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Flavio Gomes classifica demissão da ESPN como indecente: “Foram fracos, covardes e desonestos”

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Colaborador do Torcedores

Flamengo

Crédito: Divulgação

O jornalista Flavio Gomes, de 54 anos, concedeu uma entrevista exclusiva ao Torcedores. Ele, atualmente nos canais Fox Sports, gosta de falar o que pensa. Cinco anos após a demissão da ESPN, classificou a atitude da emissora no episódio como “fraca, covarde e desonesta”.

Ele foi desligado do canal fechado por xingar o Grêmio no Twitter, após uma partida do time gaúcho contra a Portuguesa, por conta de um pênalti marcado a favor do Tricolor. Mas, para ele, a ESPN o sacaneou, e “a demissão foi indecente”.

Flavio não falou apenas de polêmicas. Também contou sobre projetos, carreira, literatura e o “tesão” por notícias. Defendeu a liberdade e o direito de expressão. “Contesto aquilo que considero estúpido e quando não concordo com alguma coisa, digo. Isso não é ter ‘opiniões fortes’. Isso é ser fiel a princípios”, disse.

Confira a entrevista completa com o jornalista

Torcedores: Como você começou no jornalismo?

Flavio Gomes:  (Comecei no jornalismo) Em 1982, com 17 anos, no “Popular da Tarde”, jornal já extinto. Fazia uma coluna semanal da Leões da Fabulosa, torcida da Portuguesa. Em 1984 a SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência) iniciou um projeto de divulgação científica que incluía um programa que era transmitido semanalmente pela Rádio Cultura de São Paulo e pela rede de emissoras educativas do país. Se chamava “Encontro com a ciência”. Um professor de rádio na faculdade, Gregório Bacic, indicou meu nome para o jornalista que iria liderar o projeto, João Bosco Jardim de Almeida, vindo da BBC. Entrei como repórter e entrevistava cientistas de várias áreas, professores, políticos, artistas, músicos, escritores, vivia no mundo acadêmico, mergulhado nas universidades e nos institutos de pesquisa. Era uma época próspera, redemocratização do país, gente voltando do exílio, o governo de novo nas mãos de civis. Dois anos depois abriu uma vaga para repórter de Educação e Ciência na “Folha” e me candidatei. Na mesma época, acho que na mesma semana, escrevi uma carta para Juca Kfouri, então diretor da “Placar”, me oferecendo para trabalhar na revista. Meu sonho era trabalhar com futebol e na “Placar”. As coisas aconteceram ao mesmo tempo. “Placar” me chamou para me conhecer e a “Folha” me selecionou a partir do anúncio da vaga que tinha sido publicado no jornal. Acabei sendo contratado e a “Placar”, que era meu sonho de criança, ficou para depois. Fui parar na Barão de Limeira. Em 1988 fui para a editoria de Esportes do jornal e assim comecei na área que, no fim das contas, era a que eu queria.

Torcedores: Já cobriu futebol? Gostou? Que outros esportes você já escreveu, além de automobilismo?

Flavio Gomes:  No jornal, em Esportes, ocupei cargos de chefia quase o tempo todo. Fui editor-assistente de pauta e fechamento, editor-adjunto e editor, até ser transformado em repórter especial de Fórmula 1 em 1991. Mas é claro que nesse tempo todo, incluindo o mês que trabalhei em “Placar”, no início de 1988, escrevi sobre todos os esportes possíveis. Futebol, inclusive – mas não principalmente. Participei de várias coberturas e organizei outras tantas. Talvez seja mais fácil encontrar esportes sobre os quais não escrevi. Numa editoria grande como era a nossa na “Folha”, eu cuidava de tudo e dávamos muito espaço para diversas modalidades. Nunca tive uma atuação muito constante como repórter de futebol. Fazia pautas especiais, às vezes. E editava o jornal.

Torcedores: Você saiu da Folha de S.Paulo um pouco depois da morte do Senna, em 1994. Se ele não tivesse morrido e a direção do jornal não tivesse tido divergências contigo, imagina quanto tempo a mais teria ficado na Folha?

Flavio Gomes:  Eu gostava do jornal e de trabalhar em jornal diário. A “Folha” era o maior de todos, eu tinha chegado lá muito cedo, com 22 anos, e com 24 já era editor. Sem querer ser pretensioso, era uma das estrelas da segunda – e muito jovem – geração de jornalistas atuando já sob os conceitos e diretrizes do “Projeto Folha”, iniciado pelo Otavio Frias Filho no início dos anos 80. Acho que ficaria bastante tempo, porque conhecia todos os processos de produção do jornal e estava capacitado a ocupar qualquer função. Cansei de fechar edições de Política, Cidades, Exterior, colunas do Paulo Francis… Escrevi matérias para quase todas as editorias, da Ilustrada a Turismo, de Veículos ao Folhateen, e havia um grande trânsito entre essas editorias para alguns dos jornalistas que ocupavam cargos de chefia, fosse em plantões, fosse em emergências – plano Collor, impeachment, tragédias, grandes coberturas. Também era um dos rostos da “TV Folha”, projeto pioneiro de levar o jornal à TV com programetes sobre os destaques da edição do dia seguinte. Fui igualmente professor do programa de trainées do jornal. Acho que faria uma carreira longa lá, mas não dá para dizer quanto tempo ficaria. Os veículos de comunicação, a partir da popularização da internet, foram os que mais sofreram com as mudanças impostas pelas novas mídias. É impossível especular qual teria sido meu caminho a partir de 1999, 2000, se ainda estivesse no jornal.

Torcedores: Como classificaria a ideia de lançar uma agência de notícias e depois um site como o Grande Prêmio? Esperava que ele se tornasse uma referência para quem gosta de automobilismo?

Flavio Gomes:  Na época, em 1994, foi a alternativa que encontrei para continuar cobrindo Fórmula 1, já que eu tinha um grande produto a apresentar para os jornais do Brasil todo: viajava para as corridas – era correspondente da Jovem Pan, onde comecei no início daquele ano, acumulando as funções de repórter e comentarista da rádio às de repórter especial da “Folha”. Deu certo, em boa medida. Cheguei a escrever para 65 jornais. Melhorou como negócio no terceiro ou quarto ano, com a popularização dos e-mails e barateamento dos meios de transmissão. A internet, em 1996, quando estreei o site Warm Up, era ainda uma enorme interrogação. Se firmou, pode-se dizer, em 2000, quando o iG entrou no mercado e me chamou para fazer um site de automobilismo – o Warm Up virou Grande Prêmio naquele ano. Era um caminho natural. Havia muito dinheiro novo na internet e surfamos bem naquelas primeiras ondas. Muitos outros sites surgiram. Que eu saiba, não sobrou nenhum como o nosso, independente e autônomo, que pratica um jornalismo de qualidade. Estivemos ligados ao iG, ao MSN e ao UOL. O modelo dos grandes portais, no entanto, cessou. As redes sociais viraram esse mercado de cabeça para baixo de novo. É uma bela montanha-russa. Quanto a ser referência, não é algo que me surpreenda. Sempre fui atrás de bons profissionais e o rigor para contratar gente norteava a formação das equipes que tivemos. Toda a molecada que passou pelo Grande Prêmio, que sempre considerei uma porta de entrada para a carreira, engatou firme no jornalismo em outros grandes veículos. Posso citar Everaldo Marques, Tales Torraga, Rodrigo Borges, Julyana Travaglia, Thiago Arantes… Outros foram para a comunicação corporativa em grandes empresas, outros mudaram de área, alguns saíram do país. E muitos seguem no site, porque nos últimos anos ele deixou de ser porta de entrada na profissão para se transformar em destino mais duradouro, diante da crise no setor. Nunca fizemos um passaralho (nome dado para demissão em massa de jornalistas). Nunca demitimos ninguém, nunca houve cortes para reduzir custos. Por isso, talvez, eu seja um “empresário”, com aspas enormes, tão malsucedido do ponto de vista financeiro. Sempre coloquei a função social da minha empresa de dar emprego acima de qualquer pretensão de ter lucros enormes. Me endividei bastante por conta disso – tirava os salários do meu bolso. Conseguimos sobreviver e disso me orgulho – as dívidas estou pagando, me viro. Hoje, o negócio passou completamente às mãos dos meninos e meninas, com o Victor Martins e a Evelyn Guimarães à frente. Tudo que entra é deles. São talentosos, sérios, encantadores. É um pequeno legado que deixarei. É o que estou devolvendo à profissão que me deu tudo.

Torcedores: Quais são suas referências no jornalismo esportivo? E na cobertura do esporte a motor?

Flavio Gomes:  Nunca me espelhei em ninguém. Talvez, sempre tenha dado mais importância aos veículos do que aos jornalistas que os faziam. Nos anos 70 e 80, eu gostava muito da qualidade dos textos de “Placar” e do “Jornal da Tarde”. Devorava a “Gazeta Esportiva” e via tudo que passava na TV. Mas curtia um ou outro colunista, como Roberto Avallone, Alberto Helena Jr, o Juca. Ouvia muito rádio, também. Sabia os nomes de todos narradores, comentaristas e repórteres da Pan, da rádio Globo e da Bandeirantes. Mas não tinha ninguém em especial como modelo ou, vá lá, ídolo. Sendo bem franco, e novamente muito presunçoso, me achava melhor que a maioria. Agora, na idade “adulta’, por assim dizer, dois caras com quem trabalhei são e sempre serão objetos da minha profunda admiração e respeito: Matinas Suzuki Jr. e José Trajano. No automobilismo, por ter começado cedo, fui contemporâneo de quase todos que fizeram história na área, como Reginaldo Leme, Edgard Mello Filho, Claudio Carsughi, Milton Coelho da Graça, Mair Pena Neto e o Mario Andrada e Silva. Essa turma sempre foi excepcional, e eu fazia parte dela. Éramos concorrentes. Então, não tinha muito tempo para reverenciá-los. Queria fazer melhor que eles.

Torcedores: Crê que foi prejudicado, em algum momento da sua carreira, por ter opiniões fortes?

Flavio Gomes:  Não sei se “prejudicado” é a palavra. Eu sofri as consequências dos meus atos – em geral, demissões. E nem foram tantas assim. Saí da “Folha” por contestar uma decisão do jornal que julguei absurda e sem sentido – ficar na Itália acompanhando o inquérito de Senna enquanto o cara era enterrado aqui. Achei absurda naquela época, acharia hoje da mesma forma. Da Pan, saí porque queriam reduzir meu salário e a direção da emissora se submetia a pressões de políticos para tolher minha liberdade como âncora de um dos jornais da casa. Tchau. Da Bandeirantes, por razões financeiras – a cobertura era terceirizada, não fui demitido, apenas acabou. Sacaneado, mesmo, fui na ESPN Brasil. Minha demissão foi indecente. Fiquei oito anos lá sem contrato e por causa de uma babaquice de torcedores do Grêmio em redes sociais me avisaram que não iriam renovar meu contrato. Que não existia. Foram fracos, covardes e desonestos. Eu não abro mão de algumas coisas na vida e na carreira. Liberdade de me expressar e opinar é uma delas. Direito à minha vida pessoal e privacidade, outra. Não faço concessões. Falo e defendo o que penso. Contesto aquilo que considero estúpido e quando não concordo com alguma coisa, digo. Isso não é ter “opiniões fortes”. Isso é ser fiel a princípios. A vantagem disso é poder deitar a cabeça no travesseiro todas as noites e dormir tranquilo. Sou honesto com quem consome o que produzo: leitores, ouvintes, telespectadores. E “seguidores”, agora. Não finjo ser quem não sou.

Torcedores: Você já escreveu dois livros: O Boto do Reno e Dois Cigarros. Acredita que essa sua faceta de escritor “te liberta” do dia a dia do jornalismo? É uma forma de escape?

Flavio Gomes:  Não, eu não sinto necessidade de “escapar” do dia a dia do jornalismo. Ainda sou tarado por notícia, por grandes coberturas, pela precisão da informação, considero nobilíssima a função do jornalista: reportar aos outros o que está acontecendo com a maior isenção possível e fidelidade aos fatos. A literatura é uma paixão como outras que tenho. Também tem um componente de vaidade, não nego. Faz bem saber que as pessoas gostam do que eu escrevo, e escrevo bem. Talvez, a única coisa que realmente faça bem, escrever e pilotar carros velhos de corrida – sou bem melhor que meus resultados, juro!

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