Morte de ídolo, quedas e ascensão: como a torcida do Brasil de Pelotas reconstruiu o clube

Há 10 anos, o Rio Grande do Sul vivia uma das maiores dores que jamais sairia das mentes de todos os torcedores que detêm a paixão incontrolável por um clube de futebol. 15 de janeiro de 2009 entrou para a história do Brasil de Pelotas, clube que naquela época se preparava para o Campeonato Gaúcho, quando viu os sonhos se interromperem parcialmente no acidente do próprio ônibus que voltava de um amistoso em Santa Cruz.

Luis Fernando Filho
Jornalista formado na Universidade Federal de Santa Maria (2018), 22 anos, e fanático pelo futebol bem jogado para além das quatro linhas. Twitter: @luisfernanfilho/Insta: @luisfrrs

Crédito: Divulgação/ Grêmio Esportivo Brasil/ Carlos Insaurriaga

Era o capítulo mais doloroso do centenário xavante – como assim é conhecido – e que perderia três guerreiros rubro-negros. Muita coisa se passou desde então, e tanto a equipe como a torcida viram as esperanças e a instituição renascerem na força e colaboração mútua entre a comunidade. Nesta quinta-feira (14), o esquadrão rubro-negro estreia pela 1ª fase da Copa do Brasil diante do Tubarão (SC), às 19h (horário de Brasília).

O ônibus que saiu da pista, na BR-392, vitimou o então zagueiro Régis, o preparador físico Giovani Guimarães, além do maior ídolo do clube, aquele capaz de expressar toda a glória e o sofrimento que é ser um torcedor xavante: Claudio Milar. O uruguaio era amado no Bento Freitas, afinal, foram 111 gols em 209 jogos vestindo as cores do Brasil de Pelotas. Três perdas irreparáveis, mas não havia tempo para lamentar. Ainda no mesmo ano, o clube voltaria a jogar o Gauchão, apesar do elenco ter sido remontado por jogadores emprestados basicamente pela dupla Grenal. Fato que ocasionou na queda dolorosa à segunda divisão gaúcha, por onde o time se acostumaria a ter como novo lar durante alguns anos.

A partir de 2010, o Brasil faria algumas participações pífias na Divisão de Acesso, sem que o brilho que começara a ter antes do acidente reluzisse no Bento Freitas. No ano seguinte, a péssima campanha na Série C e a queda de divisão nacional parecia assimilar a todos que o clube, talvez, não conseguisse se reerguer após o acidente.

O CLUBE COMEÇAVA A RENASCER COM APOIO VOLUNTÁRIO DOS TORCEDORES

Dias após o acidente trágico com o ônibus, nasceu a iniciativa de torcedores comuns em criar um órgão capaz de colaborar e auxiliar o clube com relação às carências de infraestrutura. Em 21 de janeiro de 2009, foi criada a “Associação Cresce, Xavante!”, que dali em diante seria o braço forte na reconstrução do Brasil. A instituição era uma dissidência do site “Cresce, Xavante!”
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“O objetivo era e segue sendo ajudar o clube no seu crescimento, focado principalmente no patrimônio. Nestes 10 anos foram muitas ações realizadas, entre elas: a troca da antiga tela, drenagem do gramado, customização do ônibus, trator cortador de grama e adubadeira para o gramado, computadores, filmadora, televisor e outros equipamentos para o Centro de Análises e Desenvolvimento de Desempenho. Custeamos o projeto arquitetônico das novas arquibancadas do estádio, entre outros”, disse o atual presidente da associação, Cristiano Raatz.

O Brasil de Pelotas campeão da Divisão de Acesso em 2013. Foto: Divulgação

Naquela época, o clube necessitava da renovação nas estruturas físicas e tecnológicas, pois, como em todo o interior gaúcho, não se tem vida fácil para modernizar os clubes. O fato é que, após as cicatrizes que ainda demorariam a sarar, o grupo de torcedores dava o pontapé inicial no projeto que aproximaria cada vez mais o torcedor do clube. E essa relação seria o elo mais forte da reconstrução xavante.

“Hoje em dia ainda existem muitas dificuldades e carências, afinal o Brasil é um clube de interior do extremo sul do país que hoje divide espaço com grandes clubes e clubes tradicionais do futebol brasileiro. Mas as formas do clube arrumar recursos e solucionar os problemas com certeza são bem melhores que há 10 anos atrás”, afirmou Cristiano.

Um ano antes do crescimento da associação, a inauguração do site viabilizado pelos torcedores para auxiliar na modernização das dependências do clube ganhou forma. Na época, o torcedor Ivan Schuster, de 58 anos, foi o autor do slogan que estampou o rosto do projeto: “O Xavante será do tamanho que NÓS quisermos!”. Esse seria o lema mais significativo para o clube e torcida, aquele sentimento externado por todos no Bento Freitas.

“A ideia desta frase veio de quando eu escrevia alguns textos para o site do GEB e posteriormente para o Blog Xavante. Eu achei que precisávamos de algumas frases marcantes que ajudassem a divulgação da marca Xavante e a entender o que é ser Xavante. Assim criei alguns como ‘Ser Xavante não é para qualquer um’, ‘Cornetas do apocalipse’ – referindo-me aos que vão para as apresentações só para criticar -, ‘Homens de pouca fé’ – para os que torcem, mas sempre com um pé atrás -, e outros, contou Ivan.

Assim como todos os torcedores xavantes, Ivan jamais esquecerá do dia mais triste da história centenária do Brasil de Pelotas. Estava trabalhando em São Paulo quando ficou sabendo do ocorrido. Ele tinha uma relação estreita na época com a diretoria do clube e os jogadores – principalmente Régis e Milar -, por meio do núcleo criado por torcedores residentes em Porto Alegre, chamado Onda Xavante.

“Sou o terceiro de quatro gerações de Xavantes na família. Tenho a carteira de sócio do meu avô, Henrique Schuster, já falecido, datada de 1952. Desde então, sempre houve, ao menos, um descendente sócio do clube. Meu filho, hoje com 23 anos, nascido e criado em Porto Alegre, não negou o sangue e não deu bola para os ‘grandes da capital’ e também é Xavante e sócio. Sou frequentador da Baixada desde sempre. Minha primeira lembrança é de 1966, quanto tinha 6 anos. Desde então, mesmo residente em Porto Alegre há mais de 25 anos, sempre que possível vou a Pelotas ou em qualquer outro local onde o Xavante se apresente – o Xavante não joga, apresenta-se”, completou Ivan.

“SER XAVANTE É UM ESTADO DE ESPÍRITO”

Durante toda a caminhada centenária, as torcidas organizadas do Brasil de Pelotas sempre foram respeitadas no cenário gaúcho e nacional. É comum os torcedores dos outros clubes gravarem no imaginário os jogos no Bento Freitas e o apoio incondicional das arquibancadas. A relação estabelecida entre esses adeptos e o clube, principalmente após a tragédia, ressignificou o sentido de união que fez do Brasil um dos times mais respeitados no Rio Grande do Sul. A força vinda das mãos que seguram e sobem nos alambrados do estádio a cada partida sempre foi a simbologia mais fiel do time que tem nas mãos as origens no operariado pelotense.

Foram dias e anos em que a massa de torcedores acompanhou o time nos piores dias, estádios e jogos. Há mais de 30 anos, a Torcida Máfia Xavante está presente alentando o Rubro-Negro no Bento Freitas, sendo a primeira organizada a defender as cores do Brasil dentro e fora de Pelotas. Como sempre, a Máfia esteve ao lado do clube nesse período difícil de remontagem.

“A importância da Máfia é muito relevante. É uma torcida que existe desde 1987, embora oficialmente seja considerada apenas a partir de 1991. Nós fomos, durante quase toda a década de 90 e início dos anos 2000, a torcida com o maior número de integrantes no Grêmio Esportivo Brasil. E durante um bom período a maior torcida organizada com o maior número no Rio Grande do Sul, ficando atrás apenas das torcidas da dupla Grenal”, contou um membro da torcida, César Lascano, de 30 anos.

Jogadores e Máfia Xavante comemorando o gol. Foto: Divulgação

César esteve presente durante todo o calvário que parecia não ter fim após o acidente, há 10 anos. Como torcedor que incorpora as cores e as tradições do clube xavante, viu o time cair de divisão, perdurar alguns tortuosos anos em baixa, até renascer junto com a torcida que ilustra e canta para aqueles que já não podem mais defender o Brasil em campo. Conscientes disso, fizeram do Bento Freitas um enxame rubro-negro toda vez que algum adversário fosse ao estádio visitá-los.

“Ser Xavante é um estado de espírito. É uma questão de identificação. Tem uma série de subjetividades no ‘torcer’ para o Brasil. É um estilo de vida. Existe toda uma significância sociocultural desde a história do clube, e isso a gente tenta levar para as gerações mais novas. E isso na Máfia é uma espécie de doutrina. De nós conhecermos a história do clube, saber que nós fomos fundados por operários de uma cervejaria e que nós aceitamos desde o início as pessoas das camadas mais humildes”, completou César.

Nesta quinta, o Brasil de Pelotas tem mais uma batalha, desta vez pela Copa do Brasil. Outra guerra de tantas já superadas. Como lembraram os personagens entrevistados pela reportagem, os confrontos mais marcantes que estão na memória dos torcedores são o empate diante do Athetico, em 2016, e o gol no último minuto de jogo contra o Flamengo, no Bento Freitas, que permitiu o clube jogar a partida de volta no palco do Maracanã. Por Milar, Régis e Giovani, o clube tentará escrever mais uma vez o seu nome na história da competição mais democrática do país.

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