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Ingrid Oliveira relembra polêmica nas Olimpíadas e desabafa: “Eu fui detonada pelo mundo inteiro, fui assediada”

A saltadora olímpica brasileira Ingrid Oliveira virou manchete no mundo inteiro durante os Jogos Olímpicos disputados no Rio de Janeiro, em 2016. O motivo não foi por ela ter conquistado uma medalha, mas por causa uma ‘polêmica extra-campo’. Ela e o companheiro de delegação, Pedro Henrique Gonçalves, o Pepê, da canoagem slalom, tiveram um envolvimento durante o evento, mas a atleta de então 19 anos foi quem ganhou maior repercussão.

Danielle Barbosa
Colaboradora do Torcedores.com.

Crédito: Al Bello/Getty Images

Às vezes, as pessoas me param na rua e perguntam: “Você é a Ingrid?”. E eu espero a continuação “… da Olimpíada?”. Eu já imagino a pessoa lendo aquelas matérias falando de mim: maratona de sexo selvagem, orgia, polêmica. As pessoas adoram usar essa palavra para falar de mim. “Polêmica”. Isso quando não falam da minha bunda”, disse Ingrid em uma carta publicada no UOL Esporte.

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Eu fui detonada pelo mundo inteiro. Eu fui assediada. Recebi pornografia. Recebi proposta para fazer programa – sexual, não de televisão. Eu perdi trabalhos. Fui atacada por jornais do mundo inteiro. Na Wikipedia, eu fui definida como a ‘A menina que fez salto com vara’”, desabafou Ingrid.

A atleta brasileira começa explicando como conheceu Pedro e esclarecendo algumas informações que foram noticiadas de forma equivocadas na época. “Se você está lendo este relato, eu sei o que você quer saber. A fofoca da Olimpíada. Então eu vou contar a verdade. E a única verdade é que eu levei o Pedro (Pepe Gonçalves, atleta da canoagem slalom) para o meu quarto. Mas não foi na véspera da minha competição, nem da competição dele. Ele não passou a noite comigo. Eu não expulsei ninguém do quarto. Eu não fui expulsa da Olimpíada. Colocaram de uma forma que pareço uma desmiolada”.

Pedro Gonçalves, atleta brasileiro da canoagem slalom (Foto: Reprodução/Instagram)

As pessoas não sabem, mas nas Olimpíadas isso é normal. Vocês devem ter visto o número de camisinhas que eles distribuíram na Vila. Tinha no refeitório e em todos os lugares. Era para que? Para fazer balão e sair voando? O Bolt levou a menina sem credencial para o quarto. Um bando de gente fez Tinder para ficar se pegando. Acreditem, lá isso é uma coisa normal. A diferença é que outros casos não vazaram. E não havia acontecido com uma atleta mulher para que pudessem apontar o dedo”, continuou.

Ingrid afirma que havia avisado sua dupla de salto e colega de quarto, Giovanna Pedroso, antes mesmo da cerimônia de abertura dos Jogos, que iria passar a noite com Pedro no quarto – e ela havia concordado.

Eu jamais poderia imaginar o que isso causaria. A notícia vazou e o COB descobriu. No dia seguinte à abertura, eu estava jantando com o pessoal da ginástica e me chamaram com urgência. Nem consegui terminar de comer, larguei minha bandeja. Eu e o Pedro chegamos lá e falaram que poderiam nos expulsar, mas não fariam isso porque tínhamos histórico impecável. Meu Deus do céu. Eu não sabia se chorava ou ficava feliz por não ser expulsa”, recorda.

A saltadora contou ainda que tinha vergonha de andar na Vila Olímpica. “O que eu fiz foi errado e eu tenho consciência disso. Eu me torturei muito: “Eu tô errada, eu tô errada”. Mas, aos poucos, fui percebendo que o tratamento dado a mim não era justo. A imprensa fez um estardalhaço. A história foi totalmente distorcida. Eu queria contar a minha verdade, mas a minha técnica falava: “Não é o momento. Isso vai ser esquecido”. Não foi esquecido”.

Ingrid Oliveira também fez um desabafo sobre a diferença de tratamento entre ela e Pedro nas redes sociais. “Eu entrava no Instagram do Pedro e não tinha xingamento. Era: “parabéns, você é o fodão”. Saiu uma foto no jornal em que está a cara dele com uma medalha de ouro e a minha foto dentro. O pior comentário que eu via era ‘sem foco’. Sem foco!? Nem um “vadio”. Nem um “puto”. Nada. As pessoas que tratam o homem como ‘o garanhão’ são as mesmas que chamam a mulher de vadia, de puta. Era ridículo.

Já no meu Instagram, além de estarem me xingando muito, escreveram coisas nojentas que não quero nem repetir. Sem contar uma porrada de nudes que me mandavam por direct. Eu abria a minha galeria e tinha um monte de nudes. Teve até um que perguntou: “Quanto você cobra pra fazer sexo comigo?”. Ai que ódio. Minha vontade era excluir da humanidade. Tem essa opção? Abrir um buraco negro e jogar a pessoa lá?”.

Muitas coisas aconteceram depois das Olimpíadas. Eu passei a ser vista como a ‘piriguete’. Marcas não quiseram fechar comigo. As pessoas tinham muito preconceito e me viam como ‘a que faz merda o tempo todo’. O trauma foi tão grande que eu fiquei três dias sem sair de casa. Eu tinha vergonha. Na época, alugava um quarto na casa de uma amiga. Eu ficava com vergonha de olhar para a mãe dela. E olha que ela me tratava como filha”, lembra a saltadora.

Ingrid revela ainda que enfrentou e enfrenta problemas financeiros por estar “sem nenhuma bolsa”. Além disso, a atleta ainda relembro o início difícil da carreira, a relação com a mãe, que segundo a saltadora “batia para educar”, e do preconceito que sofria por ter um “corpo forte de ginasta”.

A atleta completa sua carta projetando dias melhores. “Eu sou feliz. Graças a Deus. Poderia ser mais, se ganhasse na Mega-Sena. Sou feliz pobre, mas sou feliz. Eu sonho com uma medalha olímpica. Eu gostaria do ouro, mas tenho os pés no chão. Nas chinesas tem que jogar urucubaca. Não tem como, gente. Elas não erram. A minha expectativa é de brigar numa final. Eu, com esse salto ajustado, tenho tudo para brigar por uma medalha. E vou levar o salto, aquele da nota zero. Medo eu tenho. Mas sou guerreira.”

LEIA A CARTA DE INGRID OLIVEIRA NA ÍNTEGRA