Opinião: E depois da Copa São Paulo?

Novos talentos se projetam para o mercado europeu cada vez mais cedo. Os “pratas-da-casa” se tornam cada vez mais raros atuando dentro dos clubes. Aquele moleque habilidoso e ousado, que se destaca nos torneios de base e que deveria ser lapidado, cuidado e valorizado, certamente deixará o Brasil antes de jogar pelos profissionais do clube que o revelou.

Adriano Oliveira
Colaborador do Torcedores.com.

Crédito: Twtter/ FPF. São Paulo 4 x 8 Rio de Janeiro é o placar do confronto em finais da Copinha

O Corinthians é o maior recordista de títulos da Copa São Paulo de Futebol Júnior, o mais tradicional torneio de clubes da categoria e que neste ano abriu o calendário do futebol brasileiro pela 50ª vez. O time do Parque São Jorge levantou o troféu 10 vezes e tem 8 vice-campeonatos. Mas e daí? Se olhar para o pôster do time do Corinthians campeão mundial de 2012, quais jogadores foram formados nas categorias de base do clube? Nenhum.

O atacante William foi o jogador da base que mais deu lucro aos cofres do Parque São Jorge. Revelado pelo Corinthians, em 2007 o meia foi vendido para o futebol ucraniano, onde permaneceu por seis temporadas, até ser contratado pelo Chelsea em 2013 por € 37 milhões. Porém, pouco fez e pouca gente se lembra de William jogando com a camisa corintiana. Outra “grande revelação” da Copa São Paulo foi Lulinha que, aos 17 anos, subiu para o time profissional como o maior artilheiro da base na história do Corinthians, com 297 gols marcados. Convocado então para a seleção brasileira sub-17, surpreendeu ao fazer 16 gols em 16 partidas, o que despertou rapidamente o interesse de clubes europeus como Chelsea e Barcelona.

O Corinthians então tratou de aumentar em dez vezes o valor de sua multa rescisória, passando de US$ 5 milhões para US$ 50 milhões. Na época, Lulinha era tido como a “salvação” do time principal que tentava desesperadamente fugir do rebaixamento no Campeonato Brasileiro. Sem sucesso, o menino não rendeu o suficiente e o clube amargou o descenso para a Segunda Divisão. No ano seguinte, Lulinha novamente não brilhou e perdeu espaço para Dentinho, que caiu nas graças da torcida. O jogador então deixou o Corinthians e passou por clubes como Estoril (de Portugal), Bahia, Criciuma, Red Bull Brasil e Mogi Mirim. Hoje, aos 28 anos, joga no futebol árabe, defendendo o Al Sharjah.
Diante desses dois exemplos, onde fica o sentido da velha máxima: “Na Copinha, o que vale é revelar jogadores para o time profissional“.

O São Paulo foi o grande campeão da edição de nº 50 da Copa São Paulo de juniores, disputada em 2019. A final, debaixo de bastante chuva, foi diante do Vasco e decidida nos pênaltis, depois de um empate no tempo normal em 2 x 2. Após nove anos, o time do Morumbi voltou a levantar o troféu e se igualou a Flamengo e Internacional-RS com quatro títulos conquistados. Por toda a estrutura que oferece, o São Paulo é o clube no Brasil que mais tem condições de revelar jogadores. Desde que o Centro de Formação de Atletas de Cotia foi construído, o clube já soma 69 títulos nas categorias de base. Há quem chame o CT de Cotia como a “Ilha de Caras” do futebol brasileiro. Mas e depois da Copa São Paulo e de outros torneios de juniores disputados ao longo de toda a temporada? Quantos jogadores são efetivados ao elenco principal? Poucos. As vezes, nenhum.

É claro que não se deve pular etapas na carreira dos garotos, impondo-lhes uma pressão acima do normal, em desacordo com a carga de responsabilidade compatível de cada um. Afinal, todos sabem a “panela de pressão” que é jogar num clube considerado grande. Por outro lado, quando um corintiano enche o peito para afirmar que “não vivemos de títulos, vivemos de Corinthians“, pode até parecer poético, mas funciona só até a página 3. Em 2016, por exemplo, após três derrotas em três jogos, o time do Corinthians sub-15 foi eliminado da Copa Brasil de Futebol Infantil. Revoltados, torcedores presentes ao estádio de Votorantim, no interior paulista, ameaçaram os garotos e bloquearam o ônibus da equipe, que só foi liberado com escolta policial. E então? O mais importante é realmente formar atletas e somente “viver de Corinthians”? Parece que não é bem assim.
Onde estará daqui a algum tempo os maiores destaques da Copa São Paulo deste ano, campeões pelo São Paulo? O atacante Gabriel Novaes, 19 anos, artilheiro do torneio com 10 gols, já foi emprestado ao Barcelona-B. O jovem goleador, que também despertou o interesse do Sevilla, ficará um ano e meio no futebol espanhol e tem a opção de compra em definitivo pelo clube catalão. Tuta foi outro jogador campeão que se destacou na Copinha. Seu destino será treinar com os profissionais no CT da Barra Funda? Também não. O jovem zagueiro já foi vendido ao Eintracht Frankfurt, da Alemanha. E o habilidoso Antony, outro atacante que foi ovacionado pelos são-paulinos em jogos da Copinha? O bom volante Rodrigo Nestor? O promissor goleiro Thiago Couto? O seguro zagueiro Morato, de apenas 17 anos? O capitão Diego, que ergueu a taça no Pacaembu? Garotos que foram fundamentais do início ao fim da competição. Além desses, vários outros jogadores, que também foram destaques em seus times na Copa São Paulo deste ano, estão saindo para o exterior, a maioria sem nunca ter jogado entre os profissionais.

O Brasil continua sendo um país exportador de jovens talentos no futebol, porém anda na contramão quando vende precocemente suas promessas e paga muito caro por jogadores veteranos que não têm mais espaço no mercado europeu. Um bom exemplo é o Santos, tradicionalmente o clube brasileiro que mais revela jogadores, e o que menos obtém vantagem econômica disso.

Mas o jogo segue. As revelações se projetam para o mercado cada vez mais cedo. Os “pratas-da-casa” se tornam cada vez mais raros atuando dentro dos clubes. Aquele moleque habilidoso, ousado, que se destaca nos torneios de base e que deveria ser lapidado, cuidado e valorizado, certamente deixará o Brasil rumo ao exterior antes de dar alegria à sua própria torcida e resultados dentro de campo a quem os revela. Na maioria das vezes, atendem aos interesses de empresários que atuam no mercado de países com futebol inexpressivo, como no Leste Europeu, na China ou na Rússia. Será que vale mesmo a pena? Em lugares como esses, mais de 40% dos atletas não recebem seus pagamentos em dia e muitos não recebem salário por mais de um ano, segundo estudo feito pela FifPro (Federação Internacional de Jogadores Profissionais) e publicado em 2015. No futebol grego, por exemplo, destino de muitas revelações, 67,5% dos jogadores têm atraso nos salários e 32% esperam até seis meses para algum dinheiro cair na conta. No entanto, para os agentes e empresários de jovens promessas que despontam a cada ano por aqui, esses países pagam muito bem e rápido na hora da transferência. Mas será que é isso mesmo o que interessa?…