza que o Rubro-Negro transmitia a ele, antes inalcançável, pôde ser vivenciada em 10 de maio de 2006.

Diego era um estudante de jornalismo em Governador Valadares (MG) em 2006, e estagiava no caderno de esportes do diário local, quando recebeu um telefonema do amigo Agnaldo Ribeiro, mais conhecido pelo apelido, Tico, o convidando para ir ao confronto entre Ipatinga e Flamengo, jogo de ida de uma das semifinais da Copa do Brasil daquele ano. Assim que foram definidas as semifinais, Tico comemorou a possibilidade de ver o Flamengo pela primeira vez sem a mediação de uma tela de TV. A irmã de Tico, Marcela Ribeiro, também participaria dessa experiência inédita.

Marcela conta, com orgulho, que foi a responsável por transformar toda a família em rubro-negra: “Engraçado que nunca me interessei em torcer pelos times de Minas. Foi em 1994, quando fui morar no Sul de Minas, que virei Mengão e contagiei a família toda. Até minha mãe é Mengão”. Marcela veio para Governador Valadares em 1997, onde Tico já morava desde o ano anterior, e onde os irmãos – graças à paixão comum pelo Flamengo – fizeram amizade com Diego. Para Diego, a importância do Flamengo esteve presente até mesmo na escolha da profissão. Foi por causa do clube de coração que ele deixou Araçuaí e se mudou para Governador Valadares, onde foi para estudar jornalismo: “Fiz jornalismo por causa do esporte. Quando eu era moleque, queria estar no esporte. Mas sempre fui muito gordinho, desde a infância, e sabia que pra ser jogador de futebol eu não tinha chances. Então eu queria ser jornalista, pra um dia cobrir o Flamengo”.

A OPORTUNIDADE

O sonho de infância de ir a um jogo do Flamengo finalmente aconteceu quando uma surpreendente equipe do interior de Minas Gerais, o Ipatinga, chegou à semifinal da Copa do Brasil de 2006, depois de eliminar Botafogo e Santos em fases anteriores. A cidade de Ipatinga fica a cerca de 100 quilômetros de Governador Valadares. “Foi uma sensação muito especial, como se estivesse sonhando um sonho maravilhoso. Pois até então, ver meu time ao vivo, jogando, era praticamente impossível. Eu agradeço o time do Ipatinga. Ver meu time ali, aqueles jogadores que até então só via na TV, foi massa demais”, lembra Marcela.

Ao fim da tarde daquele 10 de maio de 2006, Diego, Tico, Marcela e mais dois amigos pegaram a BR-381 rumo ao Vale do Aço. “Fomos em cinco pessoas num Celta. Um carro pequeno, mas para ver o Flamengo vale tudo. Outras pessoas já tinham experiência de jogo, eles sabiam onde comprar ingresso. Eu não sabia nada, eu fui levado”, Diego se recorda. “Eu sonhava em ir ao Maracanã, posteriormente eu realizei esse sonho por duas vezes. O Ipatingão veio como oportunidade, eu não podia perder”, complementa Tico.

O JOGO

Chegando ao Ipatingão, tudo era um espetáculo para quem só conseguia acompanhar o time de coração pelo rádio ou pela TV. “Lembro de quando eu subi as escadas do Ipatingão e avistei a torcida, foi uma explosão. E quando entraram em campo os jogadores então, aí a emoção foi maior ainda”, conta Tico. Mesmo na condição de visitante, Diego se lembra que a torcida flamenguista compareceu em bom número: “Eu me lembro de ver a torcida do Flamengo chegando. Mesmo sendo um jogo aqui em Minas, em Ipatinga, era muita gente. Eu estava deslumbrado. A torcida do Flamengo não era maioria, o ipatinguense abraçou o time do Ipatinga. O Flamengo não teve a maior torcida, mas nosso lado estava completamente lotado. Veio a preparação dos jogadores, e ver aquilo tudo foi emocionante”.

No gol de Obina, aos 38 minutos do primeiro tempo, a emoção foi totalmente extravasada. Tico define aquele momento como a melhor sensação do mundo: “Não sei nem explicar isso, é muita paixão envolvida. A gente mora no interior, e meio que só acompanha pela TV. Quando você tem a oportunidade de ir ao estádio ‘do lado’ da sua casa, não há coração que resista”. Diego lembra de ter ido às lágrimas após o gol: “Foi um lance com o Léo Moura, e o Obina meteu o gol. Aí foi muita emoção. Eu chorei à beça. Estava todo mundo rindo, me dizendo que era apenas um gol. Mas é o primeiro gol do Flamengo que eu vejo ao vivo! Na hora do gol eu vi o Obina comemorando, mas eu me virei para ver a torcida vibrando. Porque era um barulho ensurdecedor, com muita fumaça. Eu fiquei preocupado e ao mesmo tempo feliz, pensando ‘que loucura desse povo todo’. Foi um êxtase, muito bacana”.

O Ipatinga conseguiu empatar aquela partida aos 46 minutos do segundo tempo, com Camanducaia, mas nem isso tirou a alegria de ir ao estádio ver o Flamengo em uma semifinal de Copa do Brasil. Para Tico, o empate em Minas Gerais não abalou a confiança flamenguista para chegar à final e conquistar o título.

Cada detalhe daquele Ipatinga 1×1 Flamengo é especial para Diego. Até mesmo a camisa que ele vestiu na ocasião. O “manto sagrado” o acompanhava desde 1996. Foi o primeiro uniforme oficial do Flamengo em seu guarda-roupas, comprado em Teófilo Otoni (MG), pois não era vendido em Araçuaí, e só foi adquirido graças a uma vaquinha feita pela mãe, a madrinha e uma tia de Diego. A vestimenta, dada a um adolescente acima do peso, agora estava larga no corpo de um adulto que tinha passado por cirurgia de redução de estômago. “Era um preço absurdo [em 1996]. Na época eram 69 reais, mas isso era como os 250 reais de hoje, que também é um preço puxado. Tenho essa camisa até hoje, está guardada em Araçuaí. Foi a primeira camisa original do Flamengo que eu tive, e foi também com ela que eu vi o Flamengo pela primeira vez. Talvez eu faça um quadro com ela”.

O TÍTULO

Para o jogo de volta, no Rio, o Rubro-Negro sentiu dificuldades mas conseguiu vencer o time do interior de Minas. A vitória por 2 a 1 qualificou o Flamengo para decidir o título em dois jogos contra o Vasco. Com mais dois triunfos, por 2 a 0 e 1 a 0, o time da Gávea conquistou a segunda Copa do Brasil em sua história. Entre as semifinais e os clássicos que decidiram aquele título houve uma pausa para a disputa da Copa do Mundo, na Alemanha. Nesse intervalo de mais de um mês, Waldemar Lemos, que havia conduzido o Rubro-Negro até a final, deixou de ser o treinador do Flamengo. O substituto escolhido foi Ney Franco, que havia feito a campanha histórica com o Ipatinga. “Eu achei que foi sacanagem com o Waldemar. Gosto do Ney Franco, porque ele ganhou títulos pelo Flamengo. Mas, para mim, aquela Copa do Brasil é do Waldemar”, reconhece Diego. Ele, Tico e Marcela, que puderam ir a ao menos um dos jogos na competição, também se sentem parte do título.

O Flamengo voltaria a erguer a Copa do Brasil em 2013, superando o Atlético-PR na final. Em 2019, o time do Rio de Janeiro buscará o quarto troféu em mais uma edição do torneio. Como está classificado para a Libertadores deste ano, a estreia flamenguista será nas oitavas de final.

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