Democrata-GV entrou no mapa do futebol ao ser o primeiro time do interior de Minas a disputar a Copa do Brasil

Nas primeiras edições da Copa do Brasil, apenas campeão e vice de Minas Gerais tinham vaga na competição. Entre 1989 e 1991, apenas Cruzeiro e Atlético-MG representaram o estado no torneio. Essa hegemonia foi quebrada em 1992, pelo Democrata-GV, vice-campeão mineiro em 1991, atrás apenas do Galo. Ao se tornar o primeiro time do interior de Minas na competição, a equipe de Governador Valadares entrou no mapa do futebol brasileiro. Até hoje, pela Copa do Brasil, o Democrata nunca perdeu uma partida em casa.

Thiago Ferreira Coelho
Colaborador do Torcedores

Crédito: Em 1995, o Democrata-GV teve sua melhor participação na Copa do Brasil, quando eliminou um time da Série A (Foto: assessoria de comunicação do Democrata-GV)

Atualmente no módulo 2 do Campeonato Mineiro, a Pantera teve sua melhor fase na primeira metade da década de 1990 – entre 1991 e 1994 o Democrata foi a principal força fora de Belo Horizonte a disputar o Campeonato Mineiro, e conquistou por quatro anos consecutivos o título simbólico de “Campeão do Interior”. A supremacia entre os pequenos de Minas abriu oportunidades para disputar competições em nível nacional. Dos atletas que passaram pelo estádio José Mammoud Abbas, o Mamudão, alguns se transferiram para equipes de ponta e se tornaram campeões de torneios importantes, como o Brasileirão e a Libertadores.

MARCO HISTÓRICO

Artilheiro do Campeonato Mineiro em 1991, o atacante Gilmar Estevam estava no elenco que enfrentou o Paraná Clube na primeira fase da Copa do Brasil em 1992. Para ele, disputar a competição foi um marco histórico para o time e para a cidade. “Era muito difícil conseguir uma vaga na Copa do Brasil, tinha que ser campeão ou vice [do estadual]. Para um clube do interior, era muito difícil conseguir. Nós fizemos a façanha de ser vice, e hoje o Democrata tem um nome até muito mais conhecido no Brasil. Aquela foi a primeira vez, e nós ficamos muito satisfeitos por isso. Foi muito marcante para nós, foi muito especial enfrentar o Paraná. Apesar de a gente ter empatado em casa e perdido de 2×1 lá. Mas houve uma comoção muito grande dos torcedores. Mesmo com a desclassificação na primeira fase, nós fomos recebidos com muito carinho” – disse.

Gilmar, ao se destacar na Pantera, despertou o interesse do São Paulo. No Tricolor paulista, fez parte do grupo campeão da Libertadores em 1992. “Sair do Democrata, um clube do interior, para ir para um time que disputava o Brasileiro sempre nas pontas, e ser campeão da Libertadores, foi um salto muito grande na minha carreira. Ajudou a mim, individualmente, e a muitos outros jogadores que saíram para times grandes também. Foi uma campanha que abriu portas para mim e para muitos, mas principalmente para o Democrata, porque ali iniciou um crescimento muito grande e o time chegou a disputar a Série B do Brasileiro” – comentou o ex-atacante, e hoje treinador. Outro atleta democratense daquela época que se transferiu para um time grande foi o meio-campo Marcelo Alves, campeão brasileiro em 1995 pelo Botafogo.

Massagista do Democrata-GV desde 1992, e até hoje no clube, Getúlio Anacleto Sampaio também se lembra do confronto contra o Paraná. A viagem a Curitiba foi a primeira vez de muitos atletas em um avião. “Alguns foram até de terno”, ele se recorda. O frio paranaense pode ter contribuído para a desclassificação da Pantera. Getúlio garante que o Democrata tinha condições de ter arrancado uma classificação no Pinheirão: “O Anderson, ponta esquerda, perdeu um gol. E o Peres [autor do gol democratense no empate em 1×1, no jogo de ida] perdeu outro. Acabamos derrotados lá dentro, e o frio não estava mole não. O banco estava gelado. A gente podia ter vencido. Eles tinham mais nome, mas nossa equipe era equiparável”.

Em 94 e em 95 o Democrata disputou a Série B do Brasileirão – herdou a vaga do América-MG, suspenso pela CBF. Também em 95 veio a segunda participação da Pantera na Copa do Brasil, e foi a mais marcante. Na primeira fase, a equipe do interior de Minas eliminou um time da Série A, o Goiás. A vitória por 2×0 em Governador Valadares, no jogo de ida, seria suficiente para eliminar os goianos. O Democrata ficou com a vaga em pleno Serra Dourada, mesmo perdendo o confronto por 1×0. A atuação do goleiro Sílvio foi elogiada pela imprensa goiana.

Jornal O Popular, de Goiânia, elogia goleiro Sílvio na classificação do Democrata-GV diante do Goiás.

O “TROFÉU”

Emocionado com a classificação, o massagista Getúlio Sampaio trouxe para Governador Valadares um pedaço do gramado do estádio Serra Dourada, troféu que ainda é preservado e tratado com carinho: “Quando acabou o jogo, o time classificado, veio aquela emoção grande. Eu falei que ia pegar um pedaço da grama do Serra Dourada, pra me lembrar sempre. Está ali até hoje. Eu rego, às vezes vem um cara e corta. Está até meio grande”.

Massagista da Pantera, Getúlio trouxe um pedaço da grama do Serra Dourada para Governador Valadares. (Foto: Thiago Ferreira Coelho)

 

Na fase seguinte, novamente uma equipe tradicional veio a Governador Valadares. O Vitória, assim como o Goiás, não resistiu à pressão da torcida valadarense. O resultado de 3×2 para o Democrata garantia a vantagem do empate no duelo em Salvador. Mas no Barradão os baianos conseguiram vencer por 2×0, encerrando ali a campanha do time de Governador Valadares.

Apesar da eliminação, Getúlio sente orgulho dos duelos contra Goiás e Vitória em 95: “Para uma cidade do interior, representa muita coisa. Eram duas equipes fortes do futebol brasileiro, que são times grandes nos seus estados. Foi muito boa a participação da torcida valadarense. Foi bom para o Democrata e para a cidade, receber gente de outras cidades aqui. O Democrata é o primeiro embaixador de Valadares, é um representante que leva o nome de Valadares. Eu sou carioca, quando vou pro Rio de Janeiro e falo do Democrata, as pessoas conhecem. É um clube que leva o nome de Valadares para todos os lugares e as pessoas daqui gostam de futebol e amam o Democrata”.

VALORIZAÇÃO DA BASE

Marquinhos era volante da Pantera em 1995. O desempenho na Copa do Brasil daquele ano, para ele, se deve principalmente aos atletas formados na base da equipe. “Tive o prazer de jogar essa competição pelo Democrata. Nosso time era muito bom, a maioria dos atletas era de Valadares. Nessa época a categoria de base tinha moral, e todos nós dávamos o máximo dentro de campo. A diretoria do Democrata tinha que voltar a dar valor para a base, na nossa região tem muitos jogadores bons de bola” – ele afirma, esperando que a Pantera volte a disputar competições importantes.

Esse também é o desejo do massagista Getúlio. O primeiro passo é retornar à primeira divisão estadual. “Essa camisa tem um peso. Até agora, na segunda divisão, quando a gente entra com essa camisa, ela não joga. Mas faz medo nos adversários. Mesmo rebaixado, é uma força imensa. A torcida ajuda, o povo de Valadares gosta, e vai voltar para a primeira divisão. Nós vamos subir porque a camisa é forte e o elenco é forte. E vai permanecer na primeira divisão” – garante o massagista.

O alvinegro do Vale do Rio Doce ainda disputaria a Copa do Brasil mais uma vez, em 2008, e novamente foi eliminado na primeira fase. Após vencer o Bragantino por 3×2 no Mamudão, e perder por 2×1 no Estádio Nabi Abi Chedid, o critério do gol qualificado garantiu a vaga para o time de Bragança Paulista.

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