Torcedores do Santo André revelam histórias do título da Copa do Brasil de 2004

Autoritário. Ofensivo e impiedoso. Com um futebol envolvente, é difícil para o torcedor do Santo André não lembrar a época dourada que viveu durante os anos de 2003 e 2004, 20 anos após o que era, então, o melhor momento de sua história. Falando nela, a equipe treinada por Péricles Chamusca não ficou satisfeita apenas em ficar nas lembranças dos admiradores de sua cidade, mas, sim, de toda uma nação. Em um Maracanã lotado, com uma multidão torcendo contra, não foi covarde em nenhum instante dentro das quatro linhas. E, no dia 30 de junho de 2004, conquistava o maior título de toda sua trajetória.

Rafael Turkienicz
Colaborador do Torcedores

Crédito: da foto: Mauricio Noznica Penessor

A caminhada começou a empolgar, de fato, um pouco antes. Em 2003, o Esporte Clube Santo André conquistou, de forma invicta, a Copa São Paulo de Futebol Júnior – referências na categoria de base brasileira. Aliás, foi o que auxiliou a servir de sustentação para a equipe profissional do time da Grande ABC. Além disso, no mesmo ano, subiu para a Série B do Campeonato Brasileiro e foi o vencedor da Copa Estado de São Paulo, que deu a chance de estrear na Copa do Brasil no ano seguinte.

Ninguém reparava… Era apenas uma zebra… Quase que discretamente, a campanha do título começou em um 5 a 0 contra o não tão conhecido Novo Horizonte, de Goiás. Ainda era o início do que estava por vir. Na fase seguinte, eliminou o Atlético Mineiro no Mineirão. Alguns olhos pelo país começaram a se abrir, mas ainda não era dado o real valor que aquele time começava a desempenhar. Depois, em um duelo contra o Guarani, a equipe passou devido à regra dos gols fora de casa, se classificando para enfrentar o Palmeiras. Assim, era a hora da verdade. O grande desafio para uma equipe que buscava ser eterna para seus torcedores.

No jogo de ida, uma chuva de gols e um empate por 3 a 3 davam contorno de drama ao confronto. Entretanto, os jogadores não se abateram, e conseguiram em outra partida com muitos tentos um empate por 4 a 4, garantindo, novamente com a mesma norma, avançar para a semifinal.

Perdendo em casa por 4 a 3 para o 15 de Novembro, time do Rio Grande do Sul, a equipe paulista, como fez antes, manteve sua postura de acreditar e lutar até o fim. E, no jogo da volta, fora de casa, não foi diferente: vitória por 3 a 1 e final garantida.

Final. O momento em que todo o clube sonha em chegar. E, mais do que isso, contra o Flamengo, clube detentor de uma das maiores torcidas do mundo. Para aumentar o drama, o jogo de ida acabou em 2 a 2, com a volta marcada para um Maracanã lotado de flamenguistas. E, mais uma vez, apenas para os que estavam em dúvida, o Santo André apresentou um futebol digno de campeão. Com gols de Sandro Gaúcho e Elvis, apenas na segunda etapa, o Ramalhão era campeão nacional!

Sempre presente

Acompanhando sua equipe do coração desde 1975, ano em que o clube se consolidou como EC Santo André, Ovídio Simpionato, 64 anos, não abandonou jamais o Ramalhão durante a trajetória de 2004.

Mesmo sofrendo um desmanche e sendo considerado desacreditado, Ovídio contou, com exclusividade para o Torcedores, que não desamparou a equipe. Sempre presente nos jogos, e tendo acompanhado 95% dos jogos em casa e fora, como relatou, foi um dos poucos presentes no empate por 1 a 1 contra o Guarani, em Campinas, pela terceira fase do torneio. “Poucos” seria até mesmo um exagero. Ele tinha apenas um companheiro ao seu lado, no dia 14 de abril, torcendo junto no setor visitante.

A noite que virou história

Mais adiante, precisamente antes do último jogo da Copa do Brasil de 2004, Ovídio e uma conta entre 800 e 1000 torcedores embarcaram, em 11 a 12 ônibus, como diz, para o estádio Jornalista Mário Filho, o Maracanã, assistir ao futuro campeão nacional.

Chegando ao Rio, se depararam com o “mar vermelho” e viram, inclusive, faixas de campeão na torcida do Flamengo. Ao entrarem no setor destinado ao visitante, o clima já era de festa no local. Entretanto, nada que pudesse intimidar a torcida do interior paulista. Eles calaram o Maracanã.

Faltando pouco para o final da partida, e localizados em um dos setores de nível inferior, faixas e adereços da torcida carioca eram atirados ao local que estavam. Inclusive, alguns torcedores queimavam alguns desses objetos. Nada que abalasse a festa do time do interior.

Depois da comemoração, saíram do Rio para São Paulo por volta de 2h da madrugada. E, novamente, não era motivo para se encerrar os festejos. Um pouco depois, por volta de 14h e praticamente virados, já que foram tomados pela alegria, finalizaram recepcionando o time no Aeroporto de Congonhas, capital paulistana. Lotando mais 4 ou 5 ônibus, foram juntos com a delegação para Jaçatuba, onde fica localizada a sede do clube.

Dois dias se passaram e a comemoração ainda teria espaço. Parando a cidade, a equipe desfilou para sua torcida, agradecendo e festejando a conquista inédita.

Comemoração na torcida rival

É fato que algumas coisas na vida se tornam um marco para uma determinada pessoa envolvida. E, para Mau, a campanha de 2004, que depois de 15 anos nem parece fazer tanto tempo assim, se tornou especial para ele.

Mauricio Noznica Penessor, de 41 anos, tem não só uma das histórias mais especiais daquela trajetória como algo ainda não tão comum para o período: registro fotográfico, que ele cedeu para o Torcedores publicar com exclusividade.

Conhecido como Mau, foi a primeira vez que embarcou para acompanhar seu time tão longe. Falando em companhia, foi junto de seu pai, Osvaldo, e uns amigos, assistir ao Ramalhão jogar a final da Copa do Brasil, no Rio de Janeiro, em pleno Maracanã.

Trabalhando durante o dia, não poderia perder tanto tempo assim no deslocamento. Com trauma do ônibus de torcida, que muitas vezes tinha quebrado quando foi assistir a algum jogo no interior paulista, entrou em uma aventura diferente para presenciar aquela noite.

Por 50 reais, foi, com seu pai e alguns amigos, no ônibus reservado pela diretoria do clube para aquela jornada. Assim, chegando ao Rio de Janeiro, já se deparou com o primeiro incidente: uma pedra foi lançada em direção ao veículo, que atravessava a torcida rubro-negra, porém, ninguém se feriu. Era apenas o começo de uma longa noite.

Mar vermelho e preto na porta do Maracanã antes da partida (visto do ônibus)/Foto: Mau

Logo na entrada do estádio, os problemas começaram. O seu ingresso era reservado para uma área no meio do campo, um setor flamenguista, longe da torcida visitante. Desse jeito, para acessar a arquibancada, foi solicitado pelo PM que retirasse sua camisa evitando maiores confusões.

“Se tu comemorar hoje, tu morre”. Portanto, não demorou muito para ser identificado pela torcida carioca. E, para piorar a situação, foi separado de seus amigos, perdendo alguns companheiros que vieram com ele de Santo André. Era um Maraca inteiro contra poucos. Aliás, uma época em que o estádio ainda suportava, teoricamente, um público de outras dimensões. Naquela noite, 71.988 pagantes estavam presentes.

No intervalo do jogo, que ainda estava empatado sem gols, subiu para encontrar alguns amigos. Como conta, eles praticamente torciam pelo Flamengo e alguns ainda não tinham sido descobertos, e gesticularam para que ele não subisse mais, preservando a identidade. Pensou em ir embora. Não estava fácil. Pelo menos na arquibancada.

Em campo, o cenário começava a prosperar. 1 a 0 para o Santo André. A emoção estava contida.

Um pouco antes, entretanto, mudou de lugar para tentar acalmar os ânimos. Em uma cadeira molhada, sentou entre um pai e seu filho, que gritava por time de segunda e terceira divisão em referência ao adversário.

Aos poucos, acabou externalizando suas emoções. Chorando, começou a acreditar no título. “O Flamengo é maior que esse time de terceira divisão”, escutou do garoto, de aproximadamente 12 ou 13 anos, que o abraçava e consolava. O pai, porém, nitidamente percebia que a história não era bem assim…

Gol. 2 a 0 para o Santo André. Estádio em transe.

Por ser um setor mais tranquilo, acredita que foi a razão de não ter sido agredido. E, logo após o segundo tento, a torcida começou a se retirar do Maracanã. Outra parte brigava entre si. Inclusive, foi parabenizado por aquele pai que levava seu filho para casa…

Apito final. Ramalhão campeão do Brasil. Conquista nacional. E, para isso, não poderia mais conter sua bandeira para a comemoração. A festa estava só começando…

Porém, ainda existia um dilema: como ir embora? Foi nesse momento que se lembrou de ir para o vestiário, comemorar junto com a diretoria. Em cima da cabine de rádio, seguiram o exemplo dos diretores e as pularam. Logo, alcançaram a porta de entrada. E, igualmente, tiveram a identificação solicitada para tornar possível o acesso. Não foi dessa vez.

Ao mesmo tempo, a confusão rolava solta. Tinha até agressão ao presidente do clube carioca. Clamando pela sobrevivência, pediram para acessar o espaço reservado para o clube paulista. Mas, a resposta do segurança conseguiu ser ainda mais surpreendente. Ele apenas sugeriu que fossem ao gramado!

Seguindo as indicações, rumaram para o palco da festa. Logo de cara, encontraram o repórter da Jovem Pan Wanderley Nogueira, que estava entrevistando o jogador Romerito, porém isso não impediu as provocações e cobranças ao repórter que não acreditava na conquista santo andreense.

Entrevista de Romerito/Foto: Arquivo pessoal

Ainda durante os festejos, seu pai teve a oportunidade de participar da volta olímpica, carregando o troféu que fora conquistado há pouco pelo clube. Também, para recordação, levou com ele para casa um pedaço de grama do Maracanã. Bem como, para não dizer que a noite terminou perfeita, Mau quase caiu no foço do estádio quando foi em direção à torcida visitante tirar umas fotos. Por sorte, ficou tudo bem, e eles finalmente conseguiram acesso ao vestiário depois de toda essa loucura.

Volta olímpica em frente à torcida do Santo André, com o goleiro Junior Costa, camisa 12, segurando a taça, Osvaldo de camiseta branca ao centro e, em primeiro plano, o amigo Matheus/Foto: Mau

“Pareciam uns amigos que tinham ganho um campeonato”, contou Mau, que conseguiu conversar com os jogadores e ressaltava a humildade e entrosamento daquele grupo.

Osvaldo, Mau e os amigos em cima do palco da cerimônia das medalhas/Foto: Arquivo pessoal

Portanto, ficaram lá até 2h, 3h da madrugada antes da volta. E, um pouco depois, ao chegar ao trabalho no dia seguinte e fechar com chave de ouro, foi aplaudido por seus colegas, que sabiam do seu time de coração.

Música em homenagem

Não suficiente na memória dos presentes, a noite de 30 de junho ficou eternizada na voz da banda Visitantes, com a música “A Estrela de 2004 (copando o Maracanã)”, da qual Mau é um dos integrantes. Fundada para registrar as histórias em música, o grupo também canta sobre “personagens e causos do time”, como conta nosso personagem. Além dele, o resto da torcida que compõem o grupo tem os integrantes: Jão, Mari, Gui, Nicholas, Ale, Nelson, Enrique e André Biazon.