Torcedores com deficiência contam experiência de assistir à final da Copa do Brasil de 2018

Imagine você chegando ao estádio, final da Copa do Brasil. Arquibancadas lotadas, festa na torcida, expectativa a mil. De repente, silêncio. Você ainda consegue ver a alegria estampada em cada rosto, mas já não consegue ouvir ou se mover. Essa é a realidade enfrentada por diversos torcedores Brasil afora. É o que acontece com Leônidas Rabelo de Vasconcelos Bisneto e Deyvid Leandro Ferreira Procópio. Em comum, além do amor pelo Cruzeiro, existe o fato de serem pessoas com deficiência.

Natália Andrade
Colaborador do Torcedores

Crédito: Cristiane Mattos/Acervo Pessoal

Os dados

Segundo a Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), existem um bilhão de pessoas com algum tipo de deficiência no mundo, sendo 46,5 milhões no Brasil – ou seja, 24% da população brasileira. É como se numa sala com 100 pessoas, 24 apresentassem algum dos diversos tipos de deficiência existentes. Parece muito? Agora imagine que a maior parte dessas pessoas não encontram espaços adequados para que possam viver com normalidade e independência. E, assim como a maior parte dos lugares, os estádios de futebol não se mostram completamente adaptados para receber essas pessoas.

Superando desafios

Ainda assim, o amor pelo futebol prevalece. Apesar das dificuldades, eles tentam se juntar sempre aos demais torcedores para acompanhar o clube amado. Afinal, embora as diferenças sejam muitas, o amor pelo esporte é um só, seja qual for a camisa. Em 10 de novembro de 2018, Leônidas se juntou a quase 54 mil apaixonados para acompanhar o primeiro jogo da final da Copa do Brasil. Já no dia 17 de novembro, com a final sendo realizada na Arena Corinthians, Deyvid assistiu à partida acompanhado pela esposa e amigos em um bar de Ipatinga, região do Vale do Aço em Minas Gerais. Ali não existiam diferenças: eram torcedores como quaisquer outros. Será?

Primeiro jogo: a final do Leônidas

Leônidas é cadeirante desde 1 ano de idade, quando sofreu um acidente de carro que o deixou paraplégico. Assim como a deficiência, o amor pelo futebol o acompanhou por toda vida e mesmo com dificuldades jamais deixou de frequentar os estádios.

Do mesmo modo como em todos os jogos, ele chegou pelo estacionamento e se dirigiu ao setor vermelho inferior, único com capacidade para receber cadeirantes no Mineirão. Ainda assim, Leônidas conta que teve dificuldade para acompanhar alguns momentos da partida, pois torcedores de pé dificultavam sua visão. Para ele, a parte mais emocionante foi ver a festa de recepção dos jogadores no gramado. “Foi uma final eletrizante, me arrepiei, chorei e nunca me senti tão feliz na minha vida. E no outro dia até pintei meu cabelo de azul”, relata.

Ele poderia ter ido ao outro jogo da final, realizado na Arena Corinthians, em São Paulo, mas evita ir a outros estádios, por possíveis problemas com a acessibilidade.

Segundo jogo: a final do Deyvid

Deyvid é surdo e tem problemas de locomoção. Preside o Comando Surdos Vale do Aço, reside em Ipatinga e enfrenta uma viagem que dura entre quatro e seis horas para acompanhar os jogos do Cruzeiro. Além da estrada, ainda enfrenta dificuldades no Mineirão, estádio em que o Cruzeiro é mandante e que não possui intérpretes de libras nas visitas guiadas, fornecimento de informações e museu.

Cruzeirense fanático, ele ostenta sete tatuagens em homenagem ao time celeste. Assistiu à final acompanhado da esposa, que também é sua intérprete. Mesmo contando com ajuda, afirma que consegue entender o jogo pela emoção da torcida: “Eu ouço com os olhos, vendo a torcida e acompanhando o jogo sei o que acontece. Somos surdos mas ouvimos com os olhos e falamos com as mãos”. Para ele, o melhor momento do jogo foi o gol do uruguaio Arrascaeta, que sacramentou a conquista celeste sobre o Corinthians: “Fiquei muito feliz, com vontade de chorar, arrepiado. Amo o Cruzeiro apesar das dificuldades e ouço com a voz do coração”.

Em busca de melhores condições

Leônidas e Deyvid têm uma demanda em comum: a criação de um programa de sócio para torcedores com deficiência. Atualmente eles têm direito a um sócio da Minas Arena, administradora do Mineirão, mas querem que essa ação venha do próprio Cruzeiro, já que reiteram ser torcedores do clube, e não do estádio. A categoria, que Leônidas denomina “Cruzeiro Eficiente”, já é uma velha promessa da diretoria do Cruzeiro, e segundo ele já existiram várias promessas sobre data de lançamento, que até aqui não foram cumpridas. “Nós queremos um plano especial pra duas pessoas, que é para nós e para nosso acompanhante”, conta.

Além de ajudar o clube, eles também querem ter direito a benefícios que são oferecidos pelo plano de sócio-torcedor do Cruzeiro, como a troca de pontos por visitas aos centros de treinamentos e materiais oficiais da equipe. “Queria que o Cruzeiro tivesse mais carinho com os deficientes, sem exceção. Dar mais oportunidades, como prometeu o cartão Cruzeiro Eficiente. Já faz um ano, e nada até hoje. Queremos mais do que promessas, queremos ser vistos, ser mais destacados, queremos mais oportunidades porque somos torcedores também”, destaca Deyvid.

Procurado, o responsável pelo programa de sócio-torcedor do Cruzeiro não retornou os contatos.

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